Embaixador da Nação Xambá, Guitinho plantou sementes que florescem

A morte precoce de Guitinho da Xambá, cantor e ativista pela causa racial, do povo de terreiro e da cultura afro-indígena levanta reflexões sobre acesso à saúde  e diagnóstico tardio da população negra

Texto e imagens: Lenne Ferreira 

Introdução:

A morte precoce de Guitinho da Xambá, cantor e ativista pela causa racial, do povo de terreiro e da cultura afro-indígena levanta reflexões sobre acesso à saúde  e diagnóstico tardio da população negra

Texto e imagens: Lenne Ferreira 

Um cortejo de amor e respeito ao filho do Terreiro da Nação Xambá. Do jeito que pediu, Guitinho teve seu corpo conduzido até o cemitério de Águas Compridas, em Olinda, na cadência de uma sambada que entoou as composições que ele cantou ao longo de mais de 20 anos de carreira com o grupo Bongar. A morte “precoce” do líder, músico e ativista deixou muita gente incrédula. Aos 38 anos,  Gutinho sofria com uma doença rara, a Síndrome de Cushing, que nunca tinha ouvido falar até ser diagnosticado tardiamente. Detentor de uma sapiência excepcional, Guitinho foi leal aos fundamentos do seu povo e recebeu sua recompensa. Seu pai, Ogun, abriu caminho no aiyê para que seu filho seguisse para a eternidade pelos braços de Oyá. 

A notícia da morte de Guitinho, internado desde o dia 1 de fevereiro, fez com que muita gente parasse tudo pra ir pesquisar mais sobre o problema que adoeceu seu corpo. Portador da Síndrome de Cushing (doença caracterizada pela elevada concentração de cortisol no sangue), da qual só teve conhecimento no final de 2020, Guitinho lidou por anos com o aumento do peso e diversos problemas de saúde como hipertensão e diabetes. “A gente achava estranho porque ele fazia de tudo para emagrecer e não conseguia. Andamos por vários médicos. Mas, inicialmente, ele não tinha plano de saúde”, conta a esposa, amiga e produtora Marileide Alves, que fez questão de publicar uma postagem nas redes do grupo para informar ao público sobre a doença do artista.

Em 2019, Guitinho chegou a ficar internado uma semana em um hospital público, mas os médicos não detectaram a doença. Percebendo que o quadro de saúde se agravava pouco a pouco, Marileide recorreu ao sistema de saúde particular. Veio a pandemia, o que dificultou e retardou ainda mais o processo. “Guitinho sentia muitas dores, tinha uma alimentação equilibrada, mas não parava”, conta. Em dezembro, foi internado para uma cirurgia no joelho e, durante consulta com uma endocrinologista, a Síndrome foi, finalmente, revelada. O artista foi liberado para passar Natal e Ano Novo com a família, mas, deveria ser internado em 1 de janeiro, o que não ocorreu a pedido dele, que queria participar de um tradicional ritual para Ogun. 

A internação para uma cirurgia veio em 1 de fevereiro, mas um AVC (Acidente Vascular Cerebral) o colocou na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e seus efeitos foram irreversíveis, o levando a óbito. A doença de Guitinho, que até dois anos nem plano de saúde tinha, foi a mesma anunciada ano passado pela filha de Fafá de Belém, a cantora Mariana Belém. Em sua rede social, ela compartilhou o processo de anos em busca de profissionais para detectar o que gerava aumento de peso e outros problemas. No ano passado, Mariana  encontrou um especialista, que detectou a Síndrome de Cushing e com quem iniciou um tratamento hormonal. Ela também tem investido em microfisioterapia, que custa, em média, R$ 800 por sessão. Em sua rede social, onde faz divulgação o processo de tratamento, Mariana escreveu: “A autocura é um caminho para o equilíbrio, é harmonizar o seu corpo físico, mental, emocional e espiritual”. Em sete meses de tratamento, a cantora, de 40 anos, emagreceu 21 dos seus antigos 93 kg.

A possibilidade de cura para homens negros, com lutas travadas diariamente para a manutenção da existência, é algo que nem sempre é possível . Desde os 18 anos, Guitinho, que tinha gradução em Ciências Sociais, dedicou-se ao ativismo político pela preservação dos saberes ancestrais africanos, pela cultura afro-indígena e mais dignidade para a população do quilombo urbano onde cresceu. “O povo preto ainda está distante do que é saúde, do que é diagnóstico precoce. A gente não consegue saber sobre as nossas doenças. Não temos acesso à saúde digna e nem reconhecemos que estamos doentes porque o corre é muito grande para dar conta de tantas lutas e acabamos nos negligenciando. Isso nos mata e leva o nosso povo muito rápido. Somos do Axé, sabemos que a passagem vai ser linda, mas os nossos morrem mais cedo por causa do racismo estrutural”, pontua a admiradora e produtora Oba Egbe Fernanda, èkejì de sango. 

Na Quarta-feira de Cinzas de um ano sem Carnaval de rua, aos 38 anos do tempo cronológico convencionado pela branquitude, Guitinho perdeu a batalha para a Síndrome.  A notícia pegou a todos de surpresa e gerou uma onda de comoção no mundo virtual, esse que Guitinho só acessava para a divulgação das atividades culturais e sociais. Guitinho pertencia ao mundo das coisas reais e imateriais. Dividia o celular com a companheira Marileide Alves, que cuidou dele até o momento em que a equipe médica confirmou a morte encefálica do artista que, ao longo de sua fecunda vida, construiu uma trajetória que nunca o afastou dos princípios do Candomblé e da Jurema Sagrada.

homenagemA Nação Xambá se despediu do seu embaixador com rito sagrado comandado por Pai Ivo e uma sambada liderada pelo parceiro Nino Xambá

“Quando criança, a gente chamava ele de profeta”, comenta, emocionada, a mãe Glória, mais conhecida como Dona Gogó, entre os cumprimentos durante o velório do filho no Centro Cultural do Bongar, localizado na comunidade Portão de Gelo, onde Guitinho cresceu e viveu. A saudade anunciada pelos olhos marejados continha a serenidade de uma mãe que tinha certeza: “Tudo que ele quis, ele realizou”. Amparada por familiares, irmãos e irmãs de santo, Dona Gogó agradeceu pelo tempo ao lado do filho, homem de fé, ativista pela causa racial, do povo de terreiro e da cultura popular que, ainda aos 18 anos, ousou sonhar em levar os toques e cantos de sua nação para o mundo. 

“Foi o nosso garoto propaganda. Levou a Nação Xambá para fora do Brasil”, considera o Babalorixá, Adeildo Paraíso da Silva, mais conhecido como Ivo de Xambá, pai de santo de Guitinho. Criado dentro das tradições religiosas africanas, o xambazeiro entendeu muito cedo o seu papel para a comunidade onde nasceu e cresceu. Seguiu os passos revolucionários da mais expressiva Ialorixá da Nação Xambá, Mãe Biu, que foi perseguida pela Ditadura Militar e resistiu bravamente aos desmandos de um estado racista. As sessões de tortura envolviam uma série de violências físicas durante incorporação para comprovar se ela sentiria ou não dor. 

Essas e outras histórias de opressão impulsionaram Guitinho a pensar estratégias de tirar o seu povo da invisibilidade e perpetuar a tradição que, segundo historiadores, é originária da região ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, nos montes Adamaua, vale do rio Benué, no continente Africano. Em Pernambuco, o culto Xambá teve como endereço mais duradouro e potente do ponto de vista de consolidação, a antiga Rua Albino Neves de Andrade, que, hoje, leva o nome de batismo de Mãe Biu, Severina Paraíso da Silva, no Portão do Gelo, em Olinda. A riqueza dessa história foi registrada por Marileide no livro “Nação Xambá, do Terreiro aos Palcos”, finalista do Prêmio Jabuti em 2019. 

A dedicatória do livro foi endereçada a Guitinho: “Por toda sua contribuição nesse projeto. Durante todo o tempo, sua ansiedade foi bem maior que a minha”, escreveu a pesquisadora, que se tornou companheira do cantor. Em 17 anos de convivência, a jornalista também atuou como produtora do grupo Bongar, sendo companheira de viagens e shows pelo Brasil e aliada fundamental para conquistas históricas como as construções do Terminal Integrado da Xambá e do Centro Cultural do Bongar, frutos do ativismo político de Guitinho. O tombamento Terreiro da Xambá, único da América Latina, em 2018, título inédito para uma casa de candomblé de Pernambuco, foi outra conquista que Guitinho pode comemorar em vida. 

meninoUm cortejo pelas ruas da comunidade onde Guitinho cresceu despertou aplauos por onde passou

“Guitinho tinha seu caminho traçado. Cumpriu sua missão”, comentou Marileide durante o velório organizado no espaço cultural que promovia atividades educativas para crianças e jovens da comunidade. A despedida do corpo material de Guitinho mobilizou a população local e gente que admirava a sua trajetória na música e no ativismo político. A pernambucana e deputada estadual, Erica Malunguinho (PSOL), veio de São Paulo prestar solidariedade à família. “Ele era uma referência para todes nós. Guitinho não tinha apenas 38 anos. Seu espírito era de um velho griô”, lembra a parlamentar, idealizadora e proprietária da Aparelha Luzia, espaço que o Bongar já encantou em suas passagens pela capital paulista. 

Velado no anfiteatro do Centro Cultural, antes do cortejo, Pai Ivo comandou a cerimônia de despedida, que contou com a participação de irmãos  de santo, parentes e parceiros de trabalho em projetos musicais e sociais. O prefeito de Olinda,  Professor Lupércio, contra quem Guitinho já endereçou algumas críticas, assim com os veradores como Vinícius Castello, Liana Cirne, entre outras personalidadess políticas também estiveram presentes. Guitinho, que tinha forte incidência política, sempre soube construir estratégias de enfrentamento baseadas no diálogo, o que lhe rendeu o respeito até de pessoas com as quais discordava ideologicamente. Quem não conseguiu ir, enviou coroas de flores. Representantes de organizações como a Rede de Mulheres Negras de Terreiro, o Centro Sabiá, o Itaú Cultural, Cia Artefolia, Voz Nagô, a mandata Juntas e o Ilê Yemanjá Ogunté também prestaram homenagem. Integrantes de diversos movimentos e coletivos de luta racial como a Articulação Negra de Pernambuco, Movimento Negro Unificado e Rede de Mulheres Negras de PE também compareceram à cerimônia.

Oyá assumiu a condução do espírito de um revolucionário que contava com mentoria do orixá Ogum. Parceiro no grupo Bongar, Nino Xambá conduziu a sambada, que saiu do Centro para percorrer a rua por onde Guitinho brincou. Por onde passou, o cortejo despertou aplausos de vizinhos, evangélicos ou não, que reconheciam a importância do artista para a comunidade que conquistou reconhecimento graças à incidência política do músico. “Ele era um rapaz muito educado e gente boa. Uma pena”, lamenta a dona de casa Maria Rita, que seguiu parte do cortejo. 

Sucessos compostos pelo cantor como "Chão batido", "Acorda Maria", "Arreia" foram entoados por crianças e adultos que pararam o trânsito na última homenagem ao cantor conhecido pelas críticas incisivas. A demonstração forte de que seu legado seguirá vivo e que a terra que tanto respeitou e por quem lutou por mais políticas públicas ainda há de fruticar as sementes que plantou.   

Musicalidade e ancestralidade 

bongarAo lado de Thúlio, Memê, Beto, e Nino, Guitinho fez história mundo a fora (Foto: Divulgação/Bongar)

A musicalidade é parte importante da história da Nação Xambá, que camuflava os sons das cerimônias religiosas com o coco de roda. Desde 1961, as sambadas passaram a fazer parte da comemoração do aniversário de Mãe Biu, que todo dia 29 de junho realizava uma grande festa em homenagem a uma criança que morreu dentro de uma cacimba da comunidade. Mesmo depois da morte da Ialorixá, em 1993, seus filhos de santo mantiveram o festejo, que é considerado o “Ano Novo” da Nação Xambá. 

Foi dessa fonte que Guitinho bebeu para formar, ainda aos 18 anos, o grupo Bongar, considerado por muitos um divisor de águas na história do Coco no Nordeste e que conquistou uma legião de fãs como a repórter que vos escreve. O primeiro grande desafio do artista foi convencer os integrantes mais velhos da Nação, que não viam com bons olhos a exposição dos ritos ancestrais. Visionário e grande respeitador dos antigos e das tradições, Guitinho conseguiu conquistar a confiança dos irmãos e irmãs espirituais e trazer os bons frutos colhidos para que todos pudessem desfrutar.

O talento musical fez com que Guitinho se tornasse referência artística de nomes como Lucas dos Prazeres, contemporâneo do músico. “Uma perda irreparável de uma liderança afrofuturista. Guitinho fez revolução no Coco. Foi um grande autor, que compôs com uma caneta afirmativa como poucos tem feito”, ressalta o multiartista, que atualmente mora no Rio de Janeiro e que chegou a planejar projetos com Guitinho. 

Não deu tempo de concretizá-los graças à ação racista da engrenagem estatal balizada pelo “Latifúndio cultural”, como o xambazeiro definia. “Montamos um projeto juntos para unir o Centro Maria da Conceição, o Centro Cultural da Xambá, o grupo Bongar e a Orquestra dos Prazeres. Eu me arrepio só de falar”, complementa Lucas dos Prazeres, que também tem um importante trabalho social a partir da arte. A tia de Lucas, a pesquisadora Lúcia dos Prazeres, referência no movimento negro pernambucano, escreveu um poema-homenagem, que conseguiu recitar por telefone para Guitinho. "Mãe Biu anunciou. O quilombo confirmou. Guitinho da Xambá é um Mestre embaixador", diz um trecho. O poema completo pode ser lido no perfil da pesquisadora.  

Artistas de gêneros diversos reconhecem a importância e ousadia musical proposta por Guitinho. Presente na cerimônia de despedida, o DJ Big, arte educador e produtor do movimento Hip Hop, que conhece Guitinho há anos, fez questão de exaltar sua bravura musical. “Guitinho é um mestre de toda uma geração, um líder nato do ponto de vista de defesa do seu povo e da cultura negra. Sua música transcendia todas as barreiras impostas pelo racismo", comentou. 

Amigo e parceiro, Maciel Salu, que ajudou nos preparativos do velório, lamenta a morte do ativista com quem travou várias batalhas pela Cultura Popular nordestina. “O Bongar é um dos mais importantes grupos da Música Popular Brasileira, que inovou levando mais respeito e valorização para o Coco”, avalia o cantor que não deixa de reconhecer a importância do ativista político que nunca se conformou com as desigualdades sociais que atingem a população negra e que foram acentuadas pela pandemia. “Era um caboclo de visão e que deixou uma luta para a gente continuar”, concluiu. Uma dessas lutas é a mudança do nome da Avenida Presidente Kennedy para Avenida Xambá, principal acesso para a comunidade Portão de Gelo.  

A visão também é compartilhada pela mestra e ialorixá, Mãe Beth de Oxum, amiga e parceira de Guitinho em muitos trabalhos. “A tristeza é profunda. Os terreiros estão de luto, a cultura popular está de luto. Guitinho era um grande parceiro nas muitas jornadas de luta em defesa das religiões de matriz africana”, pontuou a artista, que plantou um pé de baobá em homenagem ao cantor. 

Quem já assistiu a alguma performance do grupo Bongar conheceu a força ancestral e arrebatadora que emana dos tambores e dos cânticos. Das sambadas do terreiro de Mãe Biu aos palcos dos grandes festivais de Pernamubuco, do Brasil e do mundo, o grupo  conseguiu construir uma identidade única que mistura ritmos como ijexá, coco, ciranda, samba e toré. Durante os shows, uma roda imensa se formava na beirada do palco e reunia homens, mulhers, jovens, crianças e idosos para sambar o coco com alegria.

Sob a liderança do filho de Dona Gogó, o grupo Bongar revelou uma mostra completa da riqueza cultural do Nordeste brasileiro, que revela traços da influência afro e indígena. Gutinho era movido por esses elementos e, até o fim de sua passagem pela terra, lutou para mantê-los vivos e acessíveis aos mais jovens. Sua contribuição valiosa não finda. Seu corpo pesado resistiu a todos os tipos de opressões aos quais estão submetidos homens negros de terreiro como ele. Quatro dias antes do seu internamento, numa entrevista para a Alma Preta Jornalismo, no dia 28 de janeiro, ele desabafou: "Que a gente não viva sempre em uma postura de resistência. Não nascemos para viver lutando para sobreviver. Queremos uma sociedade que agente possa viver plenamente por algo que é nosso direito, que é a liberdade. Axé".  Descansa, Guitinho!

Imagem: Laila Swahill

guito

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

Apoie o Alma Preta e nos ajude a continuar contando todas essas histórias.

Vamos fazer jornalismo na raça!