CULTURA / Quarta, 12 Mai 2021 16:58

Lucas dos Prazeres faz mergulho interior em "Águas de Renovação"

Multiartista pernambucano celebra à vida em espetáculo dedicado ao centenário de sua avó, a rezadeira e matriarca do Quilombo dos Prazeres, Maria da Conceição; obra reflete sobre os desafios impostos pela pandemia e exalta saberes ancestrais com os quais teve contato ao longo de sua trajetória

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Divulgação/Deyse Leitão

Pernambucano Lucas dos Prazeres partilha etapa de autoconhecimento no projeto "Águas de Renovação"
Introdução:

Multiartista pernambucano celebra à vida em espetáculo dedicado ao centenário de sua avó, a rezadeira e matriarca do Quilombo dos Prazeres, Maria da Conceição; obra reflete sobre os desafios impostos pela pandemia e exalta saberes ancestrais com os quais teve contato ao longo de sua trajetória

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Divulgação/Deyse Leitão

Cria do Morro da Conceição, Zona Norte do Recife, o cantor, compositor, bailarino e percussionista pernambucano Lucas dos Prazeres estreia novo espetáculo musical que ilustra um momento de transformação diante de um cenário adverso sociocultural. Honrando e exercitando saberes ancestrais que lhe foram passados, o artista apresenta “Águas de Renovação”, projeto que visa traduzir os ensinamentos aprendidos com referências como a sua avó, a rezadeira centenária e matriarca do Quilombo dos Prazeres, Dona Maria da Conceição. 

“O banho de alegria e axé”, descrição adotada pelo próprio artista, reúne uma coletânea de músicas conhecidas do seu trabalho junto à Orquestra dos Prazeres - desde 2011 -  e músicas autorais ainda não lançadas oficialmente. Para Lucas, a nova obra dialoga sobre como se recebe os ritos que a natureza impõe, reaprendendo a observar as águas, para não ser arrastado pelas emoções. 

 

“Estamos vivendo um momento de questionar, mais uma vez, os padrões seguidos pela sociedade, assim como as dinâmicas, costumes e, principalmente, o nosso próprio comportamento, de maneira individual. Com o Águas, pretendo partilhar de como me coloco a transacionar, me desenvolver neste período, mas me comprometendo com a minha missão de vida e espiritual, que é repassar a sabedoria ancestral através da arte”, explica o artista, que foi um dos homenageados do tradicional ‘Homem da Meia-Noite’ no carnaval de 2019. 

A partilha sobre sua nova fase em formato de celebração vem para comemorar os seus 34 anos de carreira que, hoje, é reconhecida pelo próprio Lucas como início de seus caminhos de aprendizado através da arte: uma apresentação solo de coco no Teatro Santa Isabel, no centro do Recife, aos 3 anos de idade. “Hoje, aos 37 anos, passo por transformações internas, mas sempre buscando valorizar os meus próprios passos já dados e dos mais velhos que me ensinaram tanta ciência ancestral. Relembrar minha presença em um dos principais palcos da capital pernambucana, hoje, me faz entender que fazia arte com aquilo que estava próximo a mim. Uma brincadeira que, querendo ou não, valorizava a minha cultura”, pontua.

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Seguindo a mitologia de uma África em diáspora, ele acredita que "honrando meus caminhos, me refaço inteiro”. Um deles, o levou a lembrar dos ensinamentos de sua avó, Maria da Conceição, que é homenageada durante o espetáculo. Em 2020, a matriarca teria uma celebração voltada à seu centenário (1919 - 2019),  mas que foi impedida devido aos desdobramentos da crise sanitária pela pandemia da COVID-19. Para o cantor, homenageá-la é como reverenciar a importância dos ensinamentos aprendidos e usados não só por ele, mas por toda a comunidade que a conhecia como figura de relevância cultural e espiritual para o bairro de Casa Amarela, na Zona Norte do Recife. 

“No processo de construção do espetáculo, voltei ao meu passado e a todo momento percebia que ali havia uma celebração dentro do meu quilombo, da minha família. Como figura central desta estrutura, a minha avó, mãe de 7 filhos e que foi rezadeira e conselheira dos morros dentro de Casa Amarela e nos arredores. Conhecida por sua mediunidade, sempre vi minha avó como uma pessoa muito respeitada, a ponto de dar nome à uma creche-escola local há quarenta anos, recebendo crianças de doze morros. Lembro de suas garrafadas e de como as pessoas a chamavam por também ter sido mãe de leite, “Mãe Ção”, alguém que não poderia estar de fora no meu processo de transformação”, conta.

Exaltação ao legado Prazeres

Tendo a oralidade como principal ferramenta do repasse da sabedoria ancestral e de resistência às inúmeras tentativas de apagamento histórico da cultura afro, Lucas dos Prazeres abre o show com uma homenagem a quem simboliza a continuidade de sua árvore: o seu filho, Yan Naluh. A faixa, que recebe o nome de “Menino Luz”, é de composição própria ao lado de sua companheira, Deyse Leitão, que assina a direção sistêmica do projeto. Cumprindo o papel de abrir os caminhos, como um rito de passagem em formato de espetáculo, “Menino Luz” foi idealizada para ser cantada no dia do nascimento de Yan - de parto feito dentro d’água-, uma metáfora ao começo e à abertura de novos percursos não só para o artista, mas para toda sua família. 

Os novos passos de 2021 

Ainda sem agenda fechada para circular com “Águas de renovação”, que teve sua live de estreia na última terça-feira (11), a obra marcará o ponto de partida para outras duas grandes celebrações do multiartista. Lucas dos Prazeres está em processo de criação e gravação de dois discos: os 10 anos da Orquestra dos Prazeres e seu primeiro álbum totalmente autoral, gravado em estúdio e intitulado de “Traçado”. As duas obras poderão ser ouvidas ainda no segundo semestre.

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