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Introdução:

De minha parte, só desejo que a vilã que o Brasil elegeu, que não é de novela e tem uma vida real, uma família, uma criança aqui fora, possa encontrar paz e um Kiriku em sua vida

Texto: Douglas Belchior | Imagem: Reprodução

Karol Conká, a Karabá do BBB

A atuação daquela eleita vilã de reality que, em contexto de pandemia e ausência de novelas frescas, ocupou o vácuo e protagonizou o equivalente ao que seria uma final de novela das nove, mobilizou mais ódio e ação pública das massas, da minha comunidade e de famosos, do que os promotores do escárnio e da barbárie em Brasília. A audiência e o debate nas redes justificam os milionários patrocínios. E o gozo com o esquartejamento público de uma pessoa, "coincidentemente" preta, "coincidentemente" mulher, e "pelos defeitos dela, por culpa tão somente dela", alimenta o fetiche racista coletivo.

Incapazes de subir ao trend topics uma hashtag de conteúdo obsceno tal como #VacinaParaTodesPeloSUS ou #AuxilioEmergencial600reais, a platéia brinda o país com a maior rejeição pública de todos os tempos.

Não. Não é a rejeição pública de Bolsonaro. Aliás, na arquibancada se juntam bolsonaristas e esquerdopatas, machistas e desconstruídos, intelectuais e analfabetos, todos com um ódio em comum. Tampouco se trata da rejeição da proposta de entrega das vacinas ao domínio privado dos ricos. E também não é rejeição à proposta de acabar com o piso mínimo de gastos com educação e saúde. NÃO! É a rejeição de alguém que se parece mais comigo, com minha irmã, com minha mãe, do que com aqueles que decidem nosso necro-destino. É a rejeição de alguém bem parecida com Karabá, a feiticeira má da história de Kiriku.

A lenda de Kiriku nos ensina tanto! Karabá é má. E todos a temem e a odeiam. Ela é má porque faz maldades. E faz mesmo. Você conhece alguém que nunca fez? Mas tem algo além disso. Ela vive com um espinho cravado num lugar inatingível da coluna vertebral. Espinho cravado pela violência do mundo, por homens maus. Ela não tem amigos para ajudá-la. Devolve sua dor em forma de ódio ao mundo. E Kiriku a liberta, arrancando com os dentes o espinho venenoso. Senso de comunidade, respeito, alteridade e tolerância, valores tão presentes em Kiriku e que andam tão em falta entre nós.

Mas vamos lá, eliminamos mais um, achando que não é com a gente.

De minha parte, só desejo que a vilã que o Brasil elegeu, que não é de novela e tem uma vida real, uma família, uma criança aqui fora, possa encontrar paz e um Kiriku em sua vida.

Douglas Belchior é professor e defensor de direitos humanos, integra a UneAfro Brasil, entidade que compõe a Coalizão Negra Por Direitos.

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rejeição

Eliminação da Karol Conká com maior rejeição da história do BBB não te dá o aval de ser racista

Introdução:

A rapper deixa o reality show com 99,17% de rejeição, mas isso não justifica qualquer linchamento direcionado a ela, aos amigos e familiares

Texto: Aline Bernardes | Imagem: Reprodução/TV Globo

Era 19 de janeiro de 2021 e os meus olhos não saiam da televisão, parecia convocação de copa do mundo, mas não era. A lista mais aguardada, por mim dessa vez, seria dos participantes do Big Brother Brasil. Quando Karol Conká foi confirmada, a sensação foi de êxtase. Afinal, seria interessante acompanhar por 24 horas a curitibana de 34 anos que construiu a sua trajetória musical com o repertório de reflexões sociais, feministas e combate ao racismo. Sem mencionar o seu estilo “tombamento” que fez parte da minha identificação como mulher preta, com as suas roupas, maquiagens e penteados.

Mas toda essa animação durou pouco. Logo nos primeiros dias de BBB, a rapper usou da sua forte personalidade para fazer e falar coisas que que eram repudiadas em suas canções. A sua “animosidade”, como a mesma diz, a transformou em uma das maiores vilãs do reality show mais assistido do país. Posso citar as cinco maiores vítimas: Lucas Penteado, Arcrebiano Araujo, Juliette, Carla Diaz e Camilla de Lucas.

Karol Conká não mediu as palavras ao criticar o jeito paraibano de ser de Juliette, além de questionar diversas vezes se a participante tinha problemas psicológicos. Humilhou Lucas Penteado depois de o reduzir a um erro e lhe negou afeto individual e em grupo ao não permiti-lo fazer as refeições em conjunto. Enciumada por Arcrebiano, inventou uma narrativa que colocou em cheque a índole de Carla Diaz. E por fim, distorceu o discurso de vários colegas, como Camilla de Lucas.

Assistir a essas cenas e não ter o estômago revirado foi quase que impossível. Quantos relatos eu li de gatilhos que foram ativados naqueles momentos de abuso psicológico e que o entretenimento havia acabado? Essas, e outras, histórias fizeram a Karol ter sua eliminação esperada por pelo menos três semanas. Mas, para alguns telespectadores, a sua saída com rejeição não parece ser suficiente.

Carreira e vida pessoal pós BBB

Será que veremos anos de carreira sendo destruídos por conta de um mês de programa? A punição pelas suas atitudes lhe rendeu um prejuízo de 5 milhões de reais (por conta de shows e contratos cancelados). Karol deixa o BBB com recorde de rejeição, 99,17% dos votos, mas isso não justifica qualquer linchamento direcionados a ela, aos amigos e familiares.

Para conter as ameaças e dar segurança a rapper, a TV Globo mobilizou um esquema diferente dos demais. Segundo informações do site TV Pop, Conká não foi levada para o mesmo hotel onde os participantes ficam e foi acompanhada durante todo o tempo por uma equipe de psicólogos e profissionais da emissora e de sua equipe.

Onda de ódio

Nas redes sociais a rejeição de Karol Conká foi fonte de apostas. Já havia acontecido com o humorista Nego Di, mas em proporções menores. Dessa vez até restaurantes e lojas embarcaram no hype. Descontos e sorteios de produtos foram prometidos a quem acertasse a porcentagem que a cantora seria eliminada.

Seu “cancelamento” ultrapassou o limite profissional e o prejuízo não ficou apenas nos números de seguidores das mídias sociais e das cifras. Diversas páginas de ódio a Karol foram criadas, e muitas, como já havia de ser esperado, repletas de ofensas racistas.

Como não racializar essa mobilização nacional que dá o aval para satirizar mulheres negras? O perdão e o acolhimento não é entregue fácil para nós, enquanto justificam a antipatia pela Karol por suas atitudes dentro da casa, as pessoas aqui do lado de fora não deixam de ser tão execráveis quanto. Ao começar o texto deixei claro que sim, é uma das grandes vilãs do programa, mas em todas as edições temos um vilão, por que somente nessa a resposta do público é mais severa?

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Karol Conká

Embaixador da Nação Xambá, Guitinho plantou sementes que florescem

Introdução:

A morte precoce de Guitinho da Xambá, cantor e ativista pela causa racial, do povo de terreiro e da cultura afro-indígena levanta reflexões sobre acesso à saúde  e diagnóstico tardio da população negra

Texto e imagens: Lenne Ferreira 

Um cortejo de amor e respeito ao filho do Terreiro da Nação Xambá. Do jeito que pediu, Guitinho teve seu corpo conduzido até o cemitério de Águas Compridas, em Olinda, na cadência de uma sambada que entoou as composições que ele cantou ao longo de mais de 20 anos de carreira com o grupo Bongar. A morte “precoce” do líder, músico e ativista deixou muita gente incrédula. Aos 38 anos,  Gutinho sofria com uma doença rara, a Síndrome de Cushing, que nunca tinha ouvido falar até ser diagnosticado tardiamente. Detentor de uma sapiência excepcional, Guitinho foi leal aos fundamentos do seu povo e recebeu sua recompensa. Seu pai, Ogun, abriu caminho no aiyê para que seu filho seguisse para a eternidade pelos braços de Oyá. 

A notícia da morte de Guitinho, internado desde o dia 1 de fevereiro, fez com que muita gente parasse tudo pra ir pesquisar mais sobre o problema que adoeceu seu corpo. Portador da Síndrome de Cushing (doença caracterizada pela elevada concentração de cortisol no sangue), da qual só teve conhecimento no final de 2020, Guitinho lidou por anos com o aumento do peso e diversos problemas de saúde como hipertensão e diabetes. “A gente achava estranho porque ele fazia de tudo para emagrecer e não conseguia. Andamos por vários médicos. Mas, inicialmente, ele não tinha plano de saúde”, conta a esposa, amiga e produtora Marileide Alves, que fez questão de publicar uma postagem nas redes do grupo para informar ao público sobre a doença do artista.

Em 2019, Guitinho chegou a ficar internado uma semana em um hospital público, mas os médicos não detectaram a doença. Percebendo que o quadro de saúde se agravava pouco a pouco, Marileide recorreu ao sistema de saúde particular. Veio a pandemia, o que dificultou e retardou ainda mais o processo. “Guitinho sentia muitas dores, tinha uma alimentação equilibrada, mas não parava”, conta. Em dezembro, foi internado para uma cirurgia no joelho e, durante consulta com uma endocrinologista, a Síndrome foi, finalmente, revelada. O artista foi liberado para passar Natal e Ano Novo com a família, mas, deveria ser internado em 1 de janeiro, o que não ocorreu a pedido dele, que queria participar de um tradicional ritual para Ogun. 

A internação para uma cirurgia veio em 1 de fevereiro, mas um AVC (Acidente Vascular Cerebral) o colocou na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e seus efeitos foram irreversíveis, o levando a óbito. A doença de Guitinho, que até dois anos nem plano de saúde tinha, foi a mesma anunciada ano passado pela filha de Fafá de Belém, a cantora Mariana Belém. Em sua rede social, ela compartilhou o processo de anos em busca de profissionais para detectar o que gerava aumento de peso e outros problemas. No ano passado, Mariana  encontrou um especialista, que detectou a Síndrome de Cushing e com quem iniciou um tratamento hormonal. Ela também tem investido em microfisioterapia, que custa, em média, R$ 800 por sessão. Em sua rede social, onde faz divulgação o processo de tratamento, Mariana escreveu: “A autocura é um caminho para o equilíbrio, é harmonizar o seu corpo físico, mental, emocional e espiritual”. Em sete meses de tratamento, a cantora, de 40 anos, emagreceu 21 dos seus antigos 93 kg.

A possibilidade de cura para homens negros, com lutas travadas diariamente para a manutenção da existência, é algo que nem sempre é possível . Desde os 18 anos, Guitinho, que tinha gradução em Ciências Sociais, dedicou-se ao ativismo político pela preservação dos saberes ancestrais africanos, pela cultura afro-indígena e mais dignidade para a população do quilombo urbano onde cresceu. “O povo preto ainda está distante do que é saúde, do que é diagnóstico precoce. A gente não consegue saber sobre as nossas doenças. Não temos acesso à saúde digna e nem reconhecemos que estamos doentes porque o corre é muito grande para dar conta de tantas lutas e acabamos nos negligenciando. Isso nos mata e leva o nosso povo muito rápido. Somos do Axé, sabemos que a passagem vai ser linda, mas os nossos morrem mais cedo por causa do racismo estrutural”, pontua a admiradora e produtora Oba Egbe Fernanda, èkejì de sango. 

Na Quarta-feira de Cinzas de um ano sem Carnaval de rua, aos 38 anos do tempo cronológico convencionado pela branquitude, Guitinho perdeu a batalha para a Síndrome.  A notícia pegou a todos de surpresa e gerou uma onda de comoção no mundo virtual, esse que Guitinho só acessava para a divulgação das atividades culturais e sociais. Guitinho pertencia ao mundo das coisas reais e imateriais. Dividia o celular com a companheira Marileide Alves, que cuidou dele até o momento em que a equipe médica confirmou a morte encefálica do artista que, ao longo de sua fecunda vida, construiu uma trajetória que nunca o afastou dos princípios do Candomblé e da Jurema Sagrada.

homenagemA Nação Xambá se despediu do seu embaixador com rito sagrado comandado por Pai Ivo e uma sambada liderada pelo parceiro Nino Xambá

“Quando criança, a gente chamava ele de profeta”, comenta, emocionada, a mãe Glória, mais conhecida como Dona Gogó, entre os cumprimentos durante o velório do filho no Centro Cultural do Bongar, localizado na comunidade Portão de Gelo, onde Guitinho cresceu e viveu. A saudade anunciada pelos olhos marejados continha a serenidade de uma mãe que tinha certeza: “Tudo que ele quis, ele realizou”. Amparada por familiares, irmãos e irmãs de santo, Dona Gogó agradeceu pelo tempo ao lado do filho, homem de fé, ativista pela causa racial, do povo de terreiro e da cultura popular que, ainda aos 18 anos, ousou sonhar em levar os toques e cantos de sua nação para o mundo. 

“Foi o nosso garoto propaganda. Levou a Nação Xambá para fora do Brasil”, considera o Babalorixá, Adeildo Paraíso da Silva, mais conhecido como Ivo de Xambá, pai de santo de Guitinho. Criado dentro das tradições religiosas africanas, o xambazeiro entendeu muito cedo o seu papel para a comunidade onde nasceu e cresceu. Seguiu os passos revolucionários da mais expressiva Ialorixá da Nação Xambá, Mãe Biu, que foi perseguida pela Ditadura Militar e resistiu bravamente aos desmandos de um estado racista. As sessões de tortura envolviam uma série de violências físicas durante incorporação para comprovar se ela sentiria ou não dor. 

Essas e outras histórias de opressão impulsionaram Guitinho a pensar estratégias de tirar o seu povo da invisibilidade e perpetuar a tradição que, segundo historiadores, é originária da região ao norte dos Ashanti e limites da Nigéria com Camarões, nos montes Adamaua, vale do rio Benué, no continente Africano. Em Pernambuco, o culto Xambá teve como endereço mais duradouro e potente do ponto de vista de consolidação, a antiga Rua Albino Neves de Andrade, que, hoje, leva o nome de batismo de Mãe Biu, Severina Paraíso da Silva, no Portão do Gelo, em Olinda. A riqueza dessa história foi registrada por Marileide no livro “Nação Xambá, do Terreiro aos Palcos”, finalista do Prêmio Jabuti em 2019. 

A dedicatória do livro foi endereçada a Guitinho: “Por toda sua contribuição nesse projeto. Durante todo o tempo, sua ansiedade foi bem maior que a minha”, escreveu a pesquisadora, que se tornou companheira do cantor. Em 17 anos de convivência, a jornalista também atuou como produtora do grupo Bongar, sendo companheira de viagens e shows pelo Brasil e aliada fundamental para conquistas históricas como as construções do Terminal Integrado da Xambá e do Centro Cultural do Bongar, frutos do ativismo político de Guitinho. O tombamento Terreiro da Xambá, único da América Latina, em 2018, título inédito para uma casa de candomblé de Pernambuco, foi outra conquista que Guitinho pode comemorar em vida. 

meninoUm cortejo pelas ruas da comunidade onde Guitinho cresceu despertou aplauos por onde passou

“Guitinho tinha seu caminho traçado. Cumpriu sua missão”, comentou Marileide durante o velório organizado no espaço cultural que promovia atividades educativas para crianças e jovens da comunidade. A despedida do corpo material de Guitinho mobilizou a população local e gente que admirava a sua trajetória na música e no ativismo político. A pernambucana e deputada estadual, Erica Malunguinho (PSOL), veio de São Paulo prestar solidariedade à família. “Ele era uma referência para todes nós. Guitinho não tinha apenas 38 anos. Seu espírito era de um velho griô”, lembra a parlamentar, idealizadora e proprietária da Aparelha Luzia, espaço que o Bongar já encantou em suas passagens pela capital paulista. 

Velado no anfiteatro do Centro Cultural, antes do cortejo, Pai Ivo comandou a cerimônia de despedida, que contou com a participação de irmãos  de santo, parentes e parceiros de trabalho em projetos musicais e sociais. O prefeito de Olinda,  Professor Lupércio, contra quem Guitinho já endereçou algumas críticas, assim com os veradores como Vinícius Castello, Liana Cirne, entre outras personalidadess políticas também estiveram presentes. Guitinho, que tinha forte incidência política, sempre soube construir estratégias de enfrentamento baseadas no diálogo, o que lhe rendeu o respeito até de pessoas com as quais discordava ideologicamente. Quem não conseguiu ir, enviou coroas de flores. Representantes de organizações como a Rede de Mulheres Negras de Terreiro, o Centro Sabiá, o Itaú Cultural, Cia Artefolia, Voz Nagô, a mandata Juntas e o Ilê Yemanjá Ogunté também prestaram homenagem. Integrantes de diversos movimentos e coletivos de luta racial como a Articulação Negra de Pernambuco, Movimento Negro Unificado e Rede de Mulheres Negras de PE também compareceram à cerimônia.

Oyá assumiu a condução do espírito de um revolucionário que contava com mentoria do orixá Ogum. Parceiro no grupo Bongar, Nino Xambá conduziu a sambada, que saiu do Centro para percorrer a rua por onde Guitinho brincou. Por onde passou, o cortejo despertou aplausos de vizinhos, evangélicos ou não, que reconheciam a importância do artista para a comunidade que conquistou reconhecimento graças à incidência política do músico. “Ele era um rapaz muito educado e gente boa. Uma pena”, lamenta a dona de casa Maria Rita, que seguiu parte do cortejo. 

Sucessos compostos pelo cantor como "Chão batido", "Acorda Maria", "Arreia" foram entoados por crianças e adultos que pararam o trânsito na última homenagem ao cantor conhecido pelas críticas incisivas. A demonstração forte de que seu legado seguirá vivo e que a terra que tanto respeitou e por quem lutou por mais políticas públicas ainda há de fruticar as sementes que plantou.   

Musicalidade e ancestralidade 

bongarAo lado de Thúlio, Memê, Beto, e Nino, Guitinho fez história mundo a fora (Foto: Divulgação/Bongar)

A musicalidade é parte importante da história da Nação Xambá, que camuflava os sons das cerimônias religiosas com o coco de roda. Desde 1961, as sambadas passaram a fazer parte da comemoração do aniversário de Mãe Biu, que todo dia 29 de junho realizava uma grande festa em homenagem a uma criança que morreu dentro de uma cacimba da comunidade. Mesmo depois da morte da Ialorixá, em 1993, seus filhos de santo mantiveram o festejo, que é considerado o “Ano Novo” da Nação Xambá. 

Foi dessa fonte que Guitinho bebeu para formar, ainda aos 18 anos, o grupo Bongar, considerado por muitos um divisor de águas na história do Coco no Nordeste e que conquistou uma legião de fãs como a repórter que vos escreve. O primeiro grande desafio do artista foi convencer os integrantes mais velhos da Nação, que não viam com bons olhos a exposição dos ritos ancestrais. Visionário e grande respeitador dos antigos e das tradições, Guitinho conseguiu conquistar a confiança dos irmãos e irmãs espirituais e trazer os bons frutos colhidos para que todos pudessem desfrutar.

O talento musical fez com que Guitinho se tornasse referência artística de nomes como Lucas dos Prazeres, contemporâneo do músico. “Uma perda irreparável de uma liderança afrofuturista. Guitinho fez revolução no Coco. Foi um grande autor, que compôs com uma caneta afirmativa como poucos tem feito”, ressalta o multiartista, que atualmente mora no Rio de Janeiro e que chegou a planejar projetos com Guitinho. 

Não deu tempo de concretizá-los graças à ação racista da engrenagem estatal balizada pelo “Latifúndio cultural”, como o xambazeiro definia. “Montamos um projeto juntos para unir o Centro Maria da Conceição, o Centro Cultural da Xambá, o grupo Bongar e a Orquestra dos Prazeres. Eu me arrepio só de falar”, complementa Lucas dos Prazeres, que também tem um importante trabalho social a partir da arte. A tia de Lucas, a pesquisadora Lúcia dos Prazeres, referência no movimento negro pernambucano, escreveu um poema-homenagem, que conseguiu recitar por telefone para Guitinho. "Mãe Biu anunciou. O quilombo confirmou. Guitinho da Xambá é um Mestre embaixador", diz um trecho. O poema completo pode ser lido no perfil da pesquisadora.  

Artistas de gêneros diversos reconhecem a importância e ousadia musical proposta por Guitinho. Presente na cerimônia de despedida, o DJ Big, arte educador e produtor do movimento Hip Hop, que conhece Guitinho há anos, fez questão de exaltar sua bravura musical. “Guitinho é um mestre de toda uma geração, um líder nato do ponto de vista de defesa do seu povo e da cultura negra. Sua música transcendia todas as barreiras impostas pelo racismo", comentou. 

Amigo e parceiro, Maciel Salu, que ajudou nos preparativos do velório, lamenta a morte do ativista com quem travou várias batalhas pela Cultura Popular nordestina. “O Bongar é um dos mais importantes grupos da Música Popular Brasileira, que inovou levando mais respeito e valorização para o Coco”, avalia o cantor que não deixa de reconhecer a importância do ativista político que nunca se conformou com as desigualdades sociais que atingem a população negra e que foram acentuadas pela pandemia. “Era um caboclo de visão e que deixou uma luta para a gente continuar”, concluiu. Uma dessas lutas é a mudança do nome da Avenida Presidente Kennedy para Avenida Xambá, principal acesso para a comunidade Portão de Gelo.  

A visão também é compartilhada pela mestra e ialorixá, Mãe Beth de Oxum, amiga e parceira de Guitinho em muitos trabalhos. “A tristeza é profunda. Os terreiros estão de luto, a cultura popular está de luto. Guitinho era um grande parceiro nas muitas jornadas de luta em defesa das religiões de matriz africana”, pontuou a artista, que plantou um pé de baobá em homenagem ao cantor. 

Quem já assistiu a alguma performance do grupo Bongar conheceu a força ancestral e arrebatadora que emana dos tambores e dos cânticos. Das sambadas do terreiro de Mãe Biu aos palcos dos grandes festivais de Pernamubuco, do Brasil e do mundo, o grupo  conseguiu construir uma identidade única que mistura ritmos como ijexá, coco, ciranda, samba e toré. Durante os shows, uma roda imensa se formava na beirada do palco e reunia homens, mulhers, jovens, crianças e idosos para sambar o coco com alegria.

Sob a liderança do filho de Dona Gogó, o grupo Bongar revelou uma mostra completa da riqueza cultural do Nordeste brasileiro, que revela traços da influência afro e indígena. Gutinho era movido por esses elementos e, até o fim de sua passagem pela terra, lutou para mantê-los vivos e acessíveis aos mais jovens. Sua contribuição valiosa não finda. Seu corpo pesado resistiu a todos os tipos de opressões aos quais estão submetidos homens negros de terreiro como ele. Quatro dias antes do seu internamento, numa entrevista para a Alma Preta Jornalismo, no dia 28 de janeiro, ele desabafou: "Que a gente não viva sempre em uma postura de resistência. Não nascemos para viver lutando para sobreviver. Queremos uma sociedade que agente possa viver plenamente por algo que é nosso direito, que é a liberdade. Axé".  Descansa, Guitinho!

Imagem: Laila Swahill

guito

Uma armadilha da branquitude: Os negros e os estereótipos no BBB

Introdução:

O desentendimento entre duas mulheres negras vira palco para os brancos dizerem que os próprios pretos são racistas, quando eles sequestram nossa subjetividade e nos reduzem a estereótipos

Texto: Monique Rodrigues do Prado | Imagem: Reprodução/TV Globo

Enquanto continuarmos a fomentar a treta entre pessoas pretas dentro do BBB 21, a Casa Grande continua fortalecida e a branquitude mantém o seu Pacto Narcísico vivo, assim como os estereótipos sobre nós. Preto não tem humanidade e autonomia tanto assim que se você for uma mulher negra na atual conjuntura provavelmente já ouviu: “você é a Karol Conká, a Lumena ou a Camilla de Lucas?”. Como se essas pessoas dessem conta da complexidade que é ser mulher negra no Brasil.

Bem-vindos ao país que violenta, estupra, adoece mentalmente, fomenta estereótipos, promove violências durante todo o período de gestação e reduz as mulheres negras a menos de 01% nos cargos executivos das 500 maiores empresas. Enquanto os brancos saem para fazer carreira, as mulheres negras ainda estão nos serviços domésticos, responsáveis pela educação dos filhos da patroa e os dos seus próprios, já que quase 63% dos lares brasileiros são exclusivamente chefiados por mulheres negras.

Quando a gente fala da base da pirâmide, o que está sendo escancarado é: mulheres negras não dominam as estruturas de poder econômico, jurídico e político, pois não somos nós quem estamos espelhadas nessas camadas de domínio da sociedade. Entretanto, um programa de entretenimento tenta dar conta da nossa existência capturando três ou quatro de nós para reiterar estereótipos de sexualização, insanidade, rivalidade e violentadoras, como se ser barraqueira fosse inerente à nossa mulheridade. Como se mulheres e homens brancos fossem os únicos autorizados a performar agressividade, loucura e violência sem serem cancelados.

Isso não é uma passação de pano para a desarmonização social. Todavia, precisamos observar que com a nossa humanidade castrada, inclusive quando externamos emoções negativas, a branquitude goza, pois ao criar-se representações e imagéticas maniqueístas sobre os nossos corpos, apenas o sujeito universal tem a plenitude da humanidade. Eles podem gritar, eles podem xingar, eles podem ser descontrolados. A gente não, a gente é louco e descontrolado.

Na literatura racial isso vem sendo estudado como uma forma de demonstrar que nós mulheres negras somos muito mais complexas do que querem pretender, ainda que o racismo recreativo e as representações publicitária, cinematográfica, semiótica dos meios de comunicação e entretenimento ilustrem a gente de forma empobrecida. Por isso o desentendimento entre duas mulheres negras vira palco para eles dizerem "eu não falei, os próprios pretos são racistas", quando o que eles estão fazendo é sequestrando a nossa subjetividade enquanto pessoas únicas e complexas e nos reduzindo a estereótipos racistas.

Enquanto isso, os outros integrantes brancos da casa ao dizerem "eu não tenho lugar de fala" não estão respeitando a produção da Djamila Ribeiro, que brilhantemente difundiu o tema ao explicar que lugar de fala se relaciona muito mais com “de onde se fala” do que “o que se fala”, pois senão a branquitude sequer se viria como branca e permaneceria ilesa nas discussões raciais. Como resultado, essa branquitude reitera a  incapacidade de rever seus privilégios.

No caso em questão o privilégio se externa nas discussões entre Fiuk e Caio, que embora viraram memes, não carregaram a carga dos estereótipos racistas, já que na condição de homens brancos a legitimidade da discussão ganha apenas a dimensão do "desentendimento entre dois seres humanos". Mesmo tretando, os brancos mantém entre eles o elo chamado por Cida Bento de Pacto Narcísico, pois certamente Fiuk, Caio, Sarah, Carla Dias, etc, não respondem pela branquitude inteira, mas tão somente como pessoas, o que difere no caso das pessoas pretas que viram categorias subalternas.

A roteirização de cada personagem negro da casa, sobretudo com as edições que mostram apenas alguns frames do que aconteceu ao longo do dia, serve para costurar esses esteriótipos. Ou seja, o que vai ao ar na TV aberta é só um trecho do cotidiano, tornando a história quase uma novela de capítulos facilmente manipuláveis.

Uma salva de palmas para a branquitude que continua operando na mesma lógica manipuladora em colocar os escravizados da senzalas contra os da Casa Grande para salvaguardar o seu posto de heroína universal ética e moral. Para nós negros, fica a reflexão para que possamos nos emancipar do olhar da branquitude sobre os nossos corpos, especialmente em tempos de redes sociais em que o cancelamento é a regra.

Monique Rodrigues do Prado é advogada, comunicadora, estudiosa das relações raciais e engajada na luta antirracista.

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estereótipos

Racismo Reverso: a dissimulação do discurso

Introdução:

Especialista reflete sobre o equívoco do termo “racismo reverso”, mote de debates recentes nas redes sociais em razão da participante do BBB, Lumena Aleluiater, ter sido denunciada pelo deputado Anderson Moraes (PSL-RJ) por "discriminar brancos"

Texto: Monique Rodrigues do Prado | Imagem: Reprodução/Redes sociais

Na realidade brasileira, as cotas raciais sempre foram em favor da branquitude. O Estado Brasileiro garantiu que negros não entrassem na escola (Constituição de 1824); não tivessem acesso à terra (Lei de Terras 1850, n 601) e que, mesmo depois da "abolição" a distribuição das terras fossem endereçadas aos imigrantes europeus (Decreto 528 de 1890). Ou seja, além de colonizadores, foram também historicamente os cotistas e favorecidos pela lei nacional.

O fomento de políticas afirmativas ou discriminação positiva é alicerçado pelo Princípios da Igualdade e Isonomia, os quais são admitidos inclusive do ponto de vista constitucional, de maneira que essa prática tem como objetivo trazer um equilíbrio histórico que promova reparação para grupos minorizados. Por isso, não nos surpreende que ações como a da Magazine cause tamanho desconforto porque subverte a lógica de subalternidade.

Para admitir que exista racismo reverso, seria preciso também admitir que a hegemonia política, jurídica e econômica seja dominada por pessoas negras. Isto é, que pessoas negras no contexto brasileiro fossem os maiores donos de propriedade e dos bens, além de maioria no poder e na produção das normas, o que não é verdade.

Marcadores levantados pelo Instituto Ethos nos mostram que nas 500 maiores empresas, o número de pessoas negras nos cargos de alta gestão não chega a 05%. Esses números são igualmente desanimadores quando analisamos a realidade do judiciário pelos dados do CNJ, o qual denuncia que apenas 15% dos magistrados e ministros se autodeclaram negros. Na advocacia, o número cai para 01%, segundo pesquisa do CEERT nos 09 maiores escritórios de advocacia brasileiros. No Congresso Nacional, apenas 17% dos parlamentares são negros.

O papel decisório desses atores sociais é fundamental na gestão da vida pública e privada, seja no acesso e na distribuição de renda, seja no desenvolvimento educacional, social e econômico dos cidadãos. Entretanto, a armadilha da meritocracia desconsidera a dívida histórica que o Brasil tem com a população Negra e os Povos Indígenas.

Como diria a Psicanalista Grada Kilomba no livro "Memórias da Plantação" há “uma glorificação colonial“ e, complementa o historiador Luiz Antonio Simas, “o Brasil deu certo”. Essa glorificação do projeto colonial manteve intacto o pacto narcísico da Branquitude.

De acordo com Grada Kilomba, o historiador Paul Gilroy vai descrever cinco mecanismos de defesa do ego da branquitude: negação, culpa, vergonha, reconhecimento e reparação. Desse modo, do ponto de vista da "consciência coletiva”, o Brasil continua no estágio da negação, admitindo que existem ações e atitudes racistas, mas inadmitindo enquanto Estado-nação as facetas do racismo estrutural. Essa cegueira brasileira é proposital, visto que a branquitude jamais reconheceu a “Síndrome traumática pós escravidão”, descrita pela psicóloga P.hd Joy DeGruy em seu livro de igual título.

Depois do racismo pseudocientífico de Raimundo Nina Rodrigues e Renato Kehl perfeitamente explicados nos episódios do podcast "Infiltrado no Cast" por Ale Santos, ao invés de entrar para o time dos colonizadores culpados, o Brasil preferiu exaltar a literatura de Monteiro Lobato e Gilberto Freyre, que reiteraram estereótipos sobre as pessoas negras, as colocando em senzalas, cozinhas e na condição de servos e subalternos, o que mais tarde ganha nova roupagem com os cortiços, favelas, cadeias e na condição de “moradores de ruas”, como se rua fosse naturalmente um lugar para morar.

Claro que a gestão de políticas públicas foram grandes facilitadores para que o Pacto Narcísico (nom dado por Cida Bento em seu Doutorado na USP para explicar o elo entre a branquitude) continuasse sendo renovado geração após geração. Assim, não há surpresa que discursos de ódio sejam proferidos em relação as leis de cotas, as quais tem ampliado, consideravelmente, o número de negros nas universidades públicas (50,3%) e nos concursos públicos. Também não surpreende que ações do setor privado na contratação para cargos de liderança e executivos exclusivamente para pessoas negras sejam consideradas “racismo reverso”. Iniciativas como essas causam uma rachadura no pacto da branquitude, apesar do hiato social entre brancos e pretos e o primeiro grupo continuar sendo majoritário na posse de propriedades e nos cargos no alto escalão.

Monique Prado é advogada, comunicadora, estudiosa das Relações Raciais e engajada na luta antirracista.

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Introdução:

Da Anitta ao Papa, de grandes influenciadores digitais e ex-BBB aos anônimos, ninguém está livre de ser cancelado, mas os efeitos são mais cruéis para alguns grupos

Texto: Flávia Ribeiro | Imagem: Reprodução

Respondendo à pergunta: eu tenho medo do cancelamento, mas lanço um olhar curioso sobre esse fenômeno. Entendo o seu efeito nocivo e devastador, mas quem de fato não consegue reagir a esses efeitos? A cantora Anitta foi cancelada várias vezes e continua trabalhando, promovendo lançamentos e novos projetos. A influenciadora Gabriela Pugliesi foi muito criticada, perdeu contratos, mas mantem o estilo de vida. Então, o que seria mesmo o cancelamento?

Ninguém está livre de passar pelo tribunal da internet, ser julgado e condenado sem direito de defesa. Em certo momento tens amigos, seguidores, uma boa relação com pessoas, mas, propositalmente ou não, falas algo que não é bem visto. Não é preciso ser algo criminoso, fazer apologia a crimes, ou algo irresponsável, às vezes, basta que alguém entenda que cometeste um erro.

Uma pessoa começa a reclamar disso na internet. Essa crítica é impulsionada porque várias pessoas usam as suas redes sociais para marcar posição e reclamar também. Nessa onda, alguns desafetos ou haters aproveitam e amplificam. Há também quem se aproveite e minta a respeito do cancelado para ganhar likes nas redes. Daí começa um movimento em cadeia que ninguém tem noção de como pode parar. Os xingamentos são efeitos mais visíveis, mas pode passar para ameaças de morte, perda de emprego, de contratos, etc.

O tempo pode passar, podes te arrepender, verdadeiramente aprender e mudar com a situação. Ainda assim, alguém vai lembrar disso e apontar aquela situação. É isto. Cancelado. Acabou! Acabou? Nem tanto. Há como reagir...

Novos conceitos, velhos comportamentos

À cultura do cancelamento, podemos somar mais alguns conceitos: cobrança de responsabilidade, exposed, banimento, boicote e linchamento virtual. Primeiro é preciso falar que nada disso é militância, embora muito dessas discussões surjam a partir de grupos tidos como minorias sociais: mulheres, negros, LGBTQIA+, pessoas com deficiência, etc. Também não é incomum que as pessoas canceladas ou seus defensores se voltem contra algo que chamam de “politicamente correto”- um termo guarda-chuva que abriga todo tipo de questionamento e crítica que vem das minorias. Isso também é um engano.

O fato é que cada vez mais, as pessoas exigem coerência entre o que se fala na internet e o que se faz e fala fora dela. Então, cobrar responsabilidade pelo que se fala é cobrar coerência. O problema é que isso pode vir com a exposição de conversas particulares, de vídeos, de imagens antigas e na esteira vem o banimento, boicote e linchamento virtual.

As pessoas se sentem traídas, manifestam a frustração, das mais diversas formas, e exigem alguma punição para quem os traiu. Para o influenciador Spartakus Santiago, o cancelamento envolve linchamento virtual e boicote de pessoas ou empresas. Entretanto, ele ressalta que ainda não há uma definição específica para o termo. “Entendendo que o cancelamento é linchamento e boicote, acredito que o boicote pode ser sim uma forma de penalizar atitudes irresponsáveis. Consumir é dar poder a alguém, logo precisamos saber que valores estamos apoiando com nossas ações. Entretanto, discordo totalmente do linchamento, independente da situação. Fazer ameaças de morte e proferir discurso de ódio na internet não resolve absolutamente nada, ou pelo menos, não resolve de uma forma construtiva”, diz.

“Existem vários casos de pessoas que após linchamentos ficaram com grandes traumas emocionais ou até se suicidaram. Ao invés de um ataque massivo feito por um tribunal da internet, muitas vezes baseado em fake news, eu acredito que a penalidade deve ser dada por uma instituição legal, proporcional ao erro e após um julgamento justo. Ao invés de fazermos justiça com as próprias mãos, devemos cobrar que as instituições façam a lei ser cumprida”, acrescenta o influenciador, que defende o fim da cultura do cancelamento.

 

Assim como eu, Spartakus também acredita que há grupos que são impactados de maneira diferente pelo cancelamento. Os impactos e ataques às pessoas negras são mais violentos. “Já existe uma indisposição e antipatia natural por pessoas negras, que por causa do racismo são percebidas como agressivas, vitimistas, preguiçosas. É um ódio inconsciente presente não só nos brancos, mas também nos negros, o que muitas vezes se expressa na forma de auto-ódio. Só que esse sentimento tem que ser reprimido, pois existe uma norma social de que odiar negros sem motivo é racismo. O deslize feito por uma pessoa negra se torna esse motivo que racistas esperavam para despejar todo o ódio reprimido, e que se soma com a decepção dos próprios negros que se unem nesse ataque a partir de uma necessidade de se diferenciar do infrator (até como forma de não serem violentados também). Além disso, a violência sobre o corpo negro é naturalizada desde a colonização, fazendo com que o linchamento seja apenas uma versão virtual do tronco”, analisa o influencer.

Spartakus, que também é publicitário, reitera que pessoas negras já são boicotadas naturalmente pelo racismo, por isso são menos consumidas no mercado, na academia, na cultura ou nas redes sociais, e que o boicote causado pelo cancelamento só amplia essa desigualdade. “É bom entender também que pessoas brancas são mais humanizadas, por isso seus erros são vistos como mais aceitáveis. Algo que se reflete não só na absolvição de brancos no judiciário e encarceramento em massa de negros, mas também no perdão mais rápido de pessoas brancas canceladas virtualmente. Para completar, negros geralmente já têm a saúde mental debilitada e ocupam lugar de vulnerabilidade social, enquanto brancos têm acesso a terapia e podem até ser donos das empresas que trabalham, não correndo o risco de serem demitidos ao serem cancelados, por exemplo”, afirma.

Há uns anos o publicitário, natural da Bahia, possui um canal no YouTube. Nessa jornada, ele já conheceu a experiência de ser cancelado e disso ficaram algumas cicatrizes. “Dos linchamentos, ficaram vários gatilhos emocionais, o medo que qualquer crítica seja o sinal de um novo cancelamento a caminho, o receio de expressar ideias polêmicas ou impopulares (mesmo que sejam necessárias), a sensação de estar sendo constantemente julgado e rejeitado por todos, mesmo que eu tenha cada vez mais pessoas apoiando meu trabalho e tudo isso tenha acontecido há muito tempo atrás. Mas ficou também muito aprendizado. Os dois linchamentos que vivi me fizeram repensar meus objetivos na internet, aprender a ser menos ingênuo, repensar minha estratégia de comunicação online e hoje conseguir criar conteúdo de forma mais segura e saudável. Descobri que sempre dá para aprender com nossos erros e voltar mais forte”, pontua Spartakus.

Passadores de pano

Agora, chegamos ao BBB deste ano. Nesta terça-feira (23) a cantora Karol Conká pode ser eliminada com a maior rejeição do programa, superando o participante Nego Di, que saiu há uma semana com 98,76% dos votos. O comediante relatou que o filho parou de ir à escola e a família foi ameaçada. Outros participantes passam pela mesma situação. O filho da cantora Karol Conká, familiares do cantor Projota e da psicóloga Lumena Aleluia também relataram ameaças e mensagem de ódio. Toda a família deve ser punida pelas atitudes dos participantes no programa?

(Leia aqui sobre as ameaças a familiares de participantes do BBB)

Aqui, menciono um outro termo muito usado: “o passador de pano”... Eu não concordo com as atitudes dos participantes no programa, vejo muito erro neles, lamento muito pelas situações impostas ao Lucas Penteado e a ele, me solidarizo. Mas também torço para que os participantes saiam, entendam que erraram, percebam a necessidade de mudar e verdadeiramente mudem. O cancelamento não vai ensinar nada a eles, ver a família sofrer também não.

É sempre mais fácil apontar o dedo para o erro dos outros. Ainda assim, o meu compromisso é com a transformação da sociedade. Não com a destruição de quem erra. Sei que corro o risco de ser cancelada por ser passadora de pano. Mas sempre pondero que sou falha. Erro muito e não vou roubar a humanidade quem também erra e pode mudar. Quanto aos canceladores, no início do texto comento que ninguém está livre do tribunal na internet. Um dia podes ser cancelado também. Quem vai estar ao teu lado e te defender?

 

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