COTIDIANO / Quinta, 11 Novembro 2021 15:59

Uneafro cancela exposição no Metrô de SP por racismo e violência de seguranças

“Manter a exposição daria legitimidade de que essa instituição se preocupa com o racismo e pesaria menos sobre a responsabilidade da violência contra pessoas negras”, afirma militante da organização

Texto: Letícia Fialho | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução

Exposição cancelada pela Uneafro Brasil
Introdução:

“Manter a exposição daria legitimidade de que essa instituição se preocupa com o racismo e pesaria menos sobre a responsabilidade da violência contra pessoas negras”, afirma militante da organização

Texto: Letícia Fialho | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução

A Uneafro Brasil, organização do movimento negro brasileiro, que há mais de uma década atua pela educação, por direitos e pela defesa do povo negro, decidiu barrar uma exposição em comemoração ao mês da consciência negra no metrô paulista. Antes do cancelamento, a mostra poderia ser vista nas estações São Paulo - Morumbi e Oscar Freire da Linha 4 Amarela, administrada pela ViaQuatro, a partir do dia 1 de novembro de 2021. 

“Não há possibilidade alguma de manter nossa exposição, qual conta nossa história de militância pelo nosso povo durante esse tempo de atuação, num espaço que viola nossos corpos.Temos ciência de que, a naturalização da violência por parte do Estado racista branco, encontra seus correspondentes pelo seu braço armado” afirma Phelipe Nunes, militante da Uneafro Brasil. 

A exposição surge logo após um jovem negro de 21 anos, vendedor ambulante, ser agredido de forma brutal por seguranças da estação Anhangabaú do metrô, no final de outubro. Durante a ação dos agentes da segurança, uma mulher registrou com o celular imagens da imobilização, sufocamento e truculência, enquanto suplicava para que os seguranças não o matassem em frente ao seu filho, um bebê que chorava no carrinho. 

Em suas redes sociais, a mulher relatou que o jovem foi xingado pelos agentes e, ao descer as escadarias da estação para ir embora, foi empurrado, por isso reagiu cuspindo em quem o violentava de forma verbal, moral e fisicamente. 

“Manter a exposição daria legitimidade, de que essa instituição se preocupa com o racismo e, de certo modo, pesaria menos sobre a responsabilidade da violência contra esses trabalhadores e trabalhadoras negras. Violentados na frente de seus filhos, roubados os produtos de seu trabalho. Os motivos se acumulam com o rastro de violência racial dentro desses espaços”, reflete Wellington Lopes, cientista social e militante da Uneafro Brasil. 

Ele concorda que a iniciativa tem um grande clamor por expor a memória da luta da militância negra organizada e que a exposição caberia em qualquer outro espaço e, sem dúvida, teria sempre um grande efeito político, artístico e cultural. Todavia, tem a capacidade de legitimar instituições que são recorrentes em práticas de violência racial. Deste modo, seria como deixá-los dizer, "eu não sou racista, até deixei meu 'amigo negro' fazer uma exposição dentro da minha casa".

“O racismo é um elemento estrutural que fundamenta e define as relações institucionais públicas e privadas. Decidir que não houvesse a exposição e se colocar diante de determinada relação com esse espaço, que não se encerra na mobilidade urbana mas é, também, um espaço de trabalho para milhares de pessoas negras que buscam uma alternativa de sobrevivência”, afirma Wellington.

Leia também: Uneafro: 10 anos e a luta negra pelo direito à educação

Solidariedade 

Em nota sobre o cancelamento do evento, a Uneafro Brasil, diz: “Casos como esse acontecem frequentemente no sistema metroferroviário. Ainda que as linhas atravessem, principalmente, lugares onde vivem a população branca e rica da cidade, os alvos da violência são sempre corpos negros ou de trabalhadoras e trabalhadores informais”. 

Segundo a organização, é válido ressalvar que o racismo que motiva e naturaliza essa violência estrutural do Estado: “Sendo assim, se manifesta também nas estações das linhas privatizadas – até porque estamos falando de um sistema interligado - o que iguala, desqualifica e requer medidas eficazes de ambas as formas de gestão para que casos como esse não se repitam”, completa a Uneafro Brasil. 

A organização reflete sobre outro aspecto, que envolve a própria organização do sistema metroviário. Segundo a Uneafro, isso também vale para a lógica de racista que organiza toda a cidade, uma vez que sua implantação intensifica a concentração de investimentos em determinados territórios e frequentemente remove, sem compensação adequada, a população negra que ali vivia, sem sequer indenizá-la adequadamente.

Na mesma nota, em solidariedade as vítimas da violência do estado, a organização reitera: “a Uneafro Brasil não contribuir para manifestações marqueteiras que tentam promover uma falsa imagem de um sistema viário antirracista. Em solidariedade a todas as vítimas dessa violência, a exposição está cancelada”, conclui. 

Em nota à Alma Preta Jornalismo a ViaQuatro, concessionária responsável pela operação e manutenção da Linha 4-Amarela de metrô, confirma o cancelamento da exposição em comemoração ao mês da Consciência Negra, que estaria disponível nas estações São Paulo - Morumbi e Oscar Freire. Informa ainda que a ocorrência de agressão mencionada não ocorreu nas dependências da ViaQuatro.

 

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