QUILOMBO / Segunda, 07 Junho 2021 14:22

Por que o movimento negro quer falar de meio ambiente?

Enquanto o governo brasileiro passa vergonha por ações contrárias ao meio ambiente e sua necropolítica, o movimento negro se mobiliza pela sobrevivência da população dos territórios que sofrem com o racismo ambiental e com os impactos da pandemia

Texto: Vanessa Nascimento e Thais Santos | Imagem: Thiago Fernandes (Antes da pandemia)

Imagem mostra roda de pessoas negras em região de mata, antes da pandemia
Introdução:

Enquanto o governo brasileiro passa vergonha por ações contrárias ao meio ambiente e sua necropolítica, o movimento negro se mobiliza pela sobrevivência da população dos territórios que sofrem com o racismo ambiental e com os impactos da pandemia

Texto: Vanessa Nascimento e Thais Santos | Imagem: Thiago Fernandes (Antes da pandemia)

Já ouvimos muita gente falar que a militância ambiental é feita por e para pessoas brancas. Olhando para a história do movimento ambientalista, podemos dizer que de certa maneira a afirmação está correta. De certa forma, pois há alguns anos o termo usado por muitos e muitas especialistas ao abordar o tema é a chamada luta socioambiental. Ao trazer o elemento humano e suas relações para o campo ambiental, já vemos essa militância acontecer em outros espaços, ainda com pouca visibilidade.

Muitas vezes, essas pessoas são mais vistas como beneficiadas pelas ações ambientais do que protagonistas da mudança. E é sobre isso que quero falar: como ampliar as vozes deste movimento? Cada vez mais o movimento negro quer estar na centralidade do debate ambiental, na mesa de decisão e cobrar o Estado, pois o racismo ambiental está em nosso dia a dia e precisamos falar disso.

 

Enquanto vemos o governo brasileiro passar vergonha aqui e lá fora a partir de suas ações contra o meio ambiente e com sua necropolítica, o movimento negro se mobiliza pela sobrevivência da população negra e pobre dos territórios que sofrem com o racismo ambiental e com os impactos da pandemia de Covid-19.

Criado por Benjamin Franklin Chavis Jr. na década de 1980, o conceito racismo ambiental trata, a grosso modo, da discriminação racial que direciona ou expõe comunidades étnicas e minoritárias, deliberadamente, a locais que trazem riscos à saúde, seja pela contaminação tóxica ou no contato com resíduos perigosos. Além disso, trata da exclusão na formulação, aplicação e remediação de políticas ambientais.

Ao levantar a importância do debate socioambiental com o contorno também de raça, destacamos aqui o racismo estrutural. Com ele, foram estabelecidas normas sociais, econômicas e também ambientais para garantir a “ordem” desta sociedade racista que dura séculos. Entre essas normas sociais e ambientais, podemos citar o distanciamento da população negra de sua ancestralidade. Historicamente, a população negra sempre teve grande conexão com a terra, seja na produção do nosso alimento, na relação com a terra e o amor à natureza em respeito aos nossos ancestrais.

Em 2018, o planeta ficou 1,1ºC mais quente, segundo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). O sistema agrícola deve ser um dos setores mais afetados pela mudança climática, com mais ou menos danos, a depender da região. Frequentes chuvas ou secas intensas podem levar à escassez de alimentos e à fome, segundo o IPCC. Em 2014, alterações no clima já afetaram negativamente safras de milho e trigo em diversos locais do planeta.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 800 milhões é a quantidade de pessoas que passam fome no mundo hoje. Se olharmos para estes dados e fizermos um exercício sobre quem pode ser mais afetado por tudo isso, para quem nossos olhos serão apontados? Muito provavelmente para a população negra, periférica, boa parte dela moradora de regiões em extrema vulnerabilidade. Portanto, estamos falando da nossa sobrevivência!

Outro exemplo, nos indica como a população negra é refém de consumir em grandes redes varejistas capitalistas que, além de lucrarem com a venda de comida industrializada e com veneno, perseguem pessoas negras nos supermercados como se fossem criminosas; como foi o caso em setembro de 2019 quando um jovem negro foi torturado por seguranças do supermercado Ricoy, na zona sul de São Paulo, acusado de roubo. Dois anos antes, João Vitor, de 13 anos de idade, foi assassinado por seguranças da lanchonete Habibs. Pedro Gonzaga, assassinado no supermercado Extra, e João Alberto Silva Freitas, assassinado no Carrefour ganharam repercussão nacional.

Mais recentemente, Bruno Barros, de 29 anos, e Yan Barros, de 19 anos, tio e sobrinho, foram mortos após furto de carne no Atacadão Atakarejo, de Salvador. A mercadoria já havia sido devolvida e os dois retirados do estabelecimento. Em vez de levarem o caso à polícia, os seguranças do local preferiram entregar os dois a traficantes da região. Todos esses casos escancaram o genocídio negro promovido por empresas privadas com a conivência do Estado brasileiro.

Além da urgência em construir alternativas de consumo que não alimentem o grande capital com sua política de morte, é importante ressaltar que mais de 116,8 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar ou passando fome no Brasil, segundo pesquisa feita em dezembro de 2020 pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan). Pessoas pretas passam fome em 10,7% dos domicílios.

É necessário trabalhar por soberania alimentar, para que cada comunidade tenha o direito de decidir sobre suas formas de viver e alimentos a consumir e produzir. E é por isso que temos falado em união. O movimento negro urbano também tem aprendido com os movimentos quilombola e campesino a travar a luta popular também nas cozinhas, quintais e terrenos comunitários.

No dia 5 de junho foi celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. Neste contexto, territórios comunitários onde a Uneafro Brasil atua preparam suas terras para receber hortas urbanas comunitárias que, além de oferecer formações sobre mapeamento territorial, soberania alimentar, agroecologia, horticultura, entre outras.

Destacam-se ainda as formações política para jovens periféricos e de autocuidado, manejo e usos de ervas medicinais, que também serão incorporadas nas ações realizadas nos 39 núcleos da Uneafro e no núcleo virtual criado durante a pandemia para garantir o acesso à educação aos jovens participantes dos cursinhos populares.

A resistência ao racismo, ao machismo e ao capitalismo passam necessariamente pela soberania alimentar, pela preservação do meio ambiente, água como um direito, pelas práticas de cuidado e pela terra. A juventude negra, torturada e assassinada nos supermercados, não pode seguir comprando veneno para aumentar o lucro de seus assassinos. E, por isso, estaremos aqui falando disso cada vez mais.

Vanessa Nascimento é graduada em Letras pela Universidade Braz Cubas. Militante do movimento negro desde 2006, é fundadora da Uneafro Brasil e diretora do Instituto de Referência Negra Peregum.

Thais Santos é química e doutoranda em Bioenergia. É educadora popular, fundadora da Comunidade Cultural Quilombaque e coordenadora de núcleo da Uneafro Brasil.

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