CULTURA / Segunda, 17 Mai 2021 11:51

ENTREVISTA: O poder da palavra da mulher trans, negra e paraibana; conheça Bixarte

No Dia Internacional contra a LGBTfobia, conversamos com Bianca Manicongo - a mulher por trás de Bixarte -, que fala sobre seu encontro com a arte e os impactos de sua palavra no dia a dia de outras mulheres trans e travestis

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Divulgação/Bixarte

ENTREVISTA: O poder da palavra da mulher trans, negra e paraibana; conheça Bixarte
Introdução:

No Dia Internacional contra a LGBTfobia, conversamos com Bianca Manicongo - a mulher por trás de Bixarte -, que fala sobre seu encontro com a arte e os impactos de sua palavra no dia a dia de outras mulheres trans e travestis

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Divulgação/Bixarte

A filha de dona Ana, travesti, preta e paraibana, Bianca Manicongo dá vida à persona artística e com sede da revolução, a ‘Bixarte’. Aos 20 anos, viva e galgando novos espaços, principalmente no digital, desde 2018 ela segue liberando aquilo que sempre esteve preso à garganta sobre o que vivenciava na pele e via na sua vizinhança. E colocou pra fora seus gritos-poesia. No Dia Internacional contra a LGBTfobia, a Alma Preta Jornalismo conversa com a artista que tem a internet como possibilidade para alcançar outras mulheres trans e travestis, que vivem situações semelhantes às suas, um espaço que a enxerga múltipla: atriz, cantora, compositora, rapper e poetisa.

“Falando sem medo, eu quero respeito. Pro povo do gueto, eu sempre meto meu peito. Sempre me calando, se esforçando pra eu parar, mas o trono é das bixa e ninguém vai me tirar”, o trecho da canção ‘Rap de Favela’, lançada em 2019, já anunciava o que motivava Bianca a usar poesia como munição contra as desigualdades e as angústias que vivenciava em um processo de autoconhecimento profundo. Com 193 mil ouvintes nas redes sociais, a força e a segurança em se defender pelas palavras de Bixarte lhe trouxe títulos de reconhecimento, como o de campeã da Festa Literária das Periferias e do Festival de Música da Paraíba, ambos conquistados em 2020. 

A bagagem extensa de produções e retornos em pouco tempo de carreira na poesia marginal e na música, a faz símbolo de uma geração que cria novas narrativas, em uma região que foi líder na concentração de homicídios no mesmo ano das suas maiores comemorações em prêmios. De acordo com o dossiê “Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2020”, estudo realizado Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans-PE) o Nordeste apresentou aumento de 6% em relação ao ano anterior, totalizando 75 assassinatos, 43% entre os casos nacionais. 

Em entrevista exclusiva, a artista fala de seu encontro com a arte, os retornos sobre as suas produções, os impactos de sua palavra no dia a dia de outras mulheres trans e travestis, dos entraves de viver na arte antes e durante a pandemia e as expectativas sobre sonhos em colaborações. Bianca falou ainda sobre seu último lançamento, “Oxum”, que ganhou um clipe no final do mês de abril e  adiantou novidades como seu próximo álbum em produção, intitulado “Traviarcado”. Confira!

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Pingue-pongue

AP: Quando houve a sua percepção de que as palavras se tornaram a sua principal munição?

Bianca: Minha ligação com a arte começou desde pequena, quando fiz teatro aos oito anos. Dez anos depois, aos dezoito, eu descobri o que é chamada de “poesia marginal”, um caminho onde pude escrever e falar sobre os medos que me cercam diante da minha sobrevivência e de outras mulheres trans e travestis que têm de ser a próxima vítima. O tempo em que comecei a produzir casou com com um processo de descobrimento sobre meu corpo e as várias fases que transitavam e que transitam sobre mim. Em busca de autoconhecimento, voltei à minha mãe, com quem, com cautela, pude conversar sobre o que estava vivenciando. Assim, pude entender que, para a arte, eu poderia unir como era lida, como bicha, e o que amava experenciar, a arte. Assim surgiu “Bixarte”. Uma percepção de que a arte não é um hobbie, um ‘job’, mas um trabalho de resgatar sobre a minha forma de sobreviver e a de tantas que fazem parte do meu convívio. 

AP: Em qual momento você reconheceu que sua expressão artística lhe traria força e retorno? 

Bianca: Pouco depois da morte de Marielle Franco, fiz um vídeo falando sobre a conjuntura política fascistas do governo e abordei temas como o medo, algo recorrente na minha luta através da poesia e dos discursos de ódios que estavam sendo abordados. Tive um retorno através da rede social, espaço que divulgo meus vídeos, mas me senti contemplada com pessoas vizinhas que me diziam que haviam assistido e se identificavam com o que estava falando. Isso me deu um entendimento do que é o poder da palavra de uma travesti preta e nordestina. Pude entender que o sentimento através da poesia faz parte do meu jogo de sobrevivência e dos meus, o que também gerou identificação em outras pessoas de periferias, uma revolta coletiva que ali estava sendo retratada em palavras. 

AP: E como o poder da sua palavra impacta no dia a dia e na vida de outras mulheres trans e travestis?

Bianca: Primeiro, penso que não é possível fazer revolução sem um trabalho de base. No meu trabalho, sempre busco ‘hackear’ o sistema e transformar não só a minha, mas as nossas mentes enquanto mulheres trans e travestis. Fico feliz em saber que existem pessoas que enxergam a verdade na minha poesia e que a minha expressão gera identificação e um entendimento de saber quem somos. Com a poesia, consigo possibilitar um olhar de que está tudo bem em ser travesti, por exemplo, e que há uma multiplicidade no entendimento do que é ser feminina. Não só a poesia, mas como a música ajudam também a desconstruir a ideia de um feminismo branco, aquele que não dialoga com as necessidades de nós, mulheres trans e travestis negras. 

AP: Desde o início da carreira, quais foram os maiores entraves para conseguir viver da sua arte, do seu trabalho? E na pandemia, quais foram os recursos alternativos que você usou para continuar produzindo?

Bianca: Estou na poesia marginal desde 2018 e fazendo rap há 2 anos e meio. De lá pra cá, principalmente na música, vejo que não sou reconhecida pela classe artística, não tendo apoio do rap brasileiro e muito menos do rap paraibano. Percebo que a ‘cena’ não enxerga meu trabalho como rap e não me veem enquanto uma Mc, por isso, desde o início busquei me fortalecer através das minhas e do entedimento que a sociedade, no geral, está nos matando. Minha poesia é um grito, chego a arrepiar quando declamo, então todos esses entraves me ajudam em um processo de descobrimento e de reação com fatos que nos deixam em choque sobre nossas vivências enquanto pessoas LGBTs, como as dores e os medos que assombram a minha comunidade, por exemplo. Durante a pandemia, outros gritos foram dados diante da minha situação de morar de aluguel, de viver de shows e de não conseguir ser aprovada em grandes editais e festivais. Por isso, me vi com a necessidade de ressignificar esse momento difícil através da qualificação, buscando estudar sobre carreira independente e de pensar enquanto quilombo. Mergulhar nas águas do conhecimento me fez pensar no projeto ‘Nova Era’ que sigo trabalhando, por exemplo, com a ideia de lançar um clipe por mês. 

AP: E quais são as colaborações artísticas que ‘Bixarte’ sonha em realizar?

Bianca: Venho falando sempre sobre hackear os meios de informação, produção e conhecimento. Então, com certeza, seria um sonho poder gravar com quem foi pioneira em fazer isso, que é a Linn da Quebrada, uma das primeiras travestis a hackear o mercado da música nacional. Consigo pôr em prática esse sonho na elaboração do meu disco, que conta com referências para mim, assim como a Linn, que são a Jup do Bairro e a Ventura Profana. As duas colaboram em um trabalho que fala sobre o poder absoluto de pessoas e travestis, sobre nossas respostas ao que nos questionamos diariamente sobre nossas vivências e tratando a geração 2000 com muito vogue e muita dança. Um trabalho que já faz dois anos de produção, muito estudo e que eu espero que atravesse muitas pessoas.   

AP: De composição própria, ‘Oxum’ - que recebeu clipe no final de abril - foi o seu último lançamento, certo? De onde surgiu a ideia? 

Bianca: Essa canção teve a sua parte visual contemplada pela Lei de Incentivo à Cultura, a Aldir Blanc, o que me possibilitou desenvolver não só ela, mas um EP, o ‘Nova Era’, um trabalho que pretende abrir os caminhos e demonstrar os primeiros passos de um processo que será mais aprofundada durante o álbum, que vem em seguida. Voltando à ‘Oxum’, compus em um momento delicado, quando a minha mãe contraiu o vírus da COVID-19 e eu pude me sentir acolhida escrevendo. Por falar da orixá das águas, a canção retrata essa instabilidade emocional durante a pandemia, algo que é vivenciado no coletivo, sabe? Como resposta, quis deixar um recado de amor e força.

AP: Para além do ‘Nova Era’, que ainda segue sendo trabalhado nas plataformas digitais, o que o público que consome ‘Bixarte’ pode aguardar para os próximos meses?

Bianca: Ainda sem data de lançamento, o público pode esperar um trabalho feito em cima de muito estudo no meu próximo álbum, o “Traviarcado”. Estamos em fase de ajustes e caminhando para uma conclusão. Com ele, espero quebrar as bolhas de playlists voltadas apenas à temática da diversidade, possibilitando que mais pessoas consigam entender os recados, as novas redes e os novos acessos que mulheres trans e travestis negras estão construindo. Minha expectativa é que, ao ouvirem, as pessoas não virem fãs do nosso trabalho com o álbum, mas, sim, ouvintes atentos à história que ali está sendo contada que, ao meu ver, é uma forma de reparação com o que todas nós já passamos. 

Assista "Oxum", faixa da 'Nova Era, Parte I': 

 

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