COTIDIANO / Sexta, 13 Agosto 2021 14:25

Rede de Mulheres de Terreiro abre representação criminal contra pastor

Organização acionou o Ministério Público de Pernambuco para averiguar postura do religioso, que tem atacado as religiões de matriz africana associando-as à “feitiçaria” e ao “satanismo”

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: 

Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco abre representação criminal contra discursos intolerantes de pastor
Introdução:

Organização acionou o Ministério Público de Pernambuco para averiguar postura do religioso, que tem atacado as religiões de matriz africana associando-as à “feitiçaria” e ao “satanismo”

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: 

Perseguição aos cultos e as práticas religiosas de matrizes africanas em Pernambuco se tornou a atividade principal no dia a dia do presbítero de uma igreja neopentecostal do município de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife. Identificado como Ajailon Berto, o pastor usa de suas redes sociais como plataforma de discriminação e promoção de discurso de ódio, associando a religiosidade originalmente negra à práticas como “feitiçaria” e “satanismo”. Nesta semana, a Rede de Mulheres Negras de Terreiro abriu uma representação criminal contra o líder religioso. 

A entidade, além dos discursos arbitrários proferidos pelo pastor, levou em consideração um caso reportado no mês passado, aqui na Alma Preta Jornalismo, quando uma mulher trans denunciou ataques transfóbicos e de intolerância religiosa por parte do mesmo. A funcionáaria pública, Raphaella Ribeiro, também de Igarassu, já teve sua imagem exposta em lives do religioso, que associa sua identidade de gênero e suas práticas políticas no município - de inclusão social nas ações públicas - ao satanismo.

Os episódios levaram à Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, na presença da representante Vera Baroni, a Iyalorixá Ceiça Axé e o Babalorixá Edson de Omolú acionarem o Ministério Público de Pernambuco para apresentar denúncia. Intolerância religiosa é crime previsto na Constituição da República. A ação teve o apoio do mandato da vereadora do Recife, Liana Cirne (PT-PE), e culminou na entrega, em mãos, da documentação dos ataques de Ajailon à promotoria do órgão. 

Em conversa com a Alma Preta Jornalismo, a representante da Rede de Mulheres de Terreiro de Pernambuco, Vera Baroni, afirma que, nos dias atuais, é inadmissível a prática que o pastor vem promovendo e que as instituições sociais precisam estar atentas às tentativas de deslegitimação cultural e identitária do povo negro. “Infelizmente, não é uma ação contra nós que é nova. Estamos falando de uma demonização histórica. Nossos direitos fundamentais sempre sofrem com violações, então, para este caso, decidimos ter uma postura que reafirma a inadmissão com o comportamento de uma pessoa que sai, arbitrariamente, criminalizando quem somos. Não ficaremos silenciados e ele precisa responder pelo que vem promovendo”, declara. 

Ainda segundo a representante, o exercício de indignação com práticas de intolerância deve ser constante e, principalmente, alinhado a outros movimentos e povos de terreiro para pressionar a intervenção do poder público no policiamento e gestão contra o discurso de ódio nas redes sociais. “O alinhamento se faz necessário para afirmarmos que respeitamos as outras práticas e que queremos isso, o respeito. Ninguém pode nos obrigar a entender que uma única pessoa nos diga que só a sua crença é a correta e tem valor.  Por outro lado, temos que fazer pressão com os poderes públicos para a  quebra de silêncio. Estamos falando de garantia de exercício de direitos e isso precisa ser visto”, pontua Baroni. 

Leia também: Do Museu Nacional da Bíblia a 'Exu Corona': violências simbólicas reforçam a intolerância religiosa no Brasil

Com o intuito cobrar o poder público contra as práticas do pastor, na última quinta-feira (12), a Articulação Negra de Pernambuco (ANEPE) circulou entre os movimentos sociais um ofício, junto ao mandato do vereador Ivan Moraes (PSOL-PE), que será encaminhado à Gerente de Igualdade Racial da cidade do Recife, Girlana Diniz. Até o fechamento da publicação, o documento já havia sido assinado pelo Movimento Negro Evangélico, Espaço Cultural das Marias, Coletiva Periféricas, Dhuzati Antiespecista, Distro Dysca e Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas. 

A Articulação pontua o episódio em que Ajailon recriminou a ação de grafitagem realizada pelo projeto “Colorindo Recife” no túnel da abolição, em frente ao Museu da Abolição, no bairro da Madalena, no Recife. Em publicações nas redes sociais, o pastor fomentou a propagação indevida da imagem dos artistas envolvidos nos projetos que usaram do equipamento público para fomentar a ancestralidade. 

Direcionado à Gerente de Igualdade Racial da cidade do Recife, Girlana Diniz, o documento ainda pede a realização de uma reunião entre a Secretaria de Infraestrutura; os(as) artistas autores(as) das obras expostas no Túnel da Abolição e seus representantes; a Secretaria Executiva de Inovação Urbana e a Gerência de Igualdade Racial.

O Ministério Público de Pernambuco, em resposta à representação criminal protocolada, marcou uma audiência para o próximo dia 24 de agosto. Na ocasião, líderes religiosos e movimentos sociais estarão, de forma on-line, discutindo quais os caminhos para que o pastor não saia impune diante de suas declarações. 

Questionada sobre a expectativa com o andamento do processo contra os atos discriminatórios, Vera Baroni pede por justiça e mais engajamento da comunidade de terreiro. “Espero que a justiça seja célere e que um processo penal e criminal seja, de fato, aberto para julgarmos essas ações. Também espero que isso de exemplo aos demais que compartilham do mesmo entendimento que ele. Aos povos do terreiro, importante sairmos do comodismo e sermos mais ativos diante dessas práticas. Só assim poderemos preservar a nossa identidade”, finaliza. 

Leia também: Em decisão inédita, Judiciário da Bahia condena evangélica por intolerância religiosa

 Apoie jornalismo preto e livre!

 O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de   financiamento coletivo e de outras ações com apoiadores. 

 Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos   equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor. 

 O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

 Acesse aqui e apoie a Alma Preta Jornalismo

NEWSLETTER

Fique por dentro de tudo que acontece. Se inscreva e receba nossas notícias toda semana.

VÍDEOS

camisa69anos.jpg
resindencialcambridge.jpg
rapamazonia.jpg
casoborbagato.jpg