COTIDIANO / Sexta, 19 Março 2021 15:42

Para celebrar o Dia Mundial do Cuscuz, pernambucano distribui 210 kg de flocos de milho

Do Alto do Moura, no município de Caruaru, em Pernambuco, “Zé do Cuscuz”, como é mais conhecido, cozinha ‘O Maior Cuscuz do Mundo’, com título conquistado pelo Guiness Book em 2006. Para comemorar o Dia Mundial da iguaria de origem africana, população local de baixa renda recebeu o floco de milho que incrementa a alimentação

Texto: Victor Lacerda | Edição: Lenne Ferreira | Foto: Reprodução da internet 

Introdução:

Do Alto do Moura, no município de Caruaru, em Pernambuco, “Zé do Cuscuz”, como é mais conhecido, cozinha ‘O Maior Cuscuz do Mundo’, com título conquistado pelo Guiness Book em 2006. Para comemorar o Dia Mundial da iguaria de origem africana, população local de baixa renda recebeu o floco de milho que incrementa a alimentação

Texto: Victor Lacerda | Edição: Lenne Ferreira | Foto: Reprodução da internet 

Molhado na manteiga, com queijo coalho assado, acompanhado de charque, no molho de tomate com salsicha cortadinha ou ao leite, o cuscuz é uma das refeições mais versáteis e potentes em componentes nutritivos e de história. No Nordeste, a popularidade da iguaria é tão grande que, todo mês de junho, ela se apresenta em proporções gigantescas desde que José Augusto inventou uma festa em sua homenagem. Hoje, para comemorar o Dia Mundial do Cuscuz, ele distribuiu 210 kg de flocos de milho, que tem grande importância para a alimentação da população negra. A ação obedeceu o protocolo de proteção contra a COVID-19*.

Do Alto do Moura, no município de Caruaru, em Pernambuco, “Zé do Cuscuz”, como é mais conhecido, realiza há 27 anos ‘O Maior Cuscuz do Mundo’, com título conquistado pelo Guiness Book em 2006. O evento, que acontece no segundo domingo de junho e reúne cerca de 80 mil pessoas por edição, não aconteceu no ano passado e está sem previsão para este ano devido à pandemia pela COVID-19.

Para ajudar famílias de baixa renda e em comemoração ao Dia Mundial do Cuscuz, Seu José realizou uma ação solidária. Os principais beneficiados são os moradores do entorno de onde, anualmente, acontece o evento pelo qual ficou conhecido. A ação teve ajuda de custo pela Lei Aldir Blanc, incentivo viabilizado pelo Governo de Pernambuco.

“São anos de dedicação e distribuindo cuscuz para o povo no Alto do Moura gratuitamente. Não tinha como ser diferente. Os anos vão passando e a gente dá seguimento à tradição como podemos. Para este ano, com essa pandemia, o foco é ajudar o próximo. Geralmente, sou eu quem faço e sugiro o acompanhamento, mas agora quero distribuir para cada contemplado faça seu cuscuz da melhor forma”, explicou.

A introdução do cuscuz à alimentação teve início no noroeste do continente africano, na região do Magrebe e, desde então, foi sendo integrado aos mais variados cardápios. A dualidade entre a sua grande importância para a história alimentícia e a simplicidade de seu preparo, caiu nas graças do povo, que elegeu 19 de março como o Dia Mundial do Cuscuz

Como curiosidade da relação brasileira com o prato, a pernambucana e mestra em História da Alimentação, Milenna Gomes, pontua a importância da farinha de milho para a história da população negra no país, quando trazidas contra suas vontades de África. “A base para o prato foi importante para a subsistência da população negra escravizada. Anteriormente consumida pelos povos indígenas por terem em abundância, com a chegada dos colonizadores, comer milho ou farinha de mandioca era considerado um ato destinado às pessoas que não tinham renda. Tanto que, para a aristocracia, a farinha de trigo é que era sinônimo de riqueza”, conta. 

cuscuz na mesa

No Brasil, especialmente no Nordeste, a tradição vai além do mês dedicado aos festejos juninos, em que se consome fortemente o milho, ingrediente principal do prato aniversariante, e seus derivados. Símbolo de um alimento forte e que já matou a fome de muitas pessoas de baixa renda, até pelo preço mais acessível (entre R$1,20 à R$2,00) para a região, não tem regra: o prato pode estar presente nas três principais refeições e, quem sabe, até no lanche da tarde, junto com um café preto forte ou ao leite. 

Para a mestra, a relação da população nordestina é econômica e nutricional. “Sempre foi mais possível e em conta ter na alimentação diária, justamente por, historicamente, ser consumido repetidas vezes ao dia, até por ser uma alimentação que sustenta. Imagina em uma época de trabalho braçal? O acesso à acompanhamentos como carne não era fácil, o máximo que se comia era uma carne seca ou entranhas de animais. Por isso, o cuscuz também se tornou esse alimento que pode ser consumido com uma pluralidade de acompanhamentos”, pontua. 

Sua relação com o povo nordestino também se entrelaça à religiosidade. O cuscuz compartilha de seu dia com São José. Para os agricultores, o dia do santo católico -  padroeiro do Ceará - é dia de início do plantio de milho e de muita reza. Os produtores pedem para que, depois desse dia, a chuva seja uma constante nas plantações, pois, só assim, em junho terão uma colheita proveitosa. 

Reconhecimento mundial

Com tanta história, a chegada do registro. Em 16 de dezembro de 2020, recebeu nada mais, nada menos do que o título de Patrimônio Imaterial da Humanidade. O pedido de reconhecimento, feito em conjunto pelos países africanos Argélia, Mauritânia, Marrocos e Tunísia, foi aprovado pelo Comitê de Patrimônio da Organização das Nações Unidas para Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), comandado pela Presidência da Jamaica. O intuito também foi a valorização das práticas do consumo, da produção e os saberes relacionados com a iguaria.

 

*A imagem principal da matéria foi feita antes da pandemia. 

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