CULTURA / Segunda, 07 Novembro 2022 14:32

De excluídos à maioria: a história dos jogadores negros brasileiros na Copa

Desde a Copa do Mundo de 1994, nos EUA, jogadores negros são maioria nas convocações da Seleção Brasileira

Texto: Elias Santana Malê | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

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Desde a Copa do Mundo de 1994, nos EUA, jogadores negros são maioria nas convocações da Seleção Brasileira

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Texto: Elias Santana Malê | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

A Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar, será a 22ª edição com a participação da Seleção Brasileira, única a participar de todas as Copas. A edição atual do torneio será a oitava seguida com maioria negra entre os convocados, a última sem maioria negra foi a Copa de 1990, disputada na Itália.

Na história pentacampeã da Canarinho, como é conhecida, os jogadores negros sempre estiveram em destaque, mas a trajetória nunca foi fácil. Até nomes como Pelé conseguirem destaque internacional, os jogadores negros tiveram que lidar até com uma lei que proibia suas atuações.

No início do Século XX, o grande nome do futebol brasileiro era um jogador negro: Arthur Friedenreich. Ele era filho de uma lavadeira negra brasileira e um comerciante branco alemão, de quem herdou o sobrenome. El Tigre, como também era conhecido, fez história no futebol paulista, mas encerrou a carreira em um clube carioca: o Flamengo, seu time do coração. Extra-oficialmente, ele é o jogador com mais gols na história do futebol, com 1329 gols, 46 a mais que os 1283 marcados por Pelé. Entretanto, considerando apenas partidas oficiais, Friedenreich possui menos de 400 tentos marcados.

Apesar dos ótimos números, Friedenreich teve a carreira marcada por duas barreiras. A primeira, fruto de um ato racista, foi a proibição da convocação de atletas negros pela Seleção Brasileira. Por meio de uma Lei Federal, o presidente Epitácio Pessoa proibiu "negros e mulatos" de representar o país com a Canarinho entre 1919 e 1922. O atacante havia acabado de ser artilheiro do Campeonato Sul-americano de 1919, disputado no Brasil.

Os jogadores negros só puderam atuar pela seleção em 1922, após vexames nos Sul-americanos de 1920 e 1921. Ou seja, a autorização voltou a ser dada apenas por necessidades técnicas, já que vários dos grandes destaques nacionais eram negros.

leonidas friedenreich peleFriedenreich (ao centro), entre Leônidas da Silva (esquerda) e Pelé (direita). O três atletas negros foram os primeiros grandes craques do futebol brasileiro. | Imagem: Reprodução

O outro problema que Arthur Friedenreich enfrentou ocorreu às vésperas da Copa do Mundo de 1930. Ao perceber que a comissão técnica da seleção não tinha nenhum integrante paulista, Elpídio de Paiva Azevedo, presidente da Liga Paulista, impediu a ida de todos os atletas que atuavam no estado, o que fez com que El Tigre não tivesse a chance de disputar o mais importante torneio de seleções de futebol.

Nos dias atuais, os atletas negros seguem sendo destaque na seleção. Das últimas seis copas, contando com a Copa de 2022, o Brasil teve três jogadores negros com a camisa 10 em cinco edições do evento: Rivaldo (2002), Ronaldinho (2006) e Neymar (2014, 2018 e 2022). A exceção foi Kaká, justamente na única Copa disputada no continente africano, na África do Sul, em 2010.

Seleção campeã da Copa de 2002 tinha maioria negraSeleção campeã da Copa de 2002 tinha maioria negra | Imagem: Reprodução

Desde a Copa do Mundo de 1994, realizada nos Estados Unidos, a Seleção tem mais da metade do seus convocados formada por atletas negros. Na última edição onde negros foram minoria, em 1990, eles formavam 41% do elenco.

No período, atletas negros correspondem a 57% dos convocados pela Seleção Brasileira à Copa do Mundo. Entre estas oito edições, o time de 2010 foi o mais negro. Dos 23 convocados, 16 eram negros, o que correspondeu a quase 70% da equipe.

Quase 70% do elenco da Copa 2010 foi formado por jogadores negrosQuase 70% do elenco da Copa 2010 foi formado por jogadores negros | Imagem: Reprodução

O torneio de 2022, no Catar, será o oitavo seguido com maioria negra. Devido à pandemia de Covid-19, a FIFA expandiu o limite de convocados para 26 jogadores, um aumento de três nomes em relação aos 23 possíveis nas últimas cinco copas.

Entre os 26 nomes, o técnico Tite convocou 15 jogadores negros: Daniel Alves (LAT, Pumas UNAM-MEX), Danilo (LAT, Juventus-ITA), Alex Sandro (LAT, Juventus-ITA), Bremer (ZAG, Juventus-ITA), Éder Militão (ZAG, Real Madrid-ESP), Thiago Silva (ZAG, Chelsea-ING), Casemiro (MEI, Manchester United-ING), Fabinho (MEI, Liverpool-ING), Fred (MEI, Manchester United-ING), Gabriel Jesus (ATA, Arsenal-ING), Neymar (ATA, Paris Saint-Germain-FRA), Raphinha (ATA, Barcelona-ESP), Richarlison (ATA, Tottenham-ING), Rodrygo (ATA, Real Madrid-ESP) e Vinícius Júnior (ATA, Real Madrid-ESP).

Dos 15, oito farão suas estreias em mundiais: os defensores Alex Sandro, Bremer e Éder Militão; o meio-campista Fabinho; e os atacantes Raphinha, Richarlison, Rodrygo e Vinícius Júnior.

O Brasil, que está no Grupo G, estreia na Copa do Mundo contra a Sérvia, no dia 24/11, no Estádio Lusail.

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