CULTURA / Quarta, 24 Março 2021 16:47

‘A tecnologia ancestral a favor da cura’: Luna Vitrolira lança seu 1º álbum visual

A finalista do prêmio Jabuti 2019, apresenta ao mundo o projeto ‘Aquenda - o amor às vezes é isso’ na próxima sexta-feira (26); entre as temáticas apresentadas em obra, o reencontro às origens, a intimidade, os traumas e os aprendizados de sua vida, findando em uma proposição de transformação subjetiva para ela e quem a vê e ouve 

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Orra Estúdio/Divulgação

‘A tecnologia ancestral a favor da cura’: Luna Vitrolira lança seu 1º álbum visual
Introdução:

A finalista do prêmio Jabuti 2019, apresenta ao mundo o projeto ‘Aquenda - o amor às vezes é isso’ na próxima sexta-feira (26); entre as temáticas apresentadas em obra, o reencontro às origens, a intimidade, os traumas e os aprendizados de sua vida, findando em uma proposição de transformação subjetiva para ela e quem a vê e ouve 

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Orra Estúdio/Divulgação

Tendo como nascente de sua arte, a declamação de poemas no universo da literatura oral e de Cordel, aos 28 anos, a pernambucana Luna Vitrolira busca outras fontes para se embebedar. Ao seu favor, novas possibilidades de expressão, que agora recebem o impulso da música e das telas. Na próxima sexta-feira (26), a multiartista lança seu mais novo projeto, intitulado “Aquenda - o amor às vezes é isso”, originário de seu livro homônimo, finalista do Prêmio Jabuti 2019. O projeto conta com um álbum visual que potencializa as narrativas mais intrínsecas do universo de Luna.

“É preciso que a gente mergulhe, mas a gente pode emergir, sem necessariamente se afogar. Este novo projeto propõe trabalhar com as águas internas para limparmos, não para sufocar”, é o que afirma a artista em conversa exclusiva com a Alma Preta Jornalismo. Temáticas que abordam a subjetividade individual e coletiva - como a liberdade, o autopertencimento, o poder e a autonomia sobre os corpos negros, as trajetórias e escolhas como um caminho - darão o tom e percurso da diegese. 

Resultado de três anos de casulo e criação, o curta-metragem, cuja trilha sonora conta com 7 faixas do disco e 1 inédita (‘Águas Espessas’), integra literatura, música, performance e cinema. O filme, dirigido por Gi Vatroi e Aida Polimeni, aborda percursos de libertação e retorno da artista para o encontro com sua ancestralidade, através de rituais de cura, da ressignificação da ideia romântica do amor. Há ainda espaço para as problemáticas que envolvem a relação histórica da mulher com a sociedade e o sagrado ancestral. 

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“É preciso que a gente mergulhe, mas a gente pode emergir, sem necessariamente se afogar. Este novo projeto propõe trabalhar com as águas internas para limparmos, não para sufocar”, é o que afirma a artista

Como pano de fundo de toda a obra, um outro ponto a ser ressignificado. A narrativa se passa em um engenho situado numa região canavieira em Pernambuco, para onde a personagem volta em busca do entendimento das pessoas de sua família que trabalharam na localidade, buscando maior acolhimento e entendimento de sua identidade e memória, conduzida pelo desejo de reconstruir a sua própria história. “Busco acessar esse lugar de dor em uma perspectiva que, mesmo que seja exigido sempre que tenhamos que ter força pra resistir, eu quero falar sobre apenas existir, sobre um processo de cura nesse lugar de revolta, tentando extinguir os ideias de submissão, controle e poder”, adianta a artista. 

Entre mergulhos e aprofundamentos em tempo de pesquisa, além das 7 do filme, mais 3 faixas integram o álbum, que se apresenta como uma fusão de piano, sintetizadores, beats eletrônicos e percussões que dão origem a harmonias e polifonias não convencionais dentro da estrutura pop contemporânea. Tudo isso sem esquecer quem é e suas influências, pautadas pela pluralidade de seu gosto musical, que traz na playlist mais pessoal o Jazz, a Swingueira, o Brega-Funk, o Funk,  o Rap, o Maracatu, o Coco e outros ritmos insurgentes.

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Foto: Rennan Peixe/Divulgação

Pingue-Pongue 

AP: É perceptível que o projeto tem por propósito final trazer uma nova forma de cura e isso é bastante pautado no seu universo artístico. Então, você acredita que desbravar novos caminhos de arte é sinônimo de acessar autoconhecimentos menos dolorosos, de maneiras mais lúdicas, principalmente no cenário em que estamos passando? 

Luna Vitrolira: Acredito que é por esse caminho, sim. Durante o processo de ‘Aquenda’, me peguei refletindo sobre como lidava com os meus sentimentos e tive de mergulhar neles. Cheguei a perceber que toda a minha arte, minha poesia, sempre havia sido motivada pela raiva, um lugar que ora ou outra, me adoecia. Eu sempre estava presente na linha de frente da militância pegando o microfone para falar sobre questões que me atravessam. Das vezes que declarei poemas, acessei lugares de dor, de revisitação às minhas feridas. Foi aí que entendi que eu precisava acessar essa parte de mim com uma postura mais resolutiva, não só de gatilhos, e de como aquilo doía em mim. Por isso, pretendo abordar temáticas de dor com muito cuidado, de forma que intervenha em um caráter mais positivo. Sei que ali existe um trauma, então preciso dar luz às sombras para resolver e, por fim, nos curar. Estendo isso ao meu entendimento do mercado musical. Pretendo ter muita consciência na energia que irei mover dentro desse novo universo. Na literatura, os caminhos que transitei foram muito leves, na rua, na poesia falado, no slam, ambientes acolhedores, diferente da música e toda a sua competitividade. Para isso, a tecnologia da ancestralidade: ritualizar os dias, acender minhas velhas, tomar meus banhos e mexer com minhas ervas.

AP: Na ficha técnica da obra, muitos nomes da cena musical pernambucana integram, entre eles Lucas dos Prazeres, Bell Puã e Bione. Chamar estas vozes para contribuir com o trabalho também pretende, direta ou indiretamente, fortalecer a rede cultural de onde estão as suas origens e reverenciar, de certa forma, suas referências?

Luna Vitrolira: Com certeza. Essa volta às raízes tem tudo a ver com a valorização do que é nosso, da nossa terra e de quem a gente se irmana. Ele começou a ser gerido dos Altos. A minha história tem a ver com os Altos, nos quartinhos, dentro das comunidades. Como o Alto de Santa Isabel, onde fui criada, no Vasco da Gama, no Alto do Progresso, lugares que passei e tenho histórias. Acredito que ter essa rede também é potencializar o todo. Para esta fase, busquei trazer para perto quem tem como ponto de encontro e fundamento a poesia e quem por anos tive convivência e/ou admiração. 

AP: Em uma divulgação que, hoje, tem que se utilizar muito do on-line e as redes sociais, quais são suas expectativas com quem vai ouvir e ver ‘Aquenda' dessa forma? Como você espera que essa obra atravesse quem a consumir até que se possa ter uma apresentação ao vivo? 

Luna Vitrolira: Foi por essa preocupação que decidimos trazer uma proposta de material audiovisual. No ao vivo, não estamos só cantando, estamos nos comunicando nos intervalos entre uma música e outra, trazendo palavras como caminhos para que as pessoas desfrutem de um tempo melhor, compartilhando essa energia de condução e cura. Por isso, gostaria que as pessoas, através do filme, acessem o seu próprio caminho de cura, acessem suas questões, mas sempre com o impulso que o projeto conduz, que é de ir em frente, de transmutar; o que é a mensagem principal. O audiovisual pode, sim, proporcionar isso, o que me deixa mais tranquila sobre a recepção. 

AP: Conta uma novidade positiva para quem te acompanha. Existem planos para uma primeira aparição ao vivo com o novo álbum? 

Luna Vitrolira:  A língua coça para contar, mas adianto que vem aí. Vai ser no susto. É só me acompanhar!

“Aquenda - o amor às vezes é isso” estará disponível na próxima sexta-feira, 26, no canal do Youtube da artista e em todas as plataformas digitais. Atualizações sobre apresentações, em sua página no Instagram

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