CULTURA / Terça, 26 Outubro 2021 14:47

‘Roça é vida’: livro registra o modo de vida quilombola no Vale do Ribeira

A obra é a primeira com protagonismo das comunidades tradicionais da região do estado de SP; publicação busca manter vivo um sistema constantemente ameaçado

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ Livro ‘Roça é Vida’

Ilustração do livro roça é vida. Três pessoas caminham sobre um rio.
Introdução:

A obra é a primeira com protagonismo das comunidades tradicionais da região do estado de SP; publicação busca manter vivo um sistema constantemente ameaçado

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/ Livro ‘Roça é Vida’

“Queremos com este livro ressaltar nosso compromisso com gentes comum, essas gentes que vivem o coletivo e realizam seu trabalho de forma coletiva”. Dessa forma, é introduzido o livro ‘Roça é Vida’, obra infantojuvenil de valorização do modo de viver ancestral das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira e que também registra o, constantemente ameaçado, Sistema Agrícola Tradicional Quilombola (SATQ).

Lançado em 2020, o livro foi idealizado, escrito e ilustrado por pesquisadores e educadores quilombolas e aquilombados da região do sudeste do estado de São Paulo. É considerado o primeiro em que há esse protagonismo de pessoas das comunidades do Vale do Ribeira.

Segundo Laudessandro Marinho da Silva, educador social, morador do Quilombo Ivaporunduva e um dos autores do livro, o projeto é fruto de um trabalho coletivo. Ele foi proposto pelo GT da Roça, um grupo de trabalho formado por representantes de 19 associações quilombolas que tiveram o seu sistema de plantio, o SATQ, reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro em 2018 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

A obra infantojuvenil é uma ação de salvaguarda do SATQ para garantir que o modelo de vida e de trabalho na roça não seja esquecido e para que as pessoas saibam que esse não é um modelo predatório.

“O modelo de roça aqui é a vida, que nos sustenta e que nos norteia. Não é um modelo de destruição da natureza e, sim, um modelo de preservação. Quando a gente pensou no livro 'Roça é Vida', não é só na vida humana, mas na vida geral. Estar na roça é o maior orgulho, por isso a gente coloca no livro esse nome”, explica Laudessandro.

Registro e valorização de um modo de vida ancestral

Capa Livro Roça é Vida.

Livro é o primeiro com protagonismo de pesquisadores e autores quilombolas e aquilombados do Vale do Ribeira | Crédito: Roberto Almeida/ ISA

O SATQ é um conjunto de saberes quilombolas aplicados no cultivo de alimentos, em que a natureza é manejada de forma respeitosa e gera integridade cultural, subsistência, trabalho e renda para as comunidades que ali vivem. A roça de coivara é a base desse sistema. É um conhecimento dos povos tradicionais em que os espaços de plantio dentro do território são trabalhados em forma de rodízio e onde há a queima apenas da área derrubada que receberá a agricultura.

Em 48 páginas, o livro conta a história de personagens com nomes como Tradição, Fartura, Resistência e Esperança e que, além de revelarem elementos do conhecimento cotidiano das comunidades do Vale do Ribeira, também ambienta a roça de coivara, a produção de alimentos e explica os conhecimentos quilombolas de integração à Mata Atlântica e à coletividade.

A obra foi distribuída para crianças e jovens das escolas públicas da região e busca inspirar jovens, professores e professoras sobre a importância desse sistema tradicional de vida. Para Viviane Marinho Luiz, professora, moradora do Quilombo de Ivaporunduva e também uma das autoras do livro, o viés pejorativo da roça muita vezes se mantém na escola, então, a luta por mudar isso e mostrar o protagonismo dessas comunidades em torno de uma modo de vida alternativo ao capitalismo também é no campo educacional.

“O livro foi feito a muitas mãos e muitas cabeças. A gente quis que a materialidade do livro mostrasse esse coletivo. O processo de criação dele se deu de forma que mostrasse também o protagonismo das mulheres e a organização social das mulheres quilombolas que também sustentam o território. É um tributo às mulheres quilombolas, especialmente as mais velhas, que são as detentoras do conhecimento junto com os homens”, destaca Viviane.

Ameaças a um sistema que preserva

A região do Vale do Ribeira é a maior remanescente de Mata Atlântica em território nacional. Além disso, a área possui a maior concentração do estado paulista de comunidades quilombolas que, há mais de 300 anos, vivem e preservam a floresta. A obra ‘Roça é Vida existe em um contexto de valorização desse manejo da mata, além de também servir como instrumento de luta por um sistema que é constantemente ameaçado por burocracias governamentais, não titulação de terras e desconsideração de sua importância.

“A gente tem um enfrentamento pela preservação da roça em um território ancestral, mas em que a gente sente o racismo estrutural no dia a dia por conta do racismo ambiental e da desvalorização da roça. Então o processo de criação do livro foi muito também em uma perspectiva de mostrar uma alternativa ao capitalismo, de mostrar a roça como um valor e de trazer essa proposição valorativa da roça, enquanto orgulho, enquanto identidade, enquanto pertencimento étnico-racial”, destaca a autora Viviane Marinho.

A partir dessa luta, espera-se que o Governo passe a assegurar que o modo de viver tradicional das comunidades quilombolas esteja disponível para futuras gerações.

“Ter acesso a um livro de narrativas quilombolas onde a gente possa se ver dentro do livro já é um marco muito grande. Um livro escrito por quilombolas também já é também um outro passo importante na qual as nossas crianças, os nossos jovens possam se espelhar nesse trabalho. Quando a gente tem um livro que fala dessa importância, principalmente do território, a gente está ensinando o país de que a terra não é só para comércio. A terra é para a vida”, completa Laudessandro Marinho.

Segundo a autora Viviane, a luta é todo dia para a manutenção do território e também para que as comunidades quilombolas possam ter os seus territórios titulados e as licenças ambientais, que autorizam a produção das roças, garantidas, já que esse é um processo demorado e que prejudica a população da região que depende disso.

“Escrever um livro é fundamental porque a gente anuncia, mas também denuncia todas as burocracias que fazem com que a nossa voz não seja ouvida. Então, a ideia do livro é mostrar que é possível viver bem no território e a nossa luta é para que as crianças e os jovens não aspirem estudar para sair do território, mas que eles possam manter o orgulho de ser daqui e de que é possível viver bem aqui”, finaliza Viviane Marinho.

O livro ‘Roça é Vida’ é de autoria de Viviane Marinho Luiz, Laudessandro Marinho da Silva, Márcia Cristina Américo e Luiz Marcos de França Dias. A ilustração é de Amanda Nainá dos Santos e de Vanderlei Ribeiro. A publicação contou com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e está disponível, gratuitamente, em pdf.

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