COTIDIANO / Quarta, 16 Janeiro 2019 11:50

“O negro está cansado de ver os outros falarem por ele”

Sub-representação negra na política é um dos grandes problemas da sociedade brasileira; Segundo liderança do Frente Favela Brasil, o negro quer no poder alguém que entenda sua realidade

Texto / Thaís Morelli
Imagem / Lula Marques

Mais da metade da população brasileira se autodeclara negra, grupo que, com base no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), reúne pretos e pardos. Mas isso é bem diferente no cenário político. No Estado de São Paulo, por exemplo, de acordo com os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), com base nas eleições de 2018, apenas 4,2% dos candidatos que se elegeram são negros, uma representação mínima que reflete de forma negativa o protagonismo negro.

De acordo com o cientista social Osmar Teixeira, que defendeu uma tese de doutorado sobre a representatividade da população negra no Legislativo, “a ausência de negros no Parlamento representa um contrassenso, em que a maioria passa a resolver os problemas da minoria”. Nas eleições de 2018, o número de candidatos negros cresceu em comparação a 2014, mas esse grupo continua sendo sub-representado nas eleições.

A falta de negros é detectada na maioria dos 35 partidos existentes no país, mas é mais intensa em seis deles, que têm mais de 70% dos seus candidatos brancos: Partido Novo, PCO, PSDB, PSD, PP e MDB. Em contrapartida, as siglas que apresentam o maior percentual de candidatos negros, com 50%, são: PCdoB, PTC, Rede, PSC, PMB, PSOL, e PT, sendo que, nas eleições de 2018, PSOL e PT inscreveram respectivamente 715 e 639 negros na disputa. Já o partido Novo tem a menor diversidade racial, tendo 85% de eleitos brancos.

Anna Karla Pereira é uma das líderes do partido Frente Favela Brasil, que surgiu inspirado na luta pelo protagonismo negro e pelo reconhecimento da dignidade da pessoa negra e das periferias do Brasil. De acordo com ela, “o negro está cansado de ver os outros falarem por ele, pessoas que não vivem a realidade social do negro no país. Precisamos de políticas públicas específicas para essa população e não adianta dizer que outras pessoas vão fazer, porque em toda a construção histórica do Brasil nunca foi feito”.

A expectativa do partido para os próximos anos é eleger metade dos candidatos, mesmo que os dados de eleições passadas mostrem que pretos e pardos têm menos de 50% de chances de vencer a disputa quando comparados aos brancos.

O fato é que, na política, o negro não fala por si e existe uma urgente necessidade de mudança. É preciso introduzi-lo nesse espaço de poder para que, assim, possa se iniciar a implementação de políticas públicas para reduzir a exclusão desse grupo social.

A reportagem foi originalmente publicada na Revista AFROCULT. Criada como trabalho de conclusão de curso das jornalistas Giovanna Monteiro, Marina Sá, Mayara Oliveira e Thais Morelli na Universidade Anhembi Morumbi, a revista visa ser um instrumento didático para o auxílio do combate ao racismo no país.

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