CULTURA / Sexta, 12 Fevereiro 2021 11:57

Clipe “Lamento de Força Travesti” ressignifica imaginário sertanejo de PE

Gravada no Sertão de Pernambuco, a produção audiovisual é fruto da parceria entre a transartivista Renna e a multiartista de Arcoverde, Benedita; Lançada nesta semana, obra recria elementos típicos do cenário popular nordestino e denuncia a transfobia no país

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagens: Divulgação

“Todos os dias uma travesti é morta. Quem disse que a vida importa quando se é? Eu sou mulher. Enuncio de voz grossa que tá viva é minha resposta pro teu mal-me-quer”. Os versos são da transartivista Renna, catarinense erradicada em Pernambuco, e a multiartista arcoverdense Benedita. O encontro das duas dão um tom de denúncia à realidade trágica da transfobia no país e reafirma as próprias potências que são suas vidas na canção “Lamento de Força Travesti”. Com videoclipe lançado na última segunda-feira (8), a produção renova a estética da produção sertaneja nordestina com referência ao cangaço. 

A produção entra no ar como o primeiro videoclipe da artista, que conta com parceria da amiga Benedita, que também exerce a função de diretora. No processo de criação do projeto, Renna diz  oque motivou a escolha narrativa. “O mote principal da criação do projeto é a ideia da morte. Isso é muito doido, dentro de um corpo travesti, pela morte ser demasiadamente retratada, como a morte no sentido de violência, de viver em um país que mais mata travestis. A ideia de morte sempre está relacionada à um corpo travesti, mas a ideia da música é desmestificar tudo isso, tirando essa imagem de violência, de assassinato, de assédio e de agressão para tratar a morte em um lugar mais simbólico, com várias camadas de referências, como a própria música, que é uma delas”, explica a cantora.

“Já a segunda parte do clipe já transparece a ideia de celebração da nossa vida, das nossas existências e por quê não celebrar a morte? Mas quando ela passa a ser um processo natural da vida e não uma falta de opção e de direitos que nos são negados. A ideia mesmo é ressignificar esta relação de ser travesti e a morte”, complementa a artista. 

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Com cenas gravadas há 286 quilômetros do Recife, no Vale do Catimbau, região do Sertão pernambucano, a obra também imprime uma estética rural - com a filmagem de casas de taipa, por exemplo -, somada as características mais representativas do imaginário da cultura popular e a dinâmica comportamental dos municípios do interior do estado, em uma recriação ‘transfuturista’ da representação das novenas, das rezadeiras, benzedeiras e dos santos milagreiros.

Renna ainda conta que tratou destes elementos a partir da própria vivência que tem como moradora do Sertão. Além dela, parte da equipe vive no Sertão do Moxotó, no Agreste, e em cidades como Arcoverde, terra da cantora Benedita, que integra a produção. “Então, falar sobre essa temática, sobre esse corpo, dentro dessa atmosfera sertaneja, que é um lugar que não se discute muito a travestilidade e não se vê corpos trans em contexto rural, o projeto vem como uma forma de contar uma outra narrativa, em um ponto de vista meu, de Gabi e das outras participantes do videoclipe”, pontua a artista.

Renna e Benedita conta com a presença das artistas Irla Carrie, Samantha Fox e Vinn Amara, RENNA e Gabi Benedita, que integram a produção armadas de amor umas pelas outras. Em um discurso uníssono, a rede de apoio travesti representada na produção ainda aponta para o desejo e a necessidade de enterrar tudo aquilo – entre opressões e masculinidades impostas – que não lhes servem mais ao fim do clipe.

Assista na íntegra aqui.

Produção multiplataforma 

Além do videoclipe, também faz parte desse projeto a série “O Sonho Dela”. O material complementar ao lançamento de “Lamento de força travesti” é composto por nove mini entrevistas gravadas com travestis que respondem sobre como se veem e sonham o futuro. O material pode ser visto via rede social da cantora RENNA. Toda a realização do projeto e seus desdobramentos foram frutos do incentivo da Lei Aldir Blanc. 

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