Sobra preconceito e falta rede de apoio: mães negras são menos de 50% dos profissionais empregados

Segundo nova pesquisa do IBGE, mães negras, com filhos de até três anos, ocupavam 49,7% dos cargos em 2019; neste mesmo contexto, mulheres brancas eram 62% e homens brancos 93%

Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Acervo Pessoal

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Introdução:

Segundo nova pesquisa do IBGE, mães negras, com filhos de até três anos, ocupavam 49,7% dos cargos em 2019; neste mesmo contexto, mulheres brancas eram 62% e homens brancos 93%

Texto: Roberta Camargo | Edição: Nataly Simões | Imagem: Acervo Pessoal

Mulheres negras com filhos de até três anos são minoria no mercado de trabalho e enfrentam dificuldade para retomarem suas atividades econômicas depois da maternidade. É o que aponta a pesquisa Estatísticas de Gênero, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2019, mães negras, com filhos de até três anos, ocupavam 49,7% dos cargos. Neste mesmo contexto, mulheres brancas eram 62% e homens brancos 93%.

A economista e gestora da consultoria Reconomizar, Regiane Vieira Wolcher, explica que os dados refletem obstáculos já conhecidos: o racismo e o machismo.

"Nós temos uma economia que não permite o acesso igualitário para as pessoas ao mercado de trabalho e a gente chega em indicadores econômicos que mostram isso. A pobreza tem crescido no Brasil e quando a gente olha para essa camada mais vulnerável da população fica evidente que é a população preta, representando 70%", afirma.

A maternidade ainda é alvo de preconceito no mercado de trabalho e as mães têm “habilidades aprimoradas” depois da chegada dos filhos, conforme aponta a fundadora da EmpregueAfro, Patrícia Santos.

“A gente tem que aprender a ser organizada, mais responsável, trabalhar muito com geração de conflitos e isso, por uma perspectiva pessoal, me torna a executiva que eu sou”, relata a profissional, que é mãe de quatro filhos, com idade entre 6 e 12 anos.

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Patrícia Santos e os filhos, que têm entre 6 e 12 anos. Foto: Acervo Pessoal

Falta rede de apoio e boa remuneração

"Quando você é uma mulher negra, que não tem grana e está na periferia, como você vai criar uma rede de apoio ou pagar um cuidador?", questiona a designer Letícia Carvalho, ativista da Rede Mulheres Negras de Pernambuco.

Mesmo com a participação do companheiro, ela que é mãe de Odara, uma bebê de um ano e seis meses, teve dificuldades para conseguir emprego depois do nascimento da filha. "Com seis meses, eu já ficava tentando mostrar para as pessoas que eu conseguia trabalhar. Sempre acham que por ser mãe a gente não vai dar conta", desabafa.

Letícia relata que a criação de uma rede de apoio, comunidade formada por pessoas que podem oferecer suporte para os cuidados com os bebês, é um privilégio dos brasileiros mais ricos. Tentando manter trabalho e estudo, ela conta que já foi cobrada sobre a vida acadêmica, mas não tinha com quem deixar a filha para focar no ensino superior.

"A opção que eu tinha era levar minha filha nos espaços ou não ir. E nem sempre os espaços têm estrutura ou autorizam a presença de crianças", relata.

O trabalho remoto ou home office, como é chamado a modalidade de trabalho à distância, adotada por várias empresas por causa da pandemia da Covid-19 não tira a necessidade das mães de ter uma rede de apoio.

"A gente precisou adaptar muita coisa pra trabalhar em casa, com criança, às vezes sem um espaço pra dividir todas essas atividades. Eu preciso muito de apoio, mas não tenho como investir nisso", explica Letícia.

"As mulheres que dedicam mais horas ao trabalho doméstico não remunerado são as que têm pior remuneração no mercado de trabalho", lembra a economista Regiane. Patrícia, traz exemplos que amparam a baixa remuneração, como a necessidade de horários mais flexíveis, tempo longe do mercado e dificuldade para se recolocar em posições maiores ou semelhantes às ocupadas anteriormente, por conta do machismo e também do racismo.

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Letícia Carvalho e a filha Odara. Foto: Acervo Pessoal

Impactos na economia do país

“O desemprego atinge as pessoas pretas de maneira muito mais cruel porque as pessoas estão na base da pirâmide de serviços”, destaca Regiane, se referindo aos dados da pesquisa do IBGE divulgados nesta quinta-feira (4).

Segundo a economista, a desigualdade social cria um ambiente econômico instável e pouco eficiente. “Com baixas produtividade e capacidade inovativa, violência, baixa proteção social e alta informalidade no mercado de trabalho”, complementa.

Para Patrícia, é possível reduzir as dificuldades enfrentadas pelas mães negras no acesso ao mercado de trabalho com a promoção de mais diálogos sobre maternidade e trabalho e mudanças no “modo de pensar” do RH das empresas.

Ainda de acordo com Regiane, a ausência de pessoas negras no mercado de trabalho deixa o sistema econômico ainda mais defasado. “Isso tudo é resultado dessa combinação perversa de estatísticas. Quando a gente tem pessoas que não conseguem consumir, a gente tem um funcionamento comprometido. A ausência do auxílio emergencial, combinado com o desemprego e as baixas perspectivas econômicas, mantém essas pessoas em situação de fome e pobreza. A população eestá lançada à própria sorte”, finaliza.

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