CULTURA / Quarta, 13 Outubro 2021 16:39

Para Flora Rodrigues, "poesia é ato de gerar vidas”

Em entrevista exclusiva, Flora fala sobre sua trajetória até levar o "sotaque" da poesia pernambucana para o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada - Slam BR

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: Divulgação

“A poesia é munição de vida, não a que o estado põe sobre nossos corpos”, dispara a pernambucana Flora Rodrigues
Introdução:

Em entrevista exclusiva, Flora fala sobre sua trajetória até levar o "sotaque" da poesia pernambucana para o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada - Slam BR

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: Divulgação

É recitando que a pernambucana Flora Rodrigues narra as histórias que vivencia e enxerga em corpos semelhantes aos seus. Aos 18 anos, a poetisa desponta no cenário nacional com a ajuda do reconhecimento e alcance das redes sociais, o que lhe rendeu representar Pernambuco, no último mês, no maior campeonato brasileiro de poesia falada, SLAM Brasil. Em conversa com a Alma Preta Jornalismo, a jovem fala como descobriu o poder das palavras e como elas impactam na sua e na vida de outras jovens negras. 

Moradora do Arruda, na Zona Norte do Recife, Flora conta que começou a entender que poderia usar da poesia como munição e expressividade enquanto jovem negra quando soube de um episódio de violência policial com seu irmão. Aos 14, começou a escrever sobre tudo que a inquietava e aos 16 passou a verbalizar o que sentia. A poetisa afirma que confirmou que ali era seu lugar quando conseguiu se compreender através da arte. 

O primeiro acesso foi ainda no colégio, quando conheceu a forma e os primeiros passos que poderiam ajudar na construção das poesias. Porém, Flora conta que, apesar de sentir que teria algo ali que a identificava, a forma tradicional como era repassada não a atraia.

“Eu não conseguia me enxergar na forma que as poesias exram mostradas, então isso me fez levar um tempo para entender que existia um outro meio de usar os versos, como usar a palavra para fazer revolução. Foi um processo de entendimento, de compreender que não me ver em outros versos me daria autonomia e vontade de fazer os meus”, declara. 

A adrenalina de ser ouvida se deu há dois anos, quando participou do Recital Boca do Trombone, no Alto do Pereirinha, na periferia de Água Fria, também no Recife; um projeto que integra jovens de periferia e acredita na luta contra a maré de retirada de direitos e vulnerabilidades através da viabilização do acesso à arte. 

Foi nesse contexto de protagonismo negro e periférico que Flora se lançou e não parou mais, só quando precisou se envolver em outras atividades para garantir retornos maiores de trabalhos e focar na conclusão do Ensino Médio, mas sempre revezando com criações e recitadas em atos a favor dos Direitos Humanos e da população negra acontecidos no Recife - como integrante da Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas -, espaços que tem a companhia e é impulsionada por sua mãe, a integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, Verônica Santos. 

“Tive épocas de lançar quase todo dia um verso, mas tive que me dedicar aos estudos e em outras áreas visando me mantar, como a do empreendedorismo digital, a comunicação para redes e afins. Porém, sempre tento manter o contato. Poesia formou a minha identidade, não tem como deixar de lado e as redes me ajudam nisso”, explica. 

Com fonte presença nas redes sociais, Flora conseguiu alcance e levar o sotaque pernambucano como fizeram suas antecessoras Bel Puã, vencedora da edição 2017 e Bione, que ficou em terceiro lugar no campeonato de 2019. Para conhecer mais sobre a ascensão de Flora na poesia e a força que arte representa em sua vida, a Alma Preta Jornalismo entrevista Flora Rodrigues. Confira! 

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ENTREVISTA

AP: Quando encontrou nas palavras a força para expressar o seu ponto de vista sobre suas vivências?

Flora Rodrigues: A primeira vez que construí uma poesia foi quando meu irmão passou por um episódio de violência policial aos 14 anos. Na abordagem, os policiais colocaram um fuzil no rosto dele e isso gerou uma inquietação muito grande em mim. Dali, eu percebi o quanto era importante recitar e colocar para fora o que sentia arquitetando minimamente as palavras. Foi quando consegui entender que a poesia é munição, mas no sentido da vida, não o que o estado coloca sobre os nossos corpos. Uma forma de compartilhar de uma história recorrente que aconteceu com o meu irmão, mas que pode acontecer com outros jovens. 

AP: Como a poesia ajudou na construção da sua identidade e na luta pelos seus ideais? 

Flora Rodrigues: Acredito que a poesia é a minha identidade. Foi através dela que eu consegui me expressar e, principalmente, me compreender. Quando eu escrevo, consigo entender as realidades ao meu redor. É o que me arrepia, o que faz pulsar meu peito, onde encontrei diversas referências pretas para minha vida. Falo que poesia é como uma água gelada depois de chegar do centro da cidade. É o lugar que me vejo e me faz existir. Infelizmente, no país em que vivemos, não dá pra viver de poesia, mas é algo central na minha vida. 

AP: Como você acredita que a sua voz impacta na vida de outras meninas negras? 

Flora Rodrigues: Depois da experiência que vivi no recital, com o tempo, fui vendo muita possibilidade e me voltando ao digital, usando as redes como plataforma mesmo e foi impressionante o retorno por lá. Depois de gravar minhas poesias e publicar no Instagram, recebi diversos depoimentos e de todas as faixas etárias, inclusive de mães que usaram meus versos e apresentaram pra outras mães, pros seus filhos, gerando transformação onde vivem. Foi através da poesia e desses retornos que senti que estava construindo meu papel enquanto jovem negra e que poderia salvar alguém, ou só salvar o dia. Esses retornos das meninas e de suas famílias me fortalecem. Uma rede muito potente. 

AP: E já sentiu algum tipo de receio por ser uma mulher negra e nordestina recitando?

Flora Rodrigues: Já por causa de toda a estrutura que resiste em valorizar o que produzido artisticamente por nós, não só a poesia. Tratando de recitar, desvalidam o nosso jeito de falar, até o nosso sotaque. Não conseguem consumir, não conseguem monetizar, o que faz com que muita gente passe por um processo de migração forçado para ser notada. Sul e Sudeste conseguem estabelecer uma dinâmica de escuta entre eles. Entre eles. É impressionante. 

AP: Como foi participar de um evento de nível nacional como o SLAM Brasil? 

Flora Rodrigues: Foi muito significativo. Por toda essa carga de ser mulher, negra e nordestina, ter uma projeção de eventos como esse é muito importante, até para dar um gás nas produções e estar em contato com nomes que são importantes para mim, para Pernambuco também, como Bione e Bell Puã. Essa participação me fez sentir muito honrada em um momento que, por precisar estar em atividade em outras áreas, estive mais afastada de criar e recitar. Não teve a mesma adrenalina do presencial, mas foi importante demais. Slam é um evento potente, que reúne um modo de viver através de versos. 

AP: O que você sugeriria para outras jovens que querem começar ou prospectar uma vida também através dos versos? 

Flora Rodrigues: Digo que a poesia é ato de gerar vidas, coloquem isso na mente. Que se sinta responsável por tocar as pessoas através dela e usá-la para nos fortalecer.  

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