COTIDIANO / Quinta, 06 Mai 2021 13:41

Periferias provam que é possível ter retorno financeiro e impacto social positivo

É da necessidade e falta de oportunidades que muitos negócios surgem e beneficiam uma cadeia de pessoas e outros negócios nas comunidades

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/Agência Ophelia

Imagem mostra duas mulheres negras instalando a placa de uma barraquinha que diz: Dara Artesanato
Introdução:

É da necessidade e falta de oportunidades que muitos negócios surgem e beneficiam uma cadeia de pessoas e outros negócios nas comunidades

Texto: Flávia Ribeiro | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/Agência Ophelia

A internet pode ser um terreno adoecedor muitas vezes. Não é de hoje que vejo pessoas achando engraçado falar mal de quem empreende. Como se todos fossem pessoas excêntricas e quisessem ganhar dinheiro em toda e qualquer oportunidade. “Nem é gente”, debocham. Mas não é bem assim.

Empreender muitas vezes é algo que vem pela necessidade. Num dia trabalho, no outro não, e as contas do mês sempre chegam. Então, é preciso buscar soluções para os problemas. A falta de oportunidades no mercado formal é o que leva boa parte das pessoas negras para o empreendedorismo sem conhecer esse nome. Mais do que isso, os negócios chefiados por pessoas negras causam um impacto positivo em suas comunidades.

Não é só o lucro pelo lucro, é preciso fazer bem feito porque a sociedade exige que sejamos melhores nas atividades que desenvolvemos. Além disso, em negócios feitos por pessoas negras e das periferias são usados, muitas vezes, mão de obra ou insumos dos vizinhos, dos amigos, dos comerciantes do bairro. Cada pequeno empreendimento que dá certo beneficia uma cadeia de pessoas no seu entorno. Isso é uma marca que diferencia pessoas negras e das periferias de outras formas de empreender: nós trabalhamos na lógica da abundância e queremos progresso para nós, para os nossos e para a sociedade.

Quando falamos sobre empreendedorismo negro e periférico, outras nomenclaturas aparecem como negócios de impacto, que são empreendimentos que geram impacto socioambiental ao mesmo tempo em que produzem resultado financeiro positivo, mas de maneira sustentável.

Nina Silva, fundadora do movimento Black Money, conta que empreender é uma característica ancestral de pessoas negras no Brasil e que gerar impacto faz parte disso. “Falar do Black Money é agir e incentivar a intencionalidade de se comprar de outras pessoas pretas. É fazer com que negócios de impacto social intra comunidade sejam investidos a partir do nosso capital, que não é pautado no capital eurocentrado, mas sim em prosperidade, em lucratividade que está em benefício de um coletivo e principalmente uma intencionalidade pautada no amor à sua representação não só física quanto espiritual da sua continuidade ancestral”, analisa.

Segundo a empreendedora social, falar de negócios de impacto dentro da comunidade negra é falar desde as nossas cozinhas, pensões, restaurantes e ateliês de costura tocados por pessoas que empreendem desde que fomos sequestrados do continente africano e trazidos ao Brasil. “Ter um negócio dentro da comunidade negra já é causar um impacto de não exclusão e de inserção pelas nossas próprias mãos em uma sociedade que sempre nos colocou à margem principalmente quando se pauta economia, política e sociedade”, ressalta Silva.

Imagem mostra Nina Silva, criadora do movimento Black Money.

A empreendedora Nina Silva, criadora do Movimento Black Money. | Foto: TV Brasil

Muito além dos empreendedores

O ecossistema dos negócios de impacto nas periferias envolve mais do que pessoas com necessidade de pagar os boletos e uma boa ideia. Para além de empreendedores, há outros atores. Depois de atuar por mais de dez anos em um território periférico, a Fundação Tide Setúbal tem avançado no apoio à territórios periféricos pelo Brasil.

“A fundação enxerga a potência de resolver os problemas que precisam de fomento e cria conexões com agentes públicos e privados”, afirma Guiné Silva, coordenador de Fomento e apoio a agentes e causas da organização.

Ao longo dos últimos anos, a Tide tem ajudado projetos de todo o Brasil, com foco em soluções criativas e estruturantes, relacionados com saneamento, internet e segurança alimentar, por exemplo. “Dentro dos territórios periféricos, negócios de impacto são protagonistas porque olham os problemas e propõem soluções. Mas as soluções precisam ser pensadas para a sociedade. Problema resolvido, retorno financeiro e impacto. Tudo para o futuro de todos como sociedade”, explica Silva.

E a pandemia?

Uma pesquisa do Sebrae mostrou que as mulheres negras formam o setor mais afetado pela pandemia da Covid-19. Foram ouvidos 6.470 donos de pequenos negócios de todos os estados do país e do Distrito Federal, entre os dias 25 e 30 de junho de 2020. Os dados mostram que enquanto 36% das empreendedoras negras estavam com a atividade interrompida temporariamente, seguidas dos homens negros, com 30%. Já entre as empresárias brancas, 29% passaram pela mesma situação e 24% entre os homens brancos.

Mulheres negras estão no público alvo do Instituto Rede Mulher Empreendedora, que atua no fomento e na geração de renda da mulher através do empreendedorismo e empregabilidade. Além de desenvolver projetos e capacitações para mulheres em todo o Brasil, com objetivo de ajudar as mulheres brasileiras em situação de maior vulnerabilidade, como as da classe D e E, as transexuais, as quilombolas, etc. “A maioria começa por falta de escolha, mas com o tempo, elas conseguem se desenvolver por meio do conhecimento técnico e alcançam uma condição melhor”, pontua Marina Gurgel, gerente executiva do Instituto.

Segundo a profissional, a preocupação em tempos de pandemia se deve ao fato de que em 2020 haviam várias iniciativas para apoiar projetos de impacto, diferentemente desses primeiros meses de 2021.

“Neste ano não vemos o mesmo alto grau de mobilização. Estamos falando para que quem puder ajude, até porque sabemos que nem todo mundo consegue fazer o isolamento social e se manter em casa”, frisa Marina, acrescentando que mulheres contratam mais e investem mais no combate às desigualdades.

Todo mundo tem o direito de não querer empreender, mas boa parte o fazem por necessidade. Se você acredita que essa forma de trabalho é precária, então se volte contra o sistema, não contra quem está nessa correria para fazer as coisas acontecerem, porque essas pessoas conseguem beneficiar uma cadeia de pessoas em seu entorno. Empreender também é resistência.

Esse artigo foi produzido a convite da Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto com o objetivo de ampliar a discussão a respeito da participação de empreendimentos liderados por mulheres e afroempreendedores no ecossistema de negócios de impacto no Brasil. Para conhecer o conceito de negócios de impacto da Aliança pelo Impacto, acesse o site oficial. Esse debate é parte da implementação das Recomendações para avanço do ecossistema de impacto até 2025.

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