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Racismo provoca tensão, alterações fisiológicas e danos na saúde mental

A discriminação racial cotidiana vivenciada pela população negra mostra cada dia que é um estressor ligado ao desenvolvimento de problemas de saúde e uma importante explicação para as diferenças de saúde entre pretos e brancos

Texto: Suiane Costa Ferreira | Imagem: Reprodução

Em Salvador, ano de 2018, os casos de diabetes em pessoas negras representaram 72% das mortes pela doença, comparada com 20,5% dos brancos. Em relação às doenças hipertensivas, 74,5% das mortes foram de pessoas negras, em comparação com 19% de pessoas brancas (NEGRAS, 2020). A hipertensão e a diabetes são mais prevalentes entre os negros no Brasil e são as principais causas para as altas taxas de mortalidade cerebrovascular (por infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, por exemplo).

No desenvolvimento e controle da hipertensão e da diabetes existem fatores modificáveis relacionados à alimentação, sedentarismo, sobrepeso e uso correto de medicação, que devem ser motivo de atenção para um melhor autocuidado. Nesse contexto, é possível pensar que a população negra por ter piores condições de moradia e de trabalho, com baixas condições sanitárias, com menor renda e pior acesso aos serviços de saúde, somam diversos indicadores de vulnerabilidade que aumentam seu risco para hipertensão e diabetes.

 

Contudo, estudos recentes mostram que quando a população negra tem seu status socioeconômico igualado ao da população branca, ela continua apresentando diferenças na saúde, sugerindo que a pobreza por si só não pode explicar as diferenças dos problemas de saúde entre pretos e brancos.

O estresse crônico causado pelo racismo cotidiano vem sendo apontado como um ponto chave a ser investigado. Muitas pessoas se adaptam a viver com eventos estressantes sistemáticos. Porém, mesmo depois da adaptação psicológica à tensão de longo prazo, alterações fisiológicas podem continuar a afetar o bem-estar físico e psicológico.

A restrição à moradia, segregação e escassez de oportunidades econômicas, e acesso à participação social limitada produz estresse crônico na população negra, mas, além disso, existem as micro agressões diárias e a internalização de estereótipos negativos que também devem ser considerados (Mata e Pelisoli, 2016). Dessa forma, é possível argumentar que os eventos racistas provocam tensão, alterações fisiológicas e danos na saúde mental.

Pesquisas científicas dos últimos anos mostram que o estresse crônico relacionado às experiências do racismo conduz a:

- disfunção do eixo hipotálamo-hipófise e mudanças metabólicas secundárias que contribuem para comorbidades como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares (Ajilore e Thames, 2020);

- resistência à insulina, onde vivenciar adversidades na infância bem como exposições ao racismo percebido na vida adulta são fatores de estresse que ajudam a compreender as disparidades raciais na glicorregulação, com a população negra apresentando mais dificuldade de controlar a glicemia (Fuller-Rowell et al, 2019);

- aumento de citocinas pró-inflamatórias e diminuição de respostas antivirais inatas, contribuindo para disparidades raciais nas taxas de doenças crônicas relacionadas à inflamação, como doenças cardiovasculares, neoplásicas e neurodegenerativas (Thames et al, 2019).

- envelhecimento celular prematuro, onde a discriminação racial percebida é associada a menor comprimento dos telômeros de leucócitos nos negros, o que mostra um envelhecimento precoce do sistema imunológico, bem como envelhecimento geral do organismo, associando-se a vários problemas relacionados a este envelhecimento como as doenças cardiovasculares, síndrome metabólica, osteoporose, osteoartrite, declínio cognitivo e mortalidade (Chae et al, 2020).

A discriminação racial cotidiana vivenciada pela população negra mostra cada dia mais ser um importante estressor ligado ao desenvolvimento de problemas de saúde, inflamação crônica e envelhecimento celular prematuro e uma importante explicação para as diferenças de saúde entre pretos e brancos.

Esses dados mostram que lutar contra o racismo estrutural no Brasil não se trata de uma pauta exclusivamente identitária, ligada ao pertencimento a um grupo específico e ao exercício de uma subjetividade. Paulo Ramos (2019) em seu artigo afirma que definir os movimentos sociais como identitários é limitar o movimento a apenas uma de suas facetas, a chamada identidade, àquela gama de características que lhe dá sentido de grupo, negando todas as outras características, sociais, políticas, históricas e conjunturais.

A luta antirracista não se circunscreve a um debate superficial sobre quem pode ou não usar tranças e turbantes ou de promover campanhas oportunistas nas redes sociais. Lutar contra o racismo significa efetivamente lutar pela sobrevivência da população negra, incluindo forçar o debate racializado na área da saúde, entendendo como o racismo opera e mata para além da bala da polícia, se escamoteando na falsa ideia da oferta de um cuidado de saúde adequado para todos a partir de políticas públicas generalistas.

Sem conhecimento das reais repercussões fisiológicas do racismo no corpo preto, como produzir um melhor cuidado para esta população?

Suiane Costa Ferreira é enfermeira, pesquisadora, professora e doutora em Educação.

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