COTIDIANO / Quarta, 15 Junho 2022 15:54

RJ: mãe de santo foge de seu terreiro por conta de ameaças

O caso aconteceu na comunidade da Matinha, no município de Campos dos Goytacazes; pesquisa revela que em 2021, no estado, houve um aumento de 43% nas ocorrências de discriminação religiosa

Texto: Victor Lacerda I Edição: Elias Santana Malê I Imagem: Thiago Celestino / Unsplash

Imagem meramente ilustrativa de uma figura feminina, com roupas típicas dos cultos de matrizes africanas, com pulseiras e um pano escrito "Laroyê", saudação para o orixá Exú
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O caso aconteceu na comunidade da Matinha, no município de Campos dos Goytacazes; pesquisa revela que em 2021, no estado, houve um aumento de 43% nas ocorrências de discriminação religiosa

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Texto: Victor Lacerda I Edição: Elias Santana Malê I Imagem: Thiago Celestino / Unsplash

Em seus quase 40 anos de vida, a mãe de santo CRM* - que pediu para não ser identificada -, afirma ter passado por vários ataques à casa de axé em que atualmente é zeladora, mas não da forma que ocorreu recentemente. Há poucas semanas, ela teve que sair fugida do terreiro por ameaças vindas de pessoas que transitam pelo bairro do terreiro, em uma comunidade a 233 quilômetros da capital do Rio de Janeiro. 

Deixando axós - roupas brancas típicas de religiões de matriz africana - e até assentamentos de santos para trás, a mãe de santo afirma que, hoje, está proibida de voltar para preservar a sua vida e a dos filhos de santo da casa. Ela afirma que o último episódio não a deixou com medo, mas fez com que pensasse, ainda mais, na integridade dos frequentadores, que estavam sob seus cuidados, e dos filhos biológicos - dois adolescentes. 

“Pensei que se eu continuasse lá e acabasse morrendo, eu sei que a minha fé estaria resguardada e que meus guias iriam me proporcionar os melhores caminhos. No entanto, além dos filhos de santo da casa, que precisam de ajuda, conselho e de cuidados constantemente, pensei nos meus filhos adolescentes, que precisam de uma criação mais próxima. Jamais pensei que saísse fugida, mas aconteceu”, conta.

Mãe Sandra* conta que o chamado para ser zeladora aconteceu quase que paralelamente às constantes ameaças. Há menos de dois anos, a iyalorixá antecessora faleceu e, seguindo a hierarquia da umbanda, dois sucessores poderiam substituí-la, porém, estes já haviam aberto suas próprias casas. A atual zeladora revela que foi pega de surpresa, que assumiu compromisso com os orixás, com os filhos da casa e de dar sequência aos ensinamentos ancestrais.

Porém, ao assumir o compromisso, não contava que as retaliações aos cultos seriam tão severas. Em revelação dada com exclusividade à Alma Preta Jornalismo, ela conta que as ameaças eram promovidas por uma milícia, acordada entre policiais e um pastor influente na região, que tem parentesco com um dos chefes do tráfico de drogas na localidade. Ela ainda afirma que, por meio das pregações, a casa de axé era retratada como "coisa de satanás", o que instigou ainda mais aos moradores vizinhos a quererem o fim dos cultos aos orixás. 

Com medo que os ataques passassem de verbais para físicos, a mãe de santo conta que, com a ajuda dos filhos de santo da casa, conseguiu tirar o essencial utilizado nos cultos e levou para casa onde morava. Por conta do espaço reduzido, ela desocupou o quarto onde dormia para guardar o que restou do terreiro.

Emocionada, ela conta que a casa, pouco depois, teve sua estrutura destruída e, por não saber onde estavam os demais assentamentos de santos - estruturas de onde o axé vem em forma de força e para onde o axé vai em forma de oferendas -, que já estavam soterrados no terreno da casa, acabou os deixando para trás.

“O que mais me dói é que eu não consegui retirar a preciosidade que são os assentamentos, onde estão plantados nosso axé. Apesar da casa ter sido destruída, os fundamentos deixados por nossos ancestrais sempre estarão presentes. E, digo mais, se os novos moradores, ou quem quer que seja que for ocupar o espaço, se não tiver o pé firme, vai acabar saindo de lá. O sagrado não gostaria que isso acontecesse e, se a casa é para nossa relação com a nossa ancestralidade, a ancestralidade também nos defende”, diz.

Agora, mãe Sandra* afirma que, por medo, atualmente conta com apenas nove filhos de santo da casa. Recentemente, eles conseguiram um espaço novo para transferir os instrumentos religiosos da sua residência. Ela relata que mesmo assim, sofreu novas ameaças. 

“Tivemos que sair da nossa casa de axé, levar o que deu para levar para a casa onde morava e, ainda assim, me mudar para um quartinho com banheiro. Isso não existe! Que perseguição é essa? Eu não consigo entender. Antes, acredito que pela mãe de santo ser uma idosa, eles não mexiam tanto, mas, após o seu falecimento, foi uma sucessão de ataques”, reflete. 

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Instrumentos sagrados escondidos em vasos de plantas

A zeladora conta que conseguiu encontrar uma casa maior, onde dará continuidade aos cultos. Para resguardar os assentamentos que restaram e estão sob sua guarda, a mãe de santo pediu ajuda dos filhos para escondê-los dentro de dois grandes vasos de planta.

“Tivemos que tomar atitudes, assim como se fazia antigamente, de enterrar as paramentas do santo, para que as pessoas não vissem. Sabemos que o que foi levado e deixado nunca será recompensado. Se foi a nossa história, mas estamos nos virando para dar continuidade. A minha preocupação é resguardar a nossa fé, o que foi aprendido, para que daqui há dez ou quinze anos, a linhagem não esqueça da tradição”, explica.

Como meta acordada com os filhos de santo da casa, a mãe de santo afirma que pretende, dentro de um ano, comprar um novo terreno para construir a casa de axé, mas em uma localidade que seja mais central e visada para além do controle das milícias dentro das comunidades. Ela fala sobre a saída da periferia sob a justificativa que, em grandes centros, “as pessoas ficam mais receosas de fazer certos ataques, já na comunidade, existem fatores que fazem os praticantes ficarem reféns”, aponta. 

Aumento de 43% de casos de intolerância

Em dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), divulgados em janeiro deste ano, o estado do Rio de Janeiro apresentou um aumento de 43% nos casos de “ultraje a culto religioso” - quando há ataque no sentido de ridicularização ou com atitudes que impeçam o seguimento de uma cerimônia religiosa. O balanço revelou que de 23 ocorrências registradas em 2020, o número saltou para 33 no ano passado.

No entanto, mesmo que o registro leve em consideração qualquer tipo de perturbação contra as expressões religiosas, um estudo realizado pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, o Ceap, revelou que a maior parte das discriminações são feitas contra casas de axé e seus representantes. O levantamento ainda revela que o maior número de casos acontecem fora da capital, assim como o caso da mãe Sandra*. 

Ainda em 2021, dados da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, a CCIR, também revelaram o perfil dos autores. Segundo o estudo com base nos registros de ocorrência, em aproximadamente 23% dos episódios, o autor da ação foi um vizinho e, nos episódios de discriminação que puderam identificar a religião dos autores, 56% eram evangélicos.

Para a mãe de santo, o aumento das ocorrências de discriminação religiosa pode ser reflexo da atual conjuntura política, que, para ela, se baseia em um ideal conservador e racista, que tem por objetivo dizimar a cultura negra e sua religiosidade histórica. 

“Se o chefe maior do país [Jair Bolsonaro], que não me representa, mas continua sendo o presidente, faz símbolo de arma e parece não se sensibilizar por questões raciais, os seus seguidores e pessoas que omitiam os seus ideiais racistas, hoje, se sentem com um suporte para destilar o ódio. Quantos terreiros já foram quebrados sob a justificativa de que ‘estavam fazendo pelo bem dos bons costumes’?”, finaliza. 

*O pseudônimo foi usado como resguardo da fonte, que pediu para dar o depoimento em sigilo 

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