COTIDIANO / Terça, 05 Abril 2022 14:01

Outros nomes para o Bem Viver: a ação das mulheres na América Latina

Em tempos de emergência climática, propor soluções alternativas é uma forma de romper com o modelo capitalista que se mostra insustentável; experiências de base comunitária e de harmonia com a natureza são reforçadas como caminhos para preservar a vida

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nataly Simões | Imagem: I'sis Almeida/Alma Preta com adaptações de imagens do Unsplash e Canva

Ilustração de uma mulher negra e uma mulher indígena com a natureza ao entorno.
Introdução:

Em tempos de emergência climática, propor soluções alternativas é uma forma de romper com o modelo capitalista que se mostra insustentável; experiências de base comunitária e de harmonia com a natureza são reforçadas como caminhos para preservar a vida

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Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nataly Simões | Imagem: I'sis Almeida/Alma Preta com adaptações de imagens do Unsplash e Canva

Existem em todo o mundo evidências das consequências provocadas pela crise climática. Diante da necessidade de rever a supremacia de um modelo socioeconômico, baseado na emissão de gases de efeito estufa e em valores como competitividade e individualismo, conhecer modelos de sociedade com base comunitária é uma oportunidade de propor alternativas para salvar o planeta.

O Bem Viver é um conceito de organização da sociedade que vai contra o modelo capitalista insustentável em que a natureza é explorada e vista apenas como recurso para a produção de mercadorias. Ele sustenta práticas inspiradas pela solidariedade entre as pessoas, proteção da biodiversidade, harmonia com a natureza, soberania alimentar, resolução de conflitos e convivência cidadã.

De acordo com a jornalista Juliana Gonçalves, mestranda em Estudos Culturais pela Universidade de São Paulo (USP), o conceito de Bem Viver nasceu em berço andino e seu significado tem correspondência em outras comunidades tradicionais de organização social.

Além do Sumak Kawsay (povo quéchua) e Suma Qamaña (povo aymara), a pesquisadora do significado do conceito dentro da vivência de mulheres negras explica que há outras filosofias que dialogam com o Bem Viver, como o Ubuntu sul-africano. As experiências comunitárias, praticamente todas, dialogam com o conceito.

“O Bem viver fala sobre a possibilidade de se chegar a uma vida digna, que valorize todos os seres humanos em torno do social, da ancestralidade e da cultura. É uma forma de estar no mundo que tem a ver com ser, não ter. O Bem Viver apresenta realmente um outro modelo de sociedade, que não é possível de chegar a sua plenitude em bases capitalistas”, explica.

Juliana destaca que faz parte dessa filosofia os humanos entenderem seus papeis como força mobilizadora e suas responsabilidades com o planeta. Quando se fala, por exemplo, de reforma agrária, direito à terra a indígenas e quilombolas, também se fala do Bem Viver.

“É o máximo que seria de fato o direito à vida em plenitude, o que sabemos que para a população negra é algo negado desde que fomos arrastados de África para cá, até quando nossos corpos foram considerados livres, mas abandonados pelo Estado”, complementa a pesquisadora.

Bem Viver no Brasil

Segundo a engenheira agrônoma, escritora e ativista brasileira Nilma Bentes, o termo não é tão usado no Brasil, mas o Teko Porã, que tem princípios semelhantes, era praticado pelo povo Guarani.

“A rigor, muitas comunidades rurais, inclusive quilombolas, adotam certas práticas, sobretudo na questão de tarefas coletivas (áreas sem cercas, mutirões, trocas de produtos/escambo), respeito aos mais velhos, além de respeito e zelo ao mundo natural e até sobrenatural, como entidades da mata, dos rios, entre outros”, explica Nilma, também uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa).

Novas alternativas ao modelo de desenvolvimento vigente é o que propõe também a Marcha das Mulheres Negras, realizada desde  novembro de 2015, ano em que mais de 50 mil mulheres negras se reuniram em Brasília, no Distrito Federal, contra o racismo, a violência e pelo Bem Viver. O conceito filosófico foi introduzido na mobilização por Nilma, que também é uma das idealizadoras da Marcha.

Nilma Bentes | Foto: ReproduçãoA engenheira agrônoma, escritora e ativista Nilma Bentes | Foto: Reprodução

A ecoafrofeminista Dulce Maria Pereira, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), pontua que a comunidade negra traz a partir de sua ancestralidade os conceitos de Bem Viver e só sobreviveu à escravização por causa disso. A intelectual também ressalta a existência de várias iniciativas dessa filosofia no Brasil.

“O Bem Viver, no fundo, é utopia de grande parte das pessoas. A questão é ter a intencionalidade de organizar a vida para bem viver. Essa é a questão, porque não é espontâneo na sociedade capitalista. É preciso ter a intencionalidade de construir processo de bem viver e de viver bem, mas na sociedade contemporânea não é um fato dado, é preciso conquistar, articular, criar estratégias para se chegar ao processo objetivamente de bem viver”, reforça.

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Construções de Bem Viver pela América Latina

Ainda de acordo com a ecoafrofeminista, o conceito de Bem Viver é parte da base e filosofia de vida de vários grupos na América Latina e não, necessariamente, com o mesmo nome.

“Não há um padrãozinho único sobre Bem Viver. O conceito não se limita a este estágio da globalização e não tem o mesmo nome. O conceito como a gente trabalha hoje está muito ligado à filosofia indígena, que fala de práticas políticas e de organização social não predatória entre um ser e outro, baseada no compartilhamento dos bens, com base comunitária principalmente e muito semelhante aos quilombos”, explica.

Segundo Dulce Maria, nos países latinos, é possível encontrar grupos que se organizam de forma intencional pelo Bem Viver. Em tempos de emergência climática, as experiências podem inspirar a repensar valores e práticas da cultura contemporânea, com a construção de novos marcos civilizatórios que superem o legado colonialista, machista, racista e capitalista.

Vicenta Camusso, coordenadora da Rede de Mulheres Afro Latino-americanas e Caribenhas e da Diáspora (RMAAD), no Uruguai, ressalta que a filosofia do Bem Viver ainda não está integrada ao coletivo afro na região. A incorporação do cuidado começa a ser vista em alguns grupos de mulheres, mas não o conceito de Bem Viver como é desenvolvido no Brasil.

“Alguns grupos religiosos (muito poucos) afro-umbandistas vêm incorporando o conceito a partir de reflexões e ações da comunidade religiosa integrada ao cuidado com o meio ambiente. Da mesma forma, algumas mulheres negras, afrodescendentes, incorporaram a filosofia e, mais que transmiti-las, vivem-na em seus ambientes familiares”, descreve.

Para a coordenadora da RMAAD, ainda há um grande trabalho para informar, conscientizar e vivenciar a filosofia do Bem Viver. “Como filosofia, o conceito é integrado a ações que realizo com os jovens negros, colocando as primeiras reflexões”, relata.

Mãe Luz Correa, do Centro Umbandista Reino da Mata em Uruguai, conta que, em sua comunidade, a filosofia do Bem Viver é entendida como viver os valores da cultura ancestral, indígena e africana com base em uma vida simples, desprovida de ambições materiais.

Fora dos valores ocidentais de sucesso, competição e individualismo, a comunidade trata de levar a prática do Bem Viver às pessoas que mais precisam, além de apoiar todas as ações do coletivo negro no Uruguai, trabalhando com outras casas religiosas no cuidado e respeito à natureza, educando e sendo educados para não usar nas oferendas elementos que prejudiquem o meio ambiente.

“Assim é a experiência que temos da Umbanda para levar no dia a dia as mensagens que nossas entidades espirituais nos deixam, que chegam ao nosso terreiro, deixando-nos com tanto amor e tanta sabedoria como só os pretos velhos, os caboclos, os crianças e também o Exu e a Pomba Gira, que estão nos guiando e nos levando a ter uma vida de harmonia, de paz, de tranquilidade, mas, acima de tudo, de entendimento entre irmãos”, explica.

Centro Umbandista Reino da Mata

Centro Umbandista Reino da Mata em Uruguai | Foto: Acervo pessoal

Para Berta Arzu, da organização Enlace de Mulheres Negras de Honduras (ENMUNEH), país da América Central, o Buen Vivir (termo em espanhol) vai além do conforto material e da sobrevivência econômica.

“Para mim, Buen Vivir é estar em comunhão com o meio ambiente nessa relação de tranquilidade e de paz, porque ter um ambiente saudável se traduz em ausência de doenças, ter serviços básicos satisfeitos e acesso à terra e a meios de produção que servem para subsistir. Viver em um ambiente pacífico onde conflitos podem ser resolvido através do diálogo entre vizinhos ou nas comunidades”, considera.

De acordo com a hondurenha, muito pouco se sabe sobre o conceito em Honduras, porque normalmente as pessoas preferem emigrar para buscar melhores oportunidades, mas há experiências na região.

“Conheço uma comunidade muito pequena chamada Diamante De Sión, no município de Jutiapa, onde vivem em harmonia com o meio ambiente. A luz que utilizam é de energia solar, têm todos os meios de produção à disposição. São agricultores que criam porcos, produzem feijão, arroz, milho. Eles têm tudo lá dentro da comunidade e também estão muito bem adaptados aos avanços tecnológicos”, relata.

Berta Arzu

Berta Arzu, de Honduras | Foto: Acervo pessoal

Para o povo Garífuna, grupo étnico afro-indígena da Guatemala, o Bem Viver está relacionado a harmonia com a natureza  a a convivência tranquila e com respeito aos antepassados. É o que explica Gloria da Silva, técnica em trabalho social da  RMAAD Guatemala.

“Tendo em vista que a história e as contribuições nas diferentes áreas dos garífunas e afrodescendentes na Guatemala foram negadas, invisibilizadas e pouco divulgadas na sociedade, afirma-se que a cultura garífuna e a identidade afrodescendente envolvem elementos históricos, culturais e ancestrais que marcam visões de mundo, espiritualidade, formas de conceber e habitar o mundo, bem como a relação com a natureza e a compreensão da vida e da morte”, destaca.

De acordo com Gloria, o conhecimento ancestral abrange uma ampla variedade de aspectos do conhecimento e da técnica que vão da linguagem à gastronomia, da matemática ao artesanato, passando pela medicina, construção, aromaterapia, técnicas de conservação ambiental, entre outros.

Além disso, um componente central que atravessa as visões de mundo dos saberes ancestrais é o aspecto espiritual, impregnando cada elemento do cotidiano e, assim, confirmando o sentimento de pertencimento a ele.

“O Bem Viver nos permite mostrar o panorama do nosso contexto sociopolítico afrodescendente e ilustrar a riqueza e o acúmulo de saberes sobre a medicina tradicional que é reconhecida como um sistema que possui um complexo de tradições, práticas e crenças que possuem métodos próprios de diagnóstico, tratamento, atenção, cuidado e prevenção, e cujos recursos terapêuticos incluem plantas ‘medicinais’”, ressalta.

Gloria Silva

Gloria Silva, mulher garífuna de Guatemala | Foto: Acervo pessoal

O Bem Viver e as constituições dos países

Ainda segundo Juliana Gonçalves, pesquisadora da USP, houve um esforço de incluir o Bem Viver dentro das constituições dos países, o que foi um marco importante no sentido de entender as diversidades em todos os níveis.

Nos processos constitucionais de Equador (2008) e Bolívia (2009), Sumak Kawsay/Buen Vivir (Equador) e Suma Qamaña/Vivir Bien (Bolívia) foram assimilados enquanto princípios norteadores não apenas de ações governamentais, como também da reformulação do próprio estado. Entretanto, há críticas porque o próprio estado não coloca em prática algo que afronte a sua existência.

“Há críticas que apontam que o Bem Viver não é algo que pode ser simplesmente incluído na Constituição e ser institucionalizado, que é preciso muito mais de mobilização e força política, de um poder muito mais popular para que de fato ele seja concreto na vida das pessoas. As críticas alertam para o perigo de cooptação do conceito como apenas uma forma menos degradante de relação com o meio ambiente e não como uma ruptura epistêmica, social, política e cultural”, conclui a pesquisadora.

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