CULTURA / Sexta, 19 Agosto 2022 12:37

Por que usar brancos às sextas-feiras?

O costume pode ser mais conhecido pelos adeptos de religiões de matriz africana, mas também está inserido na cultura islâmica

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/Jussara Aragão

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O costume pode ser mais conhecido pelos adeptos de religiões de matriz africana, mas também está inserido na cultura islâmica

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Texto: Caroline Nunes | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução/Jussara Aragão

O uso de roupas brancas às sextas-feiras é um costume no Brasil, em especial, na Bahia. Apesar da forte influência de religiões de matriz africana, como o candomblé, a utilização de trajes alvos também faz parte da tradição islâmica.

Segundo o Sheikh Abdul Hameed Ahmad, a adoção do uso de branco às sextas-feiras pode estar ligado à presença dos africanos islamizados na Bahia. Ele pontua que essas pessoas marcaram profundamente a cultural local, introduziram a religião no Brasil e representaram resistência contra a escravidão.

“Justamente nas sextas-feiras, os mulçumanos se vestem de branco para saudar Alá, que é o criador do universo, e os candomblecistas o fazem em respeito a Oxalá”, comenta o líder religioso.

O antropólogo Vilson Caetano enfatiza em seu artigo que branco está presente em todos os ritos de passagem das religiões, não sendo exclusivo a nenhum culto.

“Há também o culto ao orixá Oxalá que, no sincretismo religioso, dialogou com a figura de Alá. A união desses dois fatores pode explicar o uso da roupa branca às sextas-feiras”, descreve o pesquisador.

Oxalá, Alá e sincretismo

“No candomblé, Oxalá é representado pela cor branca, tem como dia da semana às sextas-feiras, e é considerado o criador dos seres vivos. Assim como os povos mulçumanos, para quem cultua orixá, Oxalá é o pai do branco e nos inspira a separar um dia para a purificação”, pontua o babalorixá Adeilton do Carmo, filho de Oxalá.

O Sheikh Abdul pondera que o uso de branco às sextas-feiras remete aos ensinamentos do alcorão – livro sagrado dos mulçumanos, revelado pelo profeta Muhammad –, que afirma aos adeptos da religião o dever de se vestir com roupas claras a fim de se conectar com Alá de maneira pura.

Adeilton, no entanto, explica que na cultura yorubá, a cor branca pertence aos Irúnmolé's funfun (Divindades da cor branca), sendo Oxalá o principal Irúnmolé dessa cor.

“No candomblé, o uso da cor branca além de representar a pureza e resguardar os Omo Òrìsá [filhos dos orixás] de coisas ruins, é também usada em sinal de respeito à importância hierárquica do pai do branco.

O sacerdote ainda enfatiza que na Bahia o sincretismo associou oxalá ao Senhor do Bonfim e, por isso, é comum usar a cor branca às sextas-feiras, pois, tanto Oxalá como o Senhor do Bonfim são representados pela cor branca e reverenciados neste dia.

“Independente de religião, muitas pessoas usam o branco, pois além de uma cor marcante que representa a paz, elas acreditam que o mesmo afasta as energias negativas e energiza quem o usa”, completa o babalorixá.

Sextas-feiras são especiais

O Sheikh Abdul salienta ainda que o sermão proferido na oração do meio-dia nas sextas-feiras, chamado Khutba, é muito especial para os mulçumanos, ou até mesmo, o dia mais importante da semana. Embora não exista no islã o conceito de "dia santo" tal como existe no judaísmo (shabat) e no cristianismo, a sexta-feira é o que mais se aproxima desta ideia, sendo o dia do descanso nos países islâmicos.

“Nesse dia, quando os adeptos do islamismo rezam às 12h, para além do cumprimento da obrigação religiosa, o momento funciona como forma de encontro entre a comunidade”, explica o líder.

A exaltação de determinadas virtudes a seguir, ou a acontecimentos da história dos primeiros tempos da comunidade islâmica – apoiada em citações do Alcorão e nas tradições do profeta – , é misturada com súplicas por perdão e reflexões para reforma íntima, segundo Abdul.

Babá Adeilton pontua que às sextas-feiras, no candomblé, é o dia de agradecer a Oxalá por toda misericórdia concedida aos humanos e pedir paz. O líder religioso finaliza dizendo que apesar das diferenças entre os cultos, “o essencial é utilizar esse dia para se conectar com o sagrado – independentemente de qual seja ele”.

Leia também: ‘Por que o candomblé sacrifica animais?’

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