CULTURA / Segunda, 21 Junho 2021 14:06

Mais de 500 artefatos de religiões afro-brasileiras passam a integrar Museu da República

Transferência do acervo da Polícia Civil é fruto da mobilização do movimento “Liberte Nosso Sagrado”; os artefatos são originários da época de maior repressão contra os povos de terreiro

Texto: Redação | Imagem: Divulgação

A transferência é fruto da grande mobilização do movimento “Liberte Nosso Sagrado”
Introdução:

Transferência do acervo da Polícia Civil é fruto da mobilização do movimento “Liberte Nosso Sagrado”; os artefatos são originários da época de maior repressão contra os povos de terreiro

Texto: Redação | Imagem: Divulgação

O acervo de artefatos de matriz afro-brasileira apreendido por quase um século no Museu da Polícia do Estado do Rio de Janeiro passou a ser abrigado definitivamente pelo Museu da República. A transferência é fruto da grande mobilização do movimento “Liberte Nosso Sagrado”, que lutava para recuperar 519 objetos sagrados confiscados entre o fim do século 19 e o início do século 20. 

A assinatura do termo de cessão definitiva aconteceu pela manhã no Ilê Omolu Oxum, em São João de Meriti, município na região metropolitana do Rio, uma das Casas de Axé mais tradicionais do Brasil e sede do Museu Memorial Iyá Davina - primeiro museu etnográfico do Rio de Janeiro dedicado às Comunidades Tradicionais de Terreiro. A cerimônia, restrita, cumpriu todos os protocolos de higiene seguindo as orientações da ANVISA e da OMS no combate à Covid-19 e não foi aberta ao público. 

Para a principal liderança do Movimento, Mãe Meninazinha de Oxum, a recuperação do acervo já faz parte da história do Brasil e merece ser comemorada. A matriarca destaca ainda a importância do trabalho conjunto entre a Instituição e as comunidades de terreiro.

“Estou muito feliz e orgulhosa com a vitória do povo de axé, depois de tanta luta para termos o nosso sagrado tratado com o respeito que merece. A gestão compartilhada desta coleção, entre o Museu da República e grupo de trabalho formado por lideranças religiosas de matriz africana é um grande passo no combate à intolerância religiosa, que sofremos historicamente”, enfatiza a dirigente. 

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O acervo

O material que integra o acervo estava sob tutela da Polícia Civil, conta com objetos sagrados para as religiões da umbanda e candomblé. As violações ocorreram nas primeiras décadas da República, principalmente no período entre os anos de 1920 e 1930, mesmo com a Carta Constitucional de 1891, que já estabelecia no país o Estado laico e a liberdade de crenças e cultos.

Os artefatos, que ainda trazem à memória do povo de terreiro as invasões violentas por parte do Estado, foram depositados no Museu da Polícia Civil do Rio de Janeiro, compondo, ao lado de outros materiais apreendidos por forças policiais, exposições organizadas na instituição. Em 1999, quando a sede desse Museu é transferida para o prédio histórico da Rua da Relação, nº 40, no centro carioca, todos os objetos da chamada pela corporação de 'Coleção Museu de Magia Negra' foram guardados em caixas e assim permaneceram até setembro de 2020, com acesso vetado ou muito restrito de pesquisadores e aos integrantes das comunidades tradicionais de terreiro.

Para Mário Chagas, diretor do Museu da República e presidente do MINOM (Movimento Internacional para uma Nova Museologia), o Museu da República junto com os Terreiros e Casas de Santo do Rio de Janeiro celebram uma conquista importante.

“De algum modo, a Coleção Nosso Sagrado ganha nova vida, encarna novos sentidos e significados, projeta-se mais viva e mais livre num futuro que há de trazer mais vida, mais conhecimento, mais pesquisa, mais ações educacionais e mais força para combater o racismo religioso”, garante o gestor. 

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Luta retratada nas telas

Em 2017 a batalha pela recuperação dos artefatos que retratam a história da população negra com as religiões e a ancestralidade foi contada no audiovisual. A produção mostra como as comunidades tradicionais de terreiro eram criminalizadas, seus religiosos perseguidos e seus objetos sagrados apreendidos. 

O documentário ‘Nosso Sagrado’, (dirigido por Fernando Sousa, Gabriel Barbosa e Jorge Santana), foi produzido pela Quiprocó Filmes em parceria com a campanha Liberte Nosso Sagrado. Licenciada para o Canal Brasil, atualmente a obra está disponível na plataforma kweli.tv.

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