Quilombo vivo: Memórias de luta na Serra da Barriga

Há exatos 327 anos, o Quilombo dos Palmares foi desestruturado por tropas portuguesas em um dos capítulos mais sangrentos da história do Brasil. Localizado na Serra da Barriga, em Alagoas, hoje, o local abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares

Texto e Imagens: Lenne Ferreira

A dança das palmeiras no ritmo do vento que circula no alto da Serra da Barriga, em Alagoas, recebe quem chega com uma mensagem soprada aos ouvidos. Ela fala de uma liberdade plantada ali mesmo, na terra verde e boa de fruto, quando milhares de pessoas escravizadas com os pés descalços, a barriga vazia e as costas marcadas subiram o morro para cultivar as sementes do sonho de liberdade. Os bons frutos são colhidos até hoje não só na Serra, onde está instalado o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, mas em todo o Brasil.

A Angola Janga, como era chamada pelos palmarinos, resistiu quase 100 anos até a madrugada de 6 de fevereiro de 1694, quando foi invadida por tropas portuguesas que tinham como missão destruir o Quilombo dos Palmares. Depois de inúmeras investidas frustradas, homens e mulheres negras, com menor potencial bélico, foram derrotados em um dos mais sangrentos episódios da história do Brasil. Um verdadeiro genocídio, que resultou na aniquilação física de uma sociedade constituída para garantir dignidade aos negros vindos de África. Os resquícios de uma luta que também contou com a fundamental contribuição indígena ainda reverberam nos sons das palmeiras enraizadas no solo da Serra da Barriga.

SERRANo trajeto de subida até a Serra da Barriga, visitantes contemplam a paisagem natural  

Localizada a 500 metros de altitude, a Serra ostenta os títulos de Patrimônio Cultural Brasileiro desde 1986 e de Patrimônio Cultural do Mercosul, concedido em maio de 2017. Reconhecimentos que não seriam possíveis sem a militância de ativistas do nível de Abdias do Nascimento e Lélia Gonzales, que defenderam e atuaram no sentido de promover a valorização do território onde gerações de descendentes africanos organizaram um projeto de sociedade que englobava não só negros, mas índios e brancos pobres.  Nomes locais, como Mãe Neide de Oyá d' Oxum, que é responsável pelos cuidados com os pretos velhos e objetos sagrados do Parque, também foram importantes na consolidação do Memorial.

Construído e inaugurado em 2007, o equipamento está sob a responsabilidade da Fundação Cultural Palmares, que tem sua origem fundamentada na luta pela visibilização do espaço. A estrada de acesso só chegou em 2019, depois de décadas de reivindicações. Os 7,4 quilômetros de asfalto e paralelepípedo implantados pelo Governo do Estado conduzem os visitantes do sopé ao platô da Serra, o que ajudou a impulsionar o desenvolvimento turístico da região. São 8 quilômetros de um parque, que têm como maior riqueza a paisagem natural que acessamos dos mirantes, que também serviram de ponto estratégico para os “heróis de Palmares” protegerem o modo de vida do Quilombo.  

ENTRADANa entrada principal, a réplica de uma atalaia, estrutura usada pelos palmarinos para observar o movimento no pé da Serra

No trajeto, o visitante tem acesso a um acervo composto pela Casa de Farinha, Casa do Campo Santo, Oxilé das Ervas, as Ocas Indígenas e a Muxima (Coração de Palmares ). Alguns pontos, dispõem ainda de áudio descrição como os espaços Acotirene, Quilombo, Ganga-Zumba, Caá-Puêra, Zumbi e Aqualtune. No entanto, apenas um ponto está funcionando. Ao apertar o botão indicativo, o visitante tem acesso às narrações dos aspectos cotidianos do quilombo e músicas da cultura negra em quatro idiomas: português, inglês, espanhol e italiano. Nomes como Gilberto Gil emprestaram sua voz para o acervo. 

Último ponto do trajeto que compõem o passeio livre, a Lagoa Encantada dos Pretos é, segundo contam historiadores, o lugar onde os palmarinos se banhavam e amolavam suas armas nas pedras. Após a invasão do Quilombo, o local ficou repleto de corpos e cabeças boiando. Lá, é onde também fica a gameleira sagrada, uma árvore centenário bem às margens das águas esverdeadas, que guarda um forte simbolismo espiritual para praticantes de religiões de matriz africana.  

OCAS A influência indígena está demarcada no arcevo a céu aberto que também conta com réplicas de ocas

Serra habitada 

Nos últimos meses de pandemia, o Memorial fechou as portas seguindo a orientação do governo de Alagoas e só retomou as atividades no mês de dezembro. Mesmo com as atividades suspensas, o local não estava desabitado. Isso porque a área da Serra, antes de ser tombada, era ocupada por cerca de 20 famílias. Até hoje, algumas delas dividem a terra onde, antes, plantavam milho e mandioca com o acervo do Memorial e as pessoas que vão e vêm de vários lugares do Brasil. 

Cláudio Henrique mora em uma das seis casas localizadas dentro do Parque desde que nasceu, há 31 anos. Ele conta que o seu avô chegou na terra há mais de 50 anos para plantar e por lá constituiu família. “Era tudo mato e ele procurava uma terra produtiva com abundância de água e isso ele encontrou aqui”, conta Cláudio, que vive com esposa e dois filhos numa casa que também comercializa almoço para os visitantes. Cláudio também atua como guarda florestal do Memorial.

A instalação do Parque impactou a vida dos moradores, que compreendem a importância do equipamento, mas também lutam para serem ao menos indenizados caso tenham que desocupar a área, como já foi apontado pelo Iphan. Procurados pela reportagem, o Instituto informou que “além de bem tombado, o platô da Serra da Barriga também é cadastrado pelo Iphan como sítio arqueológico”. Por isso, está em andamento um processo judicial para definir a permanência ou relocação das famílias no local. “Nesta ação tanto a Fundação Palmares quanto o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) constam como instituições responsáveis por possíveis remoções. Vale ressaltar que não cabe ao Iphan efetivar ações voltadas à remoção das famílias”.

 

SEU CIÇOCícero é um dos seis moradores que vivem dentro área do Memorial desde antes de tombamento

O agricultor Cícero dos Santos, de 78 anos, não esconde a insatisfação com a possibilidade de perder a casa onde viveu por toda a vida. Faz dois anos que ele ficou viúvo e, hoje, vive na companhia de Xodó, um cachorro manso que tem um terreiro todo só pra ele brincar. “Quando eu cheguei aqui era tudo de arrendatário, era tudo mata e a gente plantava todo tipo de lavoura branca (milho, fava, feijão). Eu comprei o direito de cultivar a terra por 25 cruzeiros”, conta ele, que não sabe muito sobre Zumbi e seus feitos na Serra da Barriga. “Eu vim aprender a assinar o meu nome com cabelo branco”

Enquanto ainda não têm uma definição sobre os seus destinos, os ocupantes da Serra aproveitam o movimento de turistas para lucrar.  José Wellington, de 29 anos, montou uma loja de artesanato, onde trabalha com a esposa Jéssica. Ele diz que, desde o tombamento, ficou vetada qualquer tipo de construção no lugar. A proibição, segundo o Iphan, tem como objetivo promover a “conservação dos valores culturais ali presentes”. “Não podemos mais plantar também. Então improvisamos uma lojinha como deu para vender peças de artesanato, picolé, água”, conta. Wellington relembra que, durante a infância, ele e os amigos já acharam muitas peças como cachimbos, machados de pedra, facas e outros pequenos objetos que, hoje, estão no Museu Jorge de Lima. A relação afetiva com o lugar é demonstrada pelas histórias contadas com empolgação e na declaração no final da entrevista. “Eu sinto muito orgulho de morar aqui, nesse solo sagrado onde tantos heróis lutaram”.    

Visitantes e ativistas reivindicam atenção para o patrimônio negro 

AUDIODos seis pontos de audio descrição que narram fatos sobre a constituição de Palmares, apenas um está funcionando

A história de luta dos heróis de Palmares e a beleza natural da Serra da Barriga são motivos suficientes para visitar o local. Com a instalação do Memorial, no entanto, a população de União dos Palmares comemorou a possibilidade de aquecer a economia da cidade por meio do turismo étnico racial. De acordo com a secretária de Cultura do Município, Maria Elizabete de Oliveira, a Serra é “um grande diamante que vem sendo cada vez mais lapidado” pela atual gestão, que foi reeleita na última eleição e que tem tentando implementar políticas públicas de valorização do território. 

“O Memorial tem grande potencial turístico e cultural. Estamos envolvendo as pessoas e apresentando propostas para mostrar as grandes conquistas que podemos alcançar valorizando a história do Quilombo dos Palmares e o potencial do povo palmarino como artistas e artesãos”, pontuou a secretária, que citou como exemplo a comunidade quilombola Muquém, que fica no sopé da Serra e é a única do Brasil remanescente do Quilombo. Segundo ela, duas leis municipais foram criadas para garantir a aplicação do ensino da cultura afro-brasileira nas escolas, assim como a formação continuada de profissionais da rede pública, tudo com base na Lei 10.639. 

A responsabilidade da gestão do Parque é da Fundação Cultural Palmares, que nasceu paralelamente à luta  pela valorização e reconhecimento da Serra da Barriga. Com 14 anos de inaugurado, o Memorial apresenta sinais de falta de manutenção, o que é apontado por visitantes e trabalhadores. Maria Aparecida viajou de Minas Gerais para conhecer o espaço e sentiu falta da audiodescrição, que não funciona na maioria dos pontos. “É uma pena vir de tão longe e não poder viver a experiência por completo”, observou. Ela também comentou a falta de guias para orientar os visitantes, trabalho que acaba sendo feito pelos poucos guardas florestais, que prestam algumas informações e são muito atenciosos. 

O descaso também foi observado pela reportagem antes mesmo de chegar ao local. O site do equipamento está fora do ar e não possui contatos nem informações atualizadas sobre horários de funcionamento ou indicações de como chegar até o Memorial. A reportagem observou que muitas placas estão com as inscrições rasuradas e alguns pontos precisam de renovação de pintura e melhoria do acervo. “Eu queria ter visto os artefatos que foram encontrados aqui no Memorial”, observou o turismólogo pernambucano Felipe Oliveira da Paixão. De acordo com a Secretaria de Cultura da cidade, os achados estão guardados na Casa do Poeta Jorge de Lima, que fica na cidade e está em reforma. A Fundação Cultural Palmares não respondeu a nenhum dos e-mails enviados pela reportagem com solicitação de entrevista para falar sobre gestão, estrutura, manutenção e futuras ações para o equipamento. 

Para a historiadora e integrante do Instituto do Negro de Alagoas (INEG), o fato de a responsabilidade da gestão do Memorial ser do Governo Federal , não pode insentar os governos do estado e do município. “Não há políticas públicas e assistência de gestão que auxilie o espaço. É bem complicado deixar a administração de um local da importância da Serra para uma fundação nacional que , atualmente, tem atuado com tanta problemática.  É uma falta de responsabilidade do nosso estado”, pontua a historiadora e integrante do INEG, Mariana Marques.

LAGOSegundo historiadores, a Lagoa Encantada dos Pretos era onde os palmarinos se banhavam e saciavam a sede

Para a historiadora, os descendentes alagoanos de Zumbi e Aqualtune ainda não colhem os frutos da herança histórica deixada pela Nação Palmares e sofrem com violências simbólicas cotidianas. Recentemente, o Instituto iniciou uma campanha de repúdio contra a prefeitura de São Miguel dos Campos, que removeu uma escultura de Nair da Rocha Vieira, baluarte da cultura negra miguelense e de Alagoas. A falta de apoio popular robusto é a indicação da falta de propriedade das pessoas sobre a história do Estado. “Ainda é uma parcela pequena da população que consegue dar o devido reconhecimento para a figura de Zumbi. É lógico que todo mundo sabe quem é e já ouviu falar, mas a importância dele no cotidiano das pessoas não existe e até existe, mas para uma população reduzida, acadêmica e ou pessoas de movimentos sociais, que conseguem entender com mais ênfase quem foi Zumbi”, discorre. 

Trabalhos de pesquisadores como o professor Zezito de Araújo, mestre pela Universidade Federal de Alagoas em História do Brasil, servem de parâmetro para entender a relevância política e histórica do Quilombo. Zezito criou e organizou o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros UFAL e, em 2020, em ocasião dos 40 anos de tombamento da Serra da Barriga,  lançou a obra “Quilombo dos Palmares: Negociações e Conflitos”, onde "retoma a História do Quilombo dos Palmares, mostrando a importância da sociedade palmarina para a compreensão da formação da sociedade brasileira”. A publicação fala sobre aspectos negligenciados pela história oficial que “possibilita aos leitores analisar a história palmarina sob nova ótica” e destaca as negociações entre quilombolas e senhores de engenho, o acordo de paz assinado realizado entre Ganga Zumba e a Coroa portuguesa; a luta pela posse das terras quilombolas, principal razão para a perseguição e destruição da sociedade palmarina.

O orgulho de ser Angola Janga 

Quando a Mãe Neide de Oyá D’Oxum subiu à Serra pela primeira vez, o acesso ainda era por estrada de barro. Foi há mais de 40 anos. “Fui impulsionada pela religiosidade. Esse lugar significa muito porque ele nos conecta com a nossa ancestralidade”, afirma. Ela  também vê com muita desconfiança a atuação da Fundação Cultural Palmares, comandada por Sérgio Camargo, e teme pelo patrimônio do Memorial. “Trouxe os pretos velhos para cuidar porque eles foram danificados. A segurança é insuficiente”, revelou. Criada numa família católica, Mãe Neide se tornou uma ativista que protagonizou lutas importantes para a consolidação da Serra da Barriga enquanto patrimônio. 

MÃE

 Foi com a avó Cecília que ela iniciou os primeiros passos, embora inconscientemente, no     universo da espiritualidade   regida pelos orixás. Para ela, a defesa do patrimônio, que       representa a luta de Palmares por liberdade, precisa estar na pauta de prioridade do   movimento negro nordestino e brasileiro. “Não é fácil falar da história do preto no Brasil. O movimento do passado até tinha suas divergências, mas se uniram em defesa de uma bandeira. Hoje, tem muita gente usando palavras bonitas, mas que não traz resultado. Ninguém quer sentar no banquinho antes de discursar de   pé”, reflete a Ialorixá que é proprietária do Restaurante Baobá, no sopé da Serra. O local é um dos pontos turísticos   mais visitados e revela os sabores da gastronomia local com influência da receita da avó de Mãe Neide, que ganhou até prato especial no cardápio. 

 Atualmente, o restaurante  funciona de quarta a domingo e foi um dos estabelecimentos impactados pela pandemia.   Assim como no resto do mundo todo, o coronavírus também mudou a dinâmica da cidade e do Parque. O recurso da Lei Aldir Blanc, segundo a Secretaria de Cultura, é o que tem ajudado o setor cultural a caminhar. Com as portas reabertas, o Parque retoma suas atividades e possibilita mais renda para setores que sobrevivem a partir da movimentação turística.

CAPOEIRA

A relação de reverência com o platô da Serra também se aplica aos capoeiristas da região, que têm em Zumbi a figura mor da representatividade. Mano Gil é um deles. Nascido numa fazenda da redondeza, ele é frequentandor assíduo do Memorial. Anualmente, também participa das festividades simbólicas para historicidade negra como o 6 de fevereiro e o 20 de novembro. Mano Gil, que faz parte do grupo de capoeira Candeias, trabalha como guia local conduzindo grupos de visitantes e também produz e vende berimbaus e caxixi dentro do Parque. 

Ao narrar as histórias da Serra da Barriga para os visitantes, Mano Gil faz questão de ressaltar a atuação fundamental das mulheres para a organização política de Palmares assim como sua consolidação por quase 100 anos. “Sempre que falamos em Quilombo dos Palmares, todo mundo só pensa em Zumbi e Ganga Zumba, mas foram as mulheres que estruturaram todo o Quilombo”, reconhece. Se depender de Gil, Acotirene, Aqualtune e Dandara seguem vivas na memória do povo herdeiro das lutas de Palmares. 

 O povo preto quer narrar suas histórias

Vivemos em um mundo de disputa. Nossa sociedade tem profundas marcas das desigualdades que foram desenhadas ao longo da história. Na atualidade parece que há espaço para debate, a tão falada representatividade está sobre a mesa.
Mas o povo preto quer mais. Queremos narrar nossas próprias histórias. Queremos ter direito de fala não somente quando essa é concedida. Somos múltiplos, somos muitos e plurais. A ótica de ser preto no Brasil se revela como um espectro, tamanha a diversidade dos povos ancestrais que nos originaram, e a variedade de experiências que podemos ter e ser. Pertencer. O que nos conecta é pele.

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