CULTURA / Quinta, 31 Março 2022 14:53

Candomblé, Umbanda e Ditadura: reconhecimento e perseguição

 Religiões de matriz africana conseguiram reconhecimento do regime militar, apesar de também terem sido alvo de perseguição

Texto: Pedro Borges | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Ilustração Alma Preta Jornalismo

Introdução:

 Religiões de matriz africana conseguiram reconhecimento do regime militar, apesar de também terem sido alvo de perseguição

Autor:

Texto: Pedro Borges | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Ilustração Alma Preta Jornalismo

“Brasil, ame-o ou deixe”. O lema da ditadura militar e o desejo de construir uma “identidade nacional” aproximaram militares da única religião que nasceu no Brasil, a Umbanda. O Candomblé, religião com maior presença de negros, não sentiu essa aproximação e foi mais reprimida durante o regime, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem.

“Qual é a cara do brasileiro para a ditadura? É a miscigenação. Então a Umbanda era vista dessa forma e trabalhada como uma questão de identidade nacional”, conta Alexandre Cumino, autor da obra “História da Umbanda no Brasil - Uma Religião Brasileira”. O artigo “Discursos sobre as religiões afro-brasileiras: Da desafricanização para a reafricanização", escrito por Tina Gudrun Jensen e traduzido por Maria Filomena Mecabô, corrobora a posição e aponta que militares “apoiaram a interpretação de democracia racial brasileira branca da Umbanda”.

Durante a ditadura, houve uma participação de militares na Umbanda. Duas figuras merecem destaque: o coronel Nelson Braga Moreira, presidente do Superior Órgão de Umbanda de São Paulo, instituição responsável por representar todas as federações e centros da religião no estado, e o deputado estadual e coronel da reserva da Polícia Militar, Edson Ferrarini. “Com um general na cabeça, muita gente não mexia”, conta Basílio Filho, advogado e ogã da casa do pai Jamil Rashid. 

Edson Ferrarini era um dos articuladores da celebração a São Jorge, que acontecia em São Paulo, e chegou a ocorrer no ginásio do Ibirapuera. Ele era o responsável por fazer a oração ao santo, um dos símbolos nacionais do sincretismo religioso entre o catolicismo e os cultos de matriz africana.

“Os militares participavam da celebração. Lembro do batalhão 9 de Julho, com 12 cavalos brancos da polícia militar. É uma festa linda. O Seu Jorge é carregado pelo corpo de bombeiros”, recorda Basílio.

A religião também recebeu a atenção de intelectuais por meio de escritos, que colaboraram com a maior legitimação do culto diante da sociedade. Entre eles, figuras como Jorge Amado, Gilberto Freyre, Roger Bastide, entre outros. 

No Candomblé a realidade era diferente. Rafael Pinto, um dos fundadores do MNU, não se recorda da presença de militares na religião. O que existiu foi o diálogo de lideranças com representantes do regime. Para ele, o diálogo existia por uma questão de sobrevivência.

“Na ditadura, há uma ação de lideranças religiosas como a mãe Olga do Alaketu, Joãozinho da Goméia, que dialogaram. Onde houve uma relação mais explícita, que aí ela condecora ele como obá de xangô no Cantois, é a Mãe Menininha com Antônio Carlos Magalhães (ACM). Isso é durante a ditadura”, conta. 

Durante o regime, Mãe Menininha dos Gantois recebeu parte da política brasileira no terreiro, entre eles nomes como Getúlio Vargas, João Goulart, e o próprio Antonio Carlos Magalhães (ACM), governador da Bahia. No aniversário de 90 anos da líder religiosa, ACM compareceu na festa. 

Alexandre sinaliza outro fator importante para explicar a ausência de militares no Candomblé: a liderança feminina da religião. “Difícil militar ficar embaixo de uma mulher. Os grandes candomblés baianos, da hegemonia nagô ou iorubá, são terreiros dirigidos por mulheres e as mulheres que mandavam”.

Crescimento da religião

A partir do ano de 1939, quando surge a primeira federação de umbanda no Brasil e, em 1955, quando Jamil Rashid funda a primeira federação de religiosidades de matriz africana em São Paulo, houve um crescimento significativo de terreiros, principalmente de Umbanda. É durante o regime militar em que isso ganha maior expressão. Entre 1974 e 1976, 357 candomblés foram registrados em São Paulo, enquanto 2.844 centros de Umbanda e 69 centros de espiritismo surgiram, de acordo com a tese de doutorado “Umbanda e Questão Moral: Formação e Atualidade no Campo Umbandista em São Paulo”, escrita por Lísias Nogueira Negrão.

 Alexandre Cumino indica que um bom termômetro para a popularidade das religiões eram as festas. A de Yemanjá, na Praia Grande-SP, celebrada no 2 de fevereiro, chegou a reunir cerca de um milhão de pessoas. A de São Jorge, na capital, também aglutinava um grande número de interessados.

 “A Umbanda teve um boom, uma explosão. Essa explosão tem a ver com a organização dessas grandes federações que começam em 1941. O que são hoje as igrejas evangélicas para as camadas populares já foi a Umbanda”, afirma Alexandre Cumino. 

Repressão 

Basílio Filho conta que durante a ditadura, apesar dos diálogos existentes com o regime, havia uma repressão por parte do Estado. Em audiência na câmara municipal de São Paulo, chegou a dizer que os rituais eram interrompidos pela polícia. “Sempre houve repressão. Às vezes se tocava o atabaque e a polícia ia. Antigamente não podia tocar atabaque”.

Na época foi criado um código, chamado de “fura-bumbo”, utilizado por policiais para se referir a oficiais subalternos que entravam em terreiros de Umbanda e Candomblé e quebravam os instrumentos musicais.  

Havia também uma diferença na repressão às duas religiões, segundo Alexandre. “Quando o negócio era mais negro e africano, era maior a repressão. E a Umbanda é plural, você tem centros espíritas de Umbanda, e terreiros de Umbanda muito africanos. Mas não quer dizer que não houve perseguição nos centros espíritas também”, explica Alexandre Cumino. 

A situação da regularização dos terreiros dependia de uma autorização, que até 15 de janeiro de 1976 no estado da Bahia, precisava ser adquirida na Delegacia de Jogos e Costumes. O decreto estadual 1.202 impunha valor a ser pago pelos religiosos para se regularizarem. Nenhuma outra religião era obrigada ao mesmo. O registro na delegacia e mesmo o pagamento da inscrição não eram garantias de que a polícia não apareceria durante as atividades religiosas. 

O fim do regime militar e a permissão legal para todos os cultos religiosos, inclusive Candomblé e Umbanda, não significaram o fim da repressão, segundo Alexandre Cumino. “Dependendo do lugar, os atabaques são controlados até hoje. Dependendo do terreiro no Rio de Janeiro, o tráfico proíbe macumba em alguns morros”.

 Encontros políticos

“Tem sido constatada uma proliferação de seitas religiosas, algumas de caráter esotérico que, aproveitando-se da religiosidade, fanatismo ou, até mesmo, ignorância de seus seguidores”. O texto faz parte de documento da agência de São Paulo do Serviço Nacional de Informações. O documento é um dos relatórios de monitoramento da ditadura militar acerca de atividades religiosas, com a inclusão de discussões acerca do candomblé e da umbanda.

O documento, de 7 de maio de 1982, tem o título de “Atividades de Grupos Religiosos” e apresenta um monitoramento das manifestações religiosas no estado. A ideia do documento é acompanhar a “Atuação de grupos religiosos. Pensamento, influência e ação. Influências nos campos político, econômico e social, contrárias ou favoráveis à política governamental”.

 O relatório indica como o regime militar, nesse e em outros materiais, fez um acompanhamento próximo das religiões católica e evangélica, mas não deixou de lado encontros, cujo objetivo era debater as religiões de matriz africana ou livros sobre o tema. 

“O umbandismo, em São Paulo, embora até o momento, não tenha apresentado conotações políticas, voltando-se mais para a essência religiosa e para a filantropia, mostra sensível crescimento se comparado com outros cultos. O Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (SOUESP) congrega 42 federações de Umbanda e Candomblé. Essas federações, por sua vez, contam com 37.800 templos filiados onde passaram, em 81, cerca de 7.500.000 pessoas, entre adeptos, simpatizantes e indivíduos em busca de resolução de seus problemas”.

Outro documento, também do Serviço Nacional de Informações, de 1986, criou um perfil do chamado “Movimento Religioso no Brasil”. O texto indica a existência de um levantamento feito pelo órgão para mapear as manifestações religiosas existentes no Brasil.

A pesquisa efetuada localizou o culto católico, representado pela Igrejas Católica Apostólica Romana e Apostólica Brasileira; o culto protestante, com a fragmentação das igrejas Anglicanas, Luteranas, Testemunhas de Jeová, Mormons, Adventistas de Sétimo Dia, Batistas, Pentecostais; os cultos afro-brasileiros, representados por Umbanda e Candomblé; os espíritas; e as chamadas seitas.

O documento indica que “o país conta com a presença de inúmeras religiões, professando diferentes concepções filosóficas e práticas rituais, além de cultos afro-brasileiros, diversas missões religiosas e o espiritismo”.

No dia 16 de Outubro de 1985, o Serviço Nacional de Informações acompanhou o lançamento do livro “Religião e Sociedade”. O fato ocorreu no Instituto de Estudos da Religião.

O relatório destaca alguns capítulos da obra, com maior referência ao Candomblé. O primeiro capítulo, de autoria de Patrícia Birman, aborda a “identidade social e homossexualismo no Candomblé”. 

“Apresenta inicialmente, uma reflexão em torno da frequente referência aos terreiros de Candomblé como lugares que abrigaram homossexuais. A seguir a autora analisa as consequências na construção de identidade social dos agentes religiosos considerados homossexuais”, diz o relatório do SNI. 

Outro capítulo monitorado do livro sinaliza a “A construção ritual da pessoa: a possessão no Candomblé”, de Márcio Goldman. “O autor tenta esboçar uma possível teoria antropológica da possessão, tomando como referência empírica o modo de manifestação do êxtase nos chamados cultos afro-brasiIeiros”, indica o texto. 

Encontros em Salvador e Aracaju

Encontros religiosos ou organizados por ativistas do movimento negro com o tema da umbanda e o candomblé também foram monitorados pela ditadura militar, em especial pelo Serviço Nacional de Informações.

A Bahia também recebeu em 16 de Setembro de 1983 o I Encontro de Negros do Estado da Bahia. O evento, que reuniu cerca de 600 pessoas, contou com a participação de figuras do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Comunista do Brasil (PC do B) e Ação Popular (AP).

O encontro tirou propostas, consideradas fundamentais para a comunidade negra, como “realizar pesquisas sobre sincretismo religioso”; “fazer documentos esclarecendo o sincretismo”; “inclusão em currículo escolar de matéria sobre o candomblé”; “exigir, junto ao Ministério da Educação, incluir o idioma Yorubá nas Escolas”; “promover debates com líderes de entidades candomblezeiras a respeito das origens negras”; 

“Ivan Ribeiro Carvalho (SDQ), ex-candidato a Deputado Estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT), participando deste Encontro, vem tentando junto às Entidades Negras a criação do Comitê de Apoio aos candidatos com posição voltada para a comunidade negra, com táticas e ideologia própria, composto por entidades e pessoas negras e com um único pensamento”, afirma o documento sobre as mobilizações no encontro. 

Em Aracaju, capital de Sergipe, o SNI também monitorou atividades do movimento negro que debatiam com enfoque a questão religiosa. No dia 12 de Março de 1986, um relatório foi produzido acerca da movimentação de negras e negros na região.

 O Instituto Severo D’Acelino de Cultura Negra, com o apoio da prefeitura de Aracaju, desenvolveu uma pesquisa com o intuito de “conhecer o universo do candomblé sergipano”.  

“O referido Instituto está coletando palavras de vocabulário nagô do candomblé de Sergipe para organizar um mini dicionário, sendo que para facilitar a pesquisa de campo foi elaborado um mapeamento indicando trinta e oito áreas do município de Aracaju, incluindo o Povoado do Parque dos Faróis e o Bairro Rosa Else, nesta Capital”, indica o documento.

A pesquisa foi conduzida por três pesquisadores e coordenada por Severo D’Acelino, responsável pelo setor de cultura negra na Secretaria de Cultura da Prefeitura de Aracaju. O objetivo era mapear os terreiros da cidade, os líderes desses espaços e construir um livro. Depois de concluido, o livro seria aproveitado na grade curricular dos alunos do 1° e 2° graus, com a inclusão de uma disciplina de “Cultura Negra”. 

O SNI também sinaliza que o Instituto Severo D’Acelino de Cultura Negra se mobilizava para produzir outras pesquisas, com temas como o “universo da Medicina Popular, Mágica do Candomblé sergipano, Capoeira, Nação Nagô, Nação Keto, Nação Angola e Umbanda de Sergipe”.

Música 

Uma das maneiras de reprimir manifestações contrárias ao regime durante a ditadura foi a partir da censura de músicas e manifestações culturais. O órgão responsável por acompanhar a produção cultural era a “Divisão de Censura de Diversões Públicas”.

 Os arquivos do órgão apontam para o monitoramento de canções em referência a orixás e sambas-enredo de escolas de diferentes regiões do país. Letras com dizeres explícitos a orixás não foram censurados pelo regime.

Um exemplo foi a apresentação teatral e musical do grupo Olorun Baba Min, com o título de “Quilombos”. A abertura da peça é cantada na língua Iorubá e em diversos momentos são feitas referências aos orixás, com cantigas para Oxum, Oxumaré, Iemanjá, entre outros.

 “Dança afro inspirada nos movimentos do Candomblé. Cada Orixá dança com seus ritmos e cantigas características acompanhado de corpo de baile. As cantigas para Oxóssi, Oxum, Omolú, Ogum, Oxumaré são de domínio público extraídas do folclore afro-brasileiro. Após a apresentação isolada, os orixás se apresentam em coreografia conjunta e saem”, indica o relatório.

 A narrativa ocorre na costa oeste do continente africano, antes do período escravista. Apesar disso, existem momentos de alusão ao escravismo de modo geral. “Mesmo Jogados em infectos porões, amontoados, castigados por libambos, cepos, anjinhos, fornalha, grilhões. Sentindo em todo o corpo o banzo da ilu ayê, o negro criou quilombos e sendo seu próprio deus fez do hilá um só grito, fez do hilá um só santo, fez de hilá um só canto, e baseando todo o ashé transformou em luta a saudade. E gritou bem alto seu canto de liberdade”.

Frederico da Silva Simões, técnico de censura, aprovou a exibição do espetáculo sob a condição de um acompanhamento do ensaio geral, por parte do departamento. Não houve interpretação de que a obra, mesmo em outro período histórico, poderia ser uma denúncia do escravismo e o tema “Quilombos”, uma exaltação à liberdade.

De acordo com o técnico da censura, “O show musicado com adaptações de letras já gravadas, com dois atos subsequentes, enfoca empreendimentos históricos que se passam na costa do continente africano, em épocas antecedentes às que os negros eram escravos. Cânticos e danças do Candomblé são apresentados, relembrando a festa do 'Quilombos', em demonstração dos personagens característicos. Com a restrição etária de quatorze (14) anos, aprovo a sua encenação condicionado ao ensaio geral”.

Leia mais: Por que o candomblé sacrifica animais?

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