CULTURA / Segunda, 14 Dezembro 2020 15:37

Dançarina pernambucana, Duda Lemos, faz sucesso nas telinhas e telonas

Aos 24 anos, coreógrafa conquistou público expressivo nas redes sociais e já foi até protagonista de curta-metragem exibido na Suíça

Texto: Victor Lacerda | Edição: Lenne Ferreira | Imagem: Divulgação/Swinguerra 

Com mais de 40 mil seguidores nas redes sociais, a bailarina trans, coreógrafa e digital influencer, Duda Lemos, é um dos grandes nomes de ritmos como Bregafunk e Swingueira, ambos originários das periferias do Recife e que têm ganhado grande projeção nacional. Moradora do bairro de Campo Grande, na Zona Norte da cidade, Duda é uma das responsáveis por difundir os gêneros em diferentes telas, seja as dos celulares, com vídeos batendo mais de 100 mil visualizações, ou nos cinemas, protagonizando curta-metragem lançado em festival internacional. 

Entusiasta da dança desde pequena, aos 6 anos ela teve a oportunidade de conhecer mais sobre a cultura popular pernambucana, que serviu de pontapé inicial. Seus primeiros passos coreografados foram apreendidos na Escola Municipal de Frevo, onde, além do ritmo que leva o nome da instituição, pôde se aproximar mais sobre o Maracatu, Makulelê, Dança Afro e o Caboclinho. 

Oito anos de apresentações e aulas se passaram, e Duda percebeu que, nos arredores de casa, bem perto, havia uma outra paixão de vida que foi despertada por influência dos amigos do bairro. Foi então, que aos 14 anos, passou a observar os grupos de dança de rua, que se reuniam para coreografar passos de ‘swingueira’. Decidiu se aproximar e aprender com eles e nunca mais parou. 

A passagem por mais de quatro grupos de bailarinos de rua ajudou a dançarina a se conhecer e acessar ainda mais seu íntimo para, finalmente, se entender com uma mulher transexual negra. “Associei a Swingueira à minha liberdade, sabe? Com ela, eu entendi que poderia ser o que eu queria. Isso me deu força para entender que, mesmo não sendo aceita em outros espaços, ali eu me encontrava comigo mesma”, conta a bailarina. 

De aprendiz, passou a ajudar na montagem de coreografias e dirigir grupos. Movimento fundamental para querer democratizar espaços e viabilizar, não só a ‘Swingueira’, mas também o Funk, o Brega e a mistura dos dois ritmos. Foi essa ousadia aliada à criatividade que lhe ajudou a conquistar uma maior projeção da sua dança e dos colegas bailarinos não-profissionais via redes sociais

A dançarina apresenta versatilidade de movimentos, entre acrobacias, jogadas de cabelo e poses milimetricamente pensadas nas paradas das batidas do ‘Bregafunk’. As performances marcantes  e originais possibilitaram que Duda Lemos se tornasse referência para outras garotas e pessoas LGBTQIA+ dentro e fora da cidade.

Projeção internacional 

Em 2018, a bailarina recebeu o convite para ocupar outros espaços e protagonizar, junto aos seus colegas, o filme “Swinguerra”. A produção retratou a vivência de Duda na dança, a rotina de ensaios, montagem de apresentações, a construção de figurino e toda a estética que envolve o universo da dança. 

Dirigido pelos realizadores Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, a performer estrelou o curta-metragem com formato de documentário que se passa na quadra de esportes de uma escola pública, onde um grupo de dançarinos ensaia rotinas altamente disciplinadas sob o olhar de um coreógrafo. O filme aborda ainda a competitividade dos grupos de dança nas periferias e a importância da pluralidade de corpos nestes espaços. 

A produção levou Duda para representar o Brasil na 58ª Bienal de Veneza, onde estreou na tela do 72º Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça. No Brasil, teve como primeiro reconhecimento o prêmio de melhor curta-metragem no 30º Festival Internacional de Curtas de São Paulo (Kinoforum). 

Sobre a projeção mundial, Duda Lemos afirma ter tido um outro olhar sobre o reconhecimento com seu trabalho. “Com tudo isso que aconteceu me envolvendo junto com a dança, seja no cinema, ou em respostas das redes sociais, eu entendi que a nossa cultura é muito forte. A gente acha que não é ninguém, né? Percebi, assim, que não era bem por aí”, reflete, a bailarina.

Visibilidade não garante sustentabilidade

Mesmo ocupando lugar de referência, a artista pontua alguns fatores que impossibilitaram, após grande visibilidade, viver exclusivamente da dança e a necessidade de desenvolver suas habilidades como um trabalho fixo. “Eu não tenho faculdade de dança, por exemplo, então, mesmo que eu participe de um clipe ou de qualquer outro trabalho remunerado, isso nunca vai conseguir me manter no dia a dia. Mesmo com a grande oportunidade que tive, entendi logo em seguida que ou a gente vai trabalhar para sobreviver, ou vai fazer o que a gente gosta”, pontua. 

Em paralelo com a vivência na dança, Duda Lemos começou a estudar Engenharia Civil em uma faculdade tradicional do Recife, mas não se encontrou na área e trancou o curso. Para garantir o sustento, trabalha há três anos como vendedora de pastel, no bairro onde mora. Complementa a renda com as parcerias que faz como influenciadora digital em seu perfil do Instagram, que tem uma mostra do trabalho da coreógrafa.

 A bailarina ressalta a falta de reconhecimento por parte dos órgãos de incentivo à cultura da cidade e de valorização para artistas populares como ela. “Há cinco ou seis anos atrás, eu gostaria de crescer na dança e coreografar outros estilos, por exemplo, mas vejo que, na nossa cidade, mesmo sendo turística, não há o devido aproveitamento de artistas que, com incentivos maiores, poderiam enriquecer ainda mais o Turismo da cidade e trabalhar a imagem do Recife como um pólo, de fato, pluricultural”, sugere. 

A artista ainda enfatiza a importância de manter as manifestações culturais da cidade o ano inteiro e acredita que o comprometimento das instituições governamentais é essencial para perdurar os movimentos populares. “Se a gente parar para pensar, geralmente a nossa cidade só projeta os artistas da terra em datas comemorativas. Para mim, isso é o maior erro. Se tivéssemos uma criação de programas e atividades que incluíssem as pessoas de forma profissional e também recreativa, o pólo cultural da cidade seria muito mais acessado, bem visto e fortalecido”, reflete, a bailarina. 

Mesmo com o cenário adverso, Duda Lemos acredita que a dança é algo intrínseco à sua existência e garante que nunca vai deixá-la de lado. “É algo que nasceu comigo, que trabalhei, e que a todo momento quero estar em contato, independente do que acontecer. Hoje, mesmo vendo que as coisas se encaminham para que a dança vire um hobby, é algo que faz parte de quem eu sou. É uma parte da minha vida”.

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