CULTURA / Sexta, 08 Julho 2022 11:23

"Quebradinha": a arte da favela em miniatura

Com materiais recicláveis, o multiartista Marcelino Melo, conhecido como "Nenê", recria moradias das favelas e busca ressignificar o olhar do público através da memória e afetividade

Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Nadine Nascimento | Foto: Divulgação/Léu Britto

Marcelino é um homem negro que usa dreads. Ele está sentado ao centro da imagem com miniaturas de casas ao redor
Introdução:

Com materiais recicláveis, o multiartista Marcelino Melo, conhecido como "Nenê", recria moradias das favelas e busca ressignificar o olhar do público através da memória e afetividade

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Texto: Dindara Ribeiro | Edição: Nadine Nascimento | Foto: Divulgação/Léu Britto

Quando criança, Marcelino Melo saia pelas ruas da cidade de Carneiros, no sertão de Alagoas, em busca de materiais que pudessem ser transformados em brinquedos. De origem pobre, foi no lixo que encontrou a possibilidade de ressignificar o que era descartado para transformar em arte. Foi quando chegou em São Paulo, em 2008, que o artista visual, conhecido como "Nenê", passou a dar vida ao que seria um dos seus grandes trabalhos: o "Quebradinha", projeto que utiliza materiais recicláveis para recriar casas e elementos das favelas em formato de miniatura.

Morador do Jardim Piracuama, no Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo, Nenê conta que o projeto nasceu a partir de um processo de terapia e, diante da necessidade de transformar a sua auto-observação em memória, resolveu criar casinhas que também rememoram trechos da sua história.

"Todas as casinhas, por mais que elas passem por histórias que todo mundo vá se identificar, ela parte necessariamente de elementos da minha vida para que eu não esqueça. E eu não falo isso especificamente, eu crio, jogo e solto, agora é do mundo [...] Na prática, não é nada sobre mim, mas para as pessoas e isso é muito bom", diz o artista.

Lajes, paredes sem reboco, caixa d'água, telhados, tudo se transforma em miniatura nas mãos do artista, que também é fotógrafo aéreo, arteducador e produtor. Todos os itens são medidos em proporção 1 por 20 e dentre os materiais utilizados estão garrafas pet, papelão, entre outros recicláveis encontrados pelas ruas.

casas quebradinhaLajes, paredes sem reboco, caixa d'água, telhados, tudo se transforma em miniatura nas mãos do artista | Foto: Divulgação/Léu Britto

As "Quebradinhas", como são chamadas as moradias, fizeram tanto sucesso que chamam atenção nas redes sociais. Com pouco mais de 180 mil seguidores, no perfil do projeto é possível encontrar imagens dos cenários que fazem parte do cotidiano das favelas. As miniaturas são tão detalhadas que se confundem com a realidade.

O artista conta que as obras têm transformado a leitura que algumas pessoas têm da favela. Segundo Nenê, pessoas chegam a comentar que as miniaturas a fizeram resgatar lembranças afetivas das suas vidas e outras até se emocionam.

"A gente tem um problema que é de olhar a favela só como um complexo de casas, quando a favela não é só isso [...] Se a gente for trazer para a luta preta, aquilo é de fato um quilombo em todas as coisas, desde o sentido de comunidade - de olhar as crianças pequenas na rua, por exemplo - como do cuidado, da afetividade", relata.

Uma das obras, o "Quebradinha 8 (Nova Canindé)", é inspirado na história e obra da escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, mulher negra, pobre, catadora de recicláveis e moradora da Nova Canindé, considerada uma das primeiras favelas de São Paulo.

Com uma parede que traz a ilustração da escritora, a casinha, que retrata um barraco de madeira, traz elementos que levantam discussões como a pobreza, a fome e o agravamento da desigualdade social no Brasil durante a pandemia da covid-19.

"É uma casinha que pretende passar visualmente por pelo menos três décadas: 1960, pegando a história da Carolina, o barraco e os elementos literários que remetem à Carolina; 1990, o boom aqui em São Paulo dos barracos de pau, do esgoto à céu aberto, que sumiu até 2020, quando surge de novo novas favelas com essa estética de pau", explica Nenê.

"Sem muita romantização, os elementos passam a ser ressignificados na 'Quebradinha' e as pessoas, tanto de favela ou não, passam a ter uma outra leitura dos elementos. A minha porta maior não é, necessariamente, uma casinha, a estrutura da casa, mas nos elementos porque eles me ajudam a contar histórias e aí o resto é com quem tá vendo, a interpretação é alheia", completa.

Em São Paulo, as obras do projeto "Quebradinha" podem ser conferidas de perto na exposição "Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros", no Sesc Sorocaba, no interior paulista.

Quebradinha no IMS Autor Léu Britto 30Obras do projeto "Quebradinha" estão em exibição na exposição "Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os brasileiros", no Sesc Sorocaba (SP) | Foto: Divulgação/Léu Britto

A exibição, que teve início no dia 16 de junho, fica disponível até o dia 25 de setembro. Em novembro, as obras do artista "Nenê" serão exibidas em uma exposição coletiva no Centro Cultural de São Paulo, que acontece em novembro, ainda sem data marcada.

Para o futuro, "Nenê" planeja lançar obras inéditas e intervenções nas ruas do país. Por fim, o multiartista relata que espera romper com a bolha do mercado artístico e colocar a produção negra em evidência.

"Eu quero estar no mundo. Eu quero que a 'Quebradinha' esteja no Louvre, na Bienal de Veneza... Tô com essa ótica, apontando para e emanando energia", finaliza.

Leia também: IMS Paulista inaugura exposição sobre a vida, a obra e o legado da escritora Carolina Maria de Jesus

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