QUILOMBO / Sábado, 18 Abril 2020 09:34

Monteiro Lobato, um pai eugenista

18 de abril é o dia nacional da literatura infantil, uma homenagem ao escritor Monteiro Lobato, nascido na mesma data; Em texto publicado no Alma Preta, Juliana Correia escreve sobre o racismo presente na literatura do autor e as suas ligações com o movimento eugenista

Texto / Juliana Correia I Imagem / Reprodução

Monteiro Lobato
Introdução:

18 de abril é o dia nacional da literatura infantil, uma homenagem ao escritor Monteiro Lobato, nascido na mesma data; Em texto publicado no Alma Preta, Juliana Correia escreve sobre o racismo presente na literatura do autor e as suas ligações com o movimento eugenista

Texto / Juliana Correia I Imagem / Reprodução

Monteiro Lobato integrou a Sociedade Eugênica de São Paulo, fundada em 1918. O movimento eugênico era político, social e cultural, formado por médicos, juristas, sanitaristas e outros intelectuais, que pregavam a superioridade da raça branca e o extermínio da raça negra. A eugenia serviu como alicerce para as constituições federais de 1934 e 1937, sendo, inclusive, determinante às diretrizes do sistema educacional brasileiro. Lobato trocou cartas com grandes amigos como o médico Renato Kehl, um dos principais eugenistas em atuação à época e, em tais escritos, sequer disfarçou sua ojeriza ao negro.

Monteiro Lobato morou nos Estados Unidos e tentou publicar por lá O Presidente Negro (ou O Choque das Raças), livro de ficção científica, direcionado aos adultos. Ao longo do texto é apresentado um equipamento que permite ver o futuro, chamado "porviroscópio". O equipamento revela que em 2228, um homem negro será eleito presidente dos Estados Unidos. Entre outros absurdos ao longo da narrativa, se destacam os brancos (homens e mulheres) revoltados com o resultado do pleito eleitoral e organizados na fabricação e distribuição de um alisante para os cabelos dos negros. E nesse alisante, há uma substância esterilizante.

Devido ao teor racista, Lobato teve esta obra recusada por cinco editoras, nos EUA. Frustrado, em uma das cartas escritas aos amigos eugenistas, lamenta não ter tentado publicar por lá antes, quando a violência contra o povo negro era ainda mais explícita. Em carta também lamenta não haver uma ku klux klan no Brasil.

E, de volta ao Brasil, decide então escrever para crianças de forma mais sistemática. Era pai e sentia falta de uma literatura para o público infantil. No entanto, em mais uma das cartas trocadas com seus amigos eugenistas, declara que seguirá propagando os ideais eugênicos. O que não conseguiu difundir entre os adultos nos EUA, trataria de difundir por aqui, de forma lúdica, pelo encantamento.

Em Caçadas de Pedrinho e Histórias de Tia Nastácia, por exemplo, a personagem negra, que trabalha como cozinheira da casa grande da sinhá Dona Benta, é xingada em vários momentos com termos como "negra beiçuda". Muitos desses xingamentos partem de Emília, a boneca de pano falante, popular pelo temperamento arredio e, talvez por isso, uma voz autorizada a profanar todo tipo de violência.

A supervalorização da escrita e a desqualificação da tradição oral também acompanham as falas da sinhá Benta. O louvor ao conhecimento científico e às artes clássicas em detrimento ao saber popular promove uma hierarquização das culturas, apontando o europeu como modelo para o desenvolvimento humano.

O Sítio do Picapau Amarelo cumpriu muito bem o seu papel de propagar os ideais eugênicos. Cumpriu tão bem que foi realmente pela fantasia, pelo faz de conta, que o autor pôde se expressar, sem fazer alarde. Nesta nossa sociedade, racista que só, um eugenista virou "pai da literatura infantil".

Sua obra está nas escolas públicas, especialmente nas periferias, nos morros e favelas, onde as crianças matriculadas são majoritariamente negras. Muitas bibliotecas ou salas de leitura dessas instituições são nomeadas “Monteiro Lobato”, em sua homenagem. No entanto, vale lembrar que se dependesse dele e do movimento que ele integrava essas crianças nem existiriam hoje.

Proteger o nome de Monteiro Lobato apagando as expressões racistas de sua obra é uma estratégia para esconder o projeto político genocida do qual ele fez parte e ainda está em voga. Todo esse material deveria se manter intacto e acessível aos pesquisadores, pois são documentos que foram fundamentais à formação do pensamento social brasileiro. Um pensamento que ainda ecoa, orientando discursos, currículos, políticas públicas.

Monteiro Lobato foi um racista declarado, engajado ao movimento eugênico. Ele segue altamente perigoso, vide a sua vasta contribuição ao extermínio sistematizado do povo negro por meio de sua obra e a blindagem que recebe pelo status de cânone literário.

Ele atuou pela subjetividade, atacando as lógicas próprias de povos não ocidentais, lógicas que não condizem com o modelo cultural eurocêntrico (branco, cristão, heteronormativo, etc), e esta atuação estava intimamente relacionada a um projeto político genocida. Lobato não foi apenas “um homem do seu tempo”. Ele tinha plena lucidez sobre o que estava fazendo e trabalhou arduamente pelo genocídio do povo negro.

É importante não perder de vista que racismo é política e tem a ver com poder. Quando autoridades públicas se referem aos quilombolas e indígenas como “inúteis até para procriar”, estão fazendo o mesmo. A diferença está apenas na forma como os racistas se expressam. Uns mais diretos, objetivos, outros pelo lúdico, pelo encantamento. A finalidade, no entanto, é idêntica: desumanizar, explorar e matar.

É lamentável ver o esforço do mercado editorial para manter em circulação as obras deste escritor a qualquer custo, inclusive maquiando o texto. O racismo opera no Brasil de maneira tão sutil, tão sofisticada, que se beatifica um algoz e se articulam esforços para canonizá-lo. No limite, afirmam-no como alguém apenas “contraditório”, quase romantizando o contexto.

Como mencionado anteriormente, o racismo tem a ver com poder. As narrativas também cumprem um papel fundamental para a manutenção das assimetrias sociais que garantem os privilégios de quem controla a economia e a política em nossa sociedade. Ou seja, o mercado editorial não fica de fora desta ciranda.

Se não acredita, responda, por gentileza: quantos escritores e escritoras negras e indígenas as grandes editoras (que se desdobram por Monteiro Lobato, inclusive) já publicaram?

Aproveitando o ensejo, vide as sessões de contação de histórias promovidas nas redes sociais de grandes editoras ao longo desta quarentena, quantos narradores e narradoras negras foram contratados até aqui e já se apresentaram?

As narrativas refletem compreensões sobre o mundo. Ao mesmo tempo, formam pensamentos, educam, imprimem valores, comportamentos. Portanto, atenção ao que é narrado, bem como por que, onde, como, quando e por quem é narrado. Vivemos em um país rico em sua diversidade cultural. No entanto, toda essa riqueza segue sendo lembrada apenas quando convém, como em datas comerciais para atender nichos mercadológicos e, nas escolas, em datas comemorativas, para simular alguma democracia.

A luta pela emancipação do povo negro passa pela descolonização mental. É parte primordial desse processo entender que os cânones literários ocidentais não precisam continuar como referências únicas, absolutas, intocáveis. Eis aqui um convite para ouvirmos, escrevermos e narrarmos cada vez mais as nossas próprias histórias. Um convite para mergulharmos profundamente nas memórias do nosso povo e (re)construirmos as nossas narrativas no lugar de endeusar figuras que arquitetaram a nossa destruição. Afinal, como ensina a sabedoria ancestral africana, “enquanto os leões não contarem as suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre os caçadores*”.

*Provérbio Haussa

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