QUILOMBO / Quinta, 29 Abril 2021 15:01

Homens negros acusados de furtar comida foram entregues por supermercado a traficantes

O caso aconteceu em Salvador, na Bahia, e gerou revolta devido ao aumento da fome no país; imagens indicam que os acusados, que foram mortos, passaram por tribunal do crime

Texto: Henrique Oliveira | Imagem: Reprodução/Redes sociais

Imagem mostra os dois homens negros sentados no chão do supermercado, acuados, e as peças de carne que foram furtadas
Introdução:

O caso aconteceu em Salvador, na Bahia, e gerou revolta devido ao aumento da fome no país; imagens indicam que os acusados, que foram mortos, passaram por tribunal do crime

Texto: Henrique Oliveira | Imagem: Reprodução/Redes sociais

Com marcas de tortura e disparos de arma de fogo, os corpos de Bruno Barros Silva, de 29 anos, e de Ian Barros da Silva, de 19 anos, foram encontrados no porta-malas de um carro no bairro da Polêmica, em Salvador, Bahia, na segunda-feira (26). Tio e sobrinho foram flagrados furtando pedaços de carne no supermercado Atakadão Atakarejo, no bairro de Amaralina.

Segundo relatos de funcionários do supermercado ao jornal Correio, o gerente do supermercado entregou Bruno e Ian para traficantes da região. Fotografias e vídeos que circulam no WhatsApp mostram as vítimas dentro do Atakerejo e depois, ainda vivas, sentadas em uma escada, ao que tudo indica passando por um tribunal do crime.

De acordo com familiares, Bruno era pai de uma menina de dois anos e morava na mesma casa que o sobrinho Ian, no bairro Fazenda Coutos, no subúrbio ferroviário da cidade. Ambos saíram de casa nas primeiras horas da manhã e foram detidos no supermercado localizado na rua Jânio Quadros, em Amaralina, às 15h30.

Em comunicado, o supermercado informou ser “cumpridor da legislação vigente” e que “atua rigorosamente comprometido com a obediência às normas legais”, “não compactuando com qualquer ato em desacordo com a lei'”. Em relação ao fato, o Atakarejo disse que “envolve segurança pública” e será “investigado e conduzido pela autoridade competente”.

Ao dizer que o fato ocorrido está na esfera da segurança pública, o supermercado ignora que Bruno e Ian foram primeiramente detidos por sua equipe de segurança e não foram entregues à polícia, como deveria ter sido. O brutal assassinato merece apuração e o total interesse público, pois precisamos saber qual é a relação entre o Atakadão Atakarejo e grupos criminosos que em nome de uma certa “lei da rua”, de que “não pode roubar na área”, privatizam e vendem a segurança. Por que o Atakarejo preferiu entregar os acusados a homens armados em vez da polícia? O que o Atakadão Atakarejo espera receber em troca?

Os deputados estaduais Jacó (PT) e Olívia Santana (PCdoB) pediram a criação de uma investigação especial sobre os assassinatos de Bruno Barros e Ian Silva. Jacó, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa da Bahia, encaminhou um ofício à Secretaria de Segurança Pública, para que um delegado especial seja nomeado para cuidar do caso. As mortes de Bruno e Ian são investigadas pela 1º Delegacia de Homicídios.

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A lógica do “bandido bom é bandido morto”

Em nome da lógica do “bandido bom é bandido morto”, seguranças de supermercados de todo o Brasil agridem, torturam e matam pessoas acusadas de praticar pequenos furtos, sobretudo os chamados furtos famélicos, crimes cometidos para ter o que comer.

Um levantamento da Agência Pública, publicado em 2019, aponta que entre os anos de 2014 e 2018, o furto de alimentos cresceu 16,9% no estado de São Paulo, por exemplo. Em 76% dos casos os acusados são homens que furtaram em sua maioria alimentos de origem bovina, seguidos de doce/chocolate, leite e derivados e alimento infantil.

Apesar de o furto ser um crime cometido sem grave ameaça à vida e uso de arma de fogo é recorrente a abertura de processo e condenações de pessoas que furtam comida no Brasil, alguns desses casos chegam a tramitar nas esferas superiores do poder judiciário, a exemplo da recente absolvição concedida pela ministra Carmen Lúcia do STF (Supremo Tribunal Federal), a um casal condenado a quatro meses de prisão e multa por furtar R$ 155 em alimentos e produtos de higiene.

Ou a pedido dos advogados dos réus ou por promotores que recorrem de absolvições e condenações mais brandas, o que acaba por sobrecarregar o sistema de justiça de forma desnecessária. O Artigo 24 do Código Penal estabelece que se alguém praticou um delito para se salvar de perigo atual que não poderia ter sido evitado de outra forma fica excluída sua ilicitude. Portanto, não existiria crime se o faminto agiu para saciar a fome, visto que a concepção de fome com base na lei fica atrelada ao risco emergencial à vida.

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O caso de Bruno e Ian também é muito simbólico ao relacionarmos o furto de carne ao atual momento da economia brasileira, em que o preço desse alimento subiu 31% em 12 meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor, o que faz com que a carne tenha um alto valor de troca, seja para consumo ou para a revenda. Além da inflação, a alta na taxa de desemprego e a falta de um auxílio financeiro por parte do governo têm favorecido o aumento da fome no país. Porém, o desejo por punição em uma sociedade herdeira da escravidão não perde a oportunidade de infligir dor ao corpo negro, que infelizmente continua a ser a carne mais barata do mercado. 

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