COTIDIANO / Sexta, 29 Julho 2022 08:49

Varíola dos macacos: Brasil registra primeiro óbito e trata doença como surto

Para pesquisadora, as comunidades periféricas serão as mais afetadas pela disseminação da monkeypox, como no caso da Covid-19; primeiro óbito foi registrado em BH, nesta sexta (29)

Texto: Caroline Nunes | Edição: Elias Santana Malê | Imagem: Reprodução/Agência Brasil

Imagem mostra um teste de monkeypox (varíola dos macacos)
Introdução:

Para pesquisadora, as comunidades periféricas serão as mais afetadas pela disseminação da monkeypox, como no caso da Covid-19; primeiro óbito foi registrado em BH, nesta sexta (29)

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Texto: Caroline Nunes | Edição: Elias Santana Malê | Imagem: Reprodução/Agência Brasil

“Certamente é muito preocupante para países como o Brasil – uma nação continental, de população tão grande, geograficamente extensa, que agora também relata um número significativo de casos de varíola dos macacos”. Essa foi a fala da líder técnica da Organização Mundial de Saúde (OMS) no combate à monkeypox, Rosamund Lewis.

Com quase mil casos da doença registrados no país, nesta quinta-feira (28), o Ministério da Saúde começou a tratar a doença como “surto”. O termo foi usado em um texto divulgado pela pasta informando a ativação de um Centro de Operações de Emergência (COE) para acompanhar o desenvolvimento da varíola dos macacos.

Considera-se surto de alguma doença quando se identifica quantidades acima do normal de patologias contagiosas ou de ordem sanitária. De acordo com a OMS, é o primeiro estágio de uma escala de evolução do contágio, que pode se transformar em epidemia, endemia e pandemia.

Nesta sexta (29), a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais confirmou o primeiro óbito do país no atual surto. Um homem de 41 anos, natural de Uberlândia, no interior do estado, estava internado num hospital da capital Belo Horizonte para o tratamento de um linfoma e tinha um quadro de imunossupressão. Segundo dados da OMS, este foi o sexto óbito do atual surto, o primeiro fora do continente africano.

Periferias sofrerão maior impacto, aponta pesquisadora

De acordo com a pesquisadora Ethel Maciel, coordenadora da Comissão de Epidemiologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), assim como a Covid-19, a monkeypox têm se espalhado rapidamente no Brasil, o que gera preocupação principalmente em locais em que há um grande adensamento populacional – como as comunidades periféricas.

“Os números crescem de maneira bastante preocupante, triplicando a quantidade de casos a cada semana, o que representa uma transmissão rápida”, avalia a pesquisadora.

A coordenadora salienta ainda que por se tratar de uma doença mais vísivel do que a Covid-19, as pessoas que notarem os sinais como pequenas “espinhas” ou bolhas devem procurar imediatamente o serviço de saúde para iniciar o tratamento.

“Nós já estamos num estágio de transmissão comunitária, principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Distrito Federal, portanto, é uma questão de tempo para que cheguemos à fase de que não se saiba mais quem passou para quem”, explica.

“Nas comunidades periféricas há uma tendência de que as pessoas fiquem mais aglomeradas, dividam cama, toalha, roupa de cama. Se a pessoa está infectada, a chance dela passar para a outra é maior. São medidas de transmissão que demandam atenção, mas que obviamente terão impacto maior nas comunidades periféricas”, enfatiza Ethel.

Como medida preventiva, Ethel Maciel recomenda que continue a adoção de ações sanitárias como contra a Covid-19: utilização de álcool em gel, diminuição de aglomerações dentro do que é possível, e uso de máscaras.

“O que a gente aprendeu antes continua valendo para a monkeypox. Mas a gente sabe que manter distanciamento em um transporte coletivo é muito difícil”, completa.

E a vacina?

“A vacina contra varíola humana tem eficácia contra a monkeypox, mas existe o medicamento contra a varíola dos macacos. Existe vacina específica. O problema é que nós ainda não temos aqui no Brasil, pois só uma empresa no mundo produz esse imunizante”, destaca a pesquisadora Ethel Maciel.

O que ela afirma é verdade, apenas um laboratório fabrica a vacina no mundo: a empresa dinamarquesa Bavarian Nordic, que não tem representante no Brasil.

Ethel explica que a doença existe desde a década de 1950. Porém, como a monkeypox era registrada apenas no continente africano, a compra do imunizante não foi possível para outros países.

“Infelizmente, além das desigualdades sociais que existem dentro do nosso país, existem também desigualdades globais: os países que têm a maior parte do financiamento de pesquisa, de produção de insumos e medicamentos e vacinas, que são os países ricos. Infelizmente, é esse mundo que vivemos – globalizado mas não iguallitário”, ressalta a pesquisadora.

No último sábado (23), o Ministério da Saúde informou que realiza tratativas para a compra da vacina contra a varíola dos macacos. De acordo com a pasta, a aquisição será negociada com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). “A OMS coordena junto ao fabricante, de forma global, ampliar o acesso ao imunizante nos países com casos confirmados da doença”, informou o ministério.

A pesquisadora da Abrasco, Ethel Maciel, acredita que de toda forma, o pronunciamento da OMS sobre a monkeypox permitirá que os arranjos para a produção da vacina contra a varíola dos macacos sejam facilitados.

“O decreto da OMS tem esse lado positivo, que é fazer com que os recursos dos países possam ser mobilizados para o controle da doença”, finaliza.

Leia também: ‘África do Sul identifica primeiro caso de varíola dos macacos’

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