QUILOMBO / Segunda, 27 Abril 2020 17:56

O Brasil precisa que a pauta fique preta

A mídia hegemônica deveria se aliar a estes novos agenciamentos para que a sociedade como um todo pudesse compreender os diferentes anseios que pulsam dentro dela

Texto / Claudia Alexandre | Imagem / Mídia Negra

É muito simbólico comemorar os cinco anos do Portal Alma Preta, que se tornou uma das mais importantes agências de jornalismo especializado na questão racial, num momento em que enfrentamos uma crise humana sem precedentes, agravada pelo cenário político e pela luta contra a pandemia do coronavírus no Brasil e no mundo.

É urgente renovar a discussão sobre o papel das mídias negras neste contexto, principalmente no nosso país, com 56 % da população negra (preta e parda), ou seja, mais de 100 milhões de pessoas, segundo o IBGE. Uma parcela significativa que historicamente é colocada entre a invisibilização e a sub-representação na “grande” mídia.

O Alma Preta engrossa o espaço ocupado por outras mídias (negras, alternativas, arranjos e radicais, etc) que atuam na distribuição de conteúdos pela internet. É neste lugar que nos últimos anos amadurecem as pautas pretas e anti-racistas, que impactam diretamente a vida de milhares de brasileiros na contramão do desprezo da mídia hegemônica, eurocêntrica e racista.

Uma mídia branca soberana, incluindo produtores e produção, não dará conta de um campo social plural como o que vivemos. Será sempre uma mídia que se isentará da responsabilidade de defender verdadeiramente o interesse público.

A força crítica e o poder de mobilização das mídias negras amplifica a ação de sujeitos contra todas as formas de discriminação, propondo caminhos para o debate sobre o racismo e o anti-racismo.

Foi enfrentando a estrutura da nossa sociedade midiatizada, que se manteve erguida a bandeira contra os crimes da escravidão, a falácia da democracia racial, a objetificação de corpos negros, a violência contra mulheres negras, o genocídio da juventude negra, o racismo religioso, a política de guerra às drogas e de encarceramento; e contra as mortes de Amarildo, de Claudia Ferreira, de Anderson e Marielle Franco.

Como elevaríamos o debate sobre a política das cotas raciais? Quem alertaria sobre a importância do recorte racial nas notificações dos acometidos pela Covid-19, cujas comorbidades e a letalidade social é maior entre pessoas negras?

É verdade que houve um tempo em que a imprensa negra tinha como principal preocupação incentivar a luta e a resistência entre os iguais (Jornal O Homem de Cor 1833), contra as injustiças e atrocidades do sistema escravagista.

Do anseio pela liberdade, como apoio ao movimento abolicionista até as denúncias de racismo e protestos contra um Brasil de desigualdades raciais, já se foram 137 anos.

Para além de serem veículos especializados, que confrontam a mídia dominante, a imprensa negra ao longo do tempo atualizou sua presença social, sendo também a alternativa no mercado de trabalho para profissionais negros, em grande parte, excluídos das redações e de postos de liderança nas empresas de comunicação.

É neste universo de desigualdades e silenciamento sobre as demandas da população afro-brasileira que o Alma Preta tem pautado e racializado o debate, indo à campo na cobertura da pandemia do novo coronavírus no Brasil e incluído o panorama nos países da África.

Enfim, impondo uma ação política na produção de conteúdos que provoquem novos olhares e novas narrativas diante de um problema global, onde corpos negros não devem ser subestimados.

O Brasil precisa que a pauta fique preta para que finalmente haja a revolução afirmativa nas relações raciais. É fundamental que as mídias negras se ocupem das especificidades pautando o mundo sobre questões urgentes do povo negro.

Por outro lado, a mídia hegemônica deveria se aliar a estes novos agenciamentos para que a sociedade como um todo pudesse compreender os diferentes anseios que pulsam dentro dela.

Cláudia Alexandre é jornalista, mestre e doutoranda em Ciência da Religião (PUC) e integrante da COJIRA (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial).

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