QUILOMBO / Sexta, 14 Mai 2021 17:32

Até quando a branquitude pedirá desculpas por seu racismo?

O mais novo formato esfarrapado de desculpas é admitir que errou, mas por ignorância, não por racismo efetivo. Afinal, ninguém quer estar errado

Texto: Valéria Neves | Imagem: Acervo pessoal

Imagem mostra a militante do movimento negro Valéria Neves, ela é uma mulher negra e sorri
Introdução:

O mais novo formato esfarrapado de desculpas é admitir que errou, mas por ignorância, não por racismo efetivo. Afinal, ninguém quer estar errado

Texto: Valéria Neves | Imagem: Acervo pessoal

Por quanto tempo mais serão emitidos farrapos ao povo preto? Desculpa é um apelo quando há presença de culpa. Mas esse apelo pode, de alguma forma, servir ao transgressor para estabelecer “ausência” de sua culpa. A sempre alegada falta de dolo. Se não houve a intenção, não há culpa. Nem haveria sequer a vaga ideia de que algum tipo de dano poderia advir de sua atitude e assim o transgressor pode ser desculpado, deixar de ter culpa e seguir sua vida sem ônus por sua atitude. Pedidos e mais pedidos de desculpas.

Desculpas sem lógica e sem coerência diante do fato já ocorrido. Apresentadas sempre em farrapos. Argumentos gastos. De tão usados. Desculpas, desculpas, desculpas. Farrapos, retalhos, fiapos. São as desculpas esfarrapadas.

Todos esses pedidos são precedidos por ações. Ações que causam mal. Ações que causam dor. Crimes. Por séculos o povo preto é atingido por graves ações criminais, pois sempre foram crimes, ainda que afiançados por acordos que não lhes dessem ilicitude.

Instituições poderosas e respeitáveis, assim como pessoas físicas e jurídicas, já cometeram crimes indefensáveis contra o povo preto. Pessoas não pretas, valendo-se dos privilégios que a branquitude lhes proporciona em ocupar espaços de mídia, cometem crimes raciais. Na certeza da impunidade.

Muitos argumentos falso-científicos já foram usados para desumanizar o povo preto e assim justificar todas as formas torpes de violações de pessoas. Pessoas pretas são constantemente mal tratadas pelos diversos setores da sociedade e têm suas vidas expostas à dor como algo natural.

São muitas as ocorrências criminais, crimes diversos, visto que racismo é crime, contra pessoas pretas. A ideia de admitir erros, causa constrangimento, além do receio de que a responsabilidade pela ação seja sumariamente cobrada.

O mais novo formato esfarrapado de desculpas é admitir que errou, mas por ignorância, não por racismo efetivo. Afinal ninguém quer estar errado. Ninguém quer admitir seu crime. Todos querem ser bons. Não tanto por sua consciência, mas porque um pedido de desculpas atenua a culpa perante os outros. Não macula tanto a imagem da pessoa racista.

O nobre sacerdote pediu desculpas pelas ações de sua igreja na escravidão. Farrapos expressos para desculpar 400 anos de horrores. Ações e omissões criminais. Haverá mesmo como desculpar? Excluir a culpa de tantos crimes já cometidos? E o que fazer com as vítimas descendentes, afinal? Reparar é a intenção?

A apresentadora de TV alega não ter culpa de ser branca e que sofre racismo reverso. Diante das reclamações rasga desculpas e alega desconhecimento. Pura desinformação. Uma artista sugere o uso da população carcerária (majoritariamente negra) como cobaia. Esfarrapa desculpas, pois não tinha nenhuma intenção ruim. Não fez por mal. Um familiar de outra artista sugere que a contaminação por Covid-19 em sua casa só ocorreu devido à folga da empregada doméstica. E seguem-se mais retalhos desculposos.

O medo é do ônus financeiro com processos por danos morais, perda financeira. O receio faz com que o artifício da desculpa seja usado. Um subterfúgio para evitar reparação financeira pelo crime cometido. Um meio, também, de manter a consideração de bondade, honestidade e retidão moral perante o público.

Desculpas, desculpas, desculpas. Todas em farrapos. Rotas, toscas, gastas e inaceitáveis. Racismo é crime. E como criminosos, seus executores devem ser tratados. Cancelados.

Leia também: Bolsonaro expõe seu racismo, mais uma vez, ao debochar de cabelo black power

É imperioso que todas as pessoas, em especial as públicas, que frequentemente são citadas por ações racistas, parem de espalhar seus trapos desculposos. Todas as pessoas não pretas sabem o que são dores. Sabem ter atitudes corretas com tudo o que respeitam e prezam. E com relação a pessoas pretas não possuem apreço nem respeito. Agem e falam de qualquer forma, pois no caso de alguma reclamação poderão simplesmente pedir desculpas sob a alegação de ignorância.

Não se pode mais aceitar pedidos de desculpas. É preciso que façam reparações financeiras, pois suas ações são criminosas e causam danos. Este é o ponto importante. Economia, dinheiro, penalização. Racistas permanecem se vitimizando como ignorantes em constante processo de aprendizado para serem educados com gente preta.

A cada novo ataque racista que fazem (e causam dano a alguém) solicitam orientação pública por algum militante racial para assim demonstrar que não sabiam que eram racistas, e logicamente ficam isentos de punição.

As ações resultantes do racismo sempre foram criminosas, mesmo que não estivessem inseridas nesse contexto juridicamente. A constante luta do povo preto por seus direitos já provocou muitas mudanças em legislações, para assim garantir condições de respeito.

Nunca houve acomodação por parte deste povo tão violado em seus mínimos direitos diante da opressão e não vai haver trégua na luta antirracismo. Apresentadores de TV e de rádio, promoters de festas, políticos, esportistas, sacerdotes, artistas e seus familiares, empresários, jornalistas, pessoas físicas e jurídicas tratem de educar-se, deixem de ser ignorantes e entendam que devem refletir antes de falar e agir.

Pois seus farrapos, seus trapos, seus retalhos desculposos não serão mais aceitos. A cada ato racista haverá cobrança. Perderão popularidade. Perderão dinheiro. Racismo é crime. É preciso parar!

Valéria Neves é militante racial e de gênero por diversas frentes no Rio de Janeiro, como o Movimento Negro Unificado (MNU). Graduada em Enfermagem e especializada em Oncologia, atuou por mais de 30 anos no serviço público. Poetisa, roteirista e escritora, é autora de diversos livros, entre eles “Letras de uma Juventude” e “Carolinas”.

 Apoie jornalismo preto e livre!

 O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de   financiamento coletivo e de outras ações com apoiadores. 

 Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos   equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor. 

 O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

 Acesse aqui nosso Catarse

NEWSLETTER

Fique por dentro de tudo que acontece. Se inscreva e receba nossas notícias toda semana.

VÍDEOS

ccsp.jpg
umanobetofreitas.jpg
boletiim38.jpg
racismoemeioambientecop26.jpg