COTIDIANO / Quinta, 24 Março 2022 15:40

O nariz e o pregador: “quem te ensinou a se odiar?”

Em uma sociedade estruturalmente racista e no contato com outras pessoas e influências que discriminam a beleza ou a presença negra, há um abalo sobre a própria sensação de inadequação

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Dora Lia/ Alma Preta Jornalismo

Ilustração de um bebê com pregador de roupa no nariz.
Introdução:

Em uma sociedade estruturalmente racista e no contato com outras pessoas e influências que discriminam a beleza ou a presença negra, há um abalo sobre a própria sensação de inadequação

Autor:

Texto: Fernanda Rosário | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Dora Lia/ Alma Preta Jornalismo

“Meu nariz nunca foi algo que pensei muito sobre, mas era ‘naturalmente’ ignorado. Todas as minhas fotos eram registradas no ângulo de perfil, então de alguma maneira eu acreditei que a minha aparência era inadequada”, é o que conta a publicitária, designer de moda e produtora de conteúdo Emile Brito ao ser questionada sobre a sua relação com o próprio nariz desde a infância.

A publicitária relata que sua mãe já contou histórias sobre ter usado pregador de roupas para tentar afinar o nariz quando criança, algo que buscou não reproduzir na criação dos quatro filhos. Entretanto, mesmo sem o repasse dessa prática no ambiente familiar, em contato com outras pessoas e influências que discriminam a beleza ou a presença negra direta ou indiretamente, há uma sensação de inadequação.

A jornalista e servidora pública federal Fernanda Miguel lembra que sofreu um impacto quando saiu do conforto do núcleo familiar, local em que recebia afeto e elogios, e foi para a pré-escola.

“Na entrada da pré-escola, o que mais causou impacto pra mim foi descobrir que eu não era bonita, porque em casa eu era linda. Meus pais reiteravam a minha beleza o tempo inteiro. Aí quando cheguei na pré-escola com outras crianças majoritariamente brancas era diferente”, explica.

Nesse ambiente, Fernanda conta que sofria algumas agressões físicas, como apertos no nariz e puxões no cabelo. Ela também conta que sua mãe já fez relatos sobre como as maternidades antigamente tinham a prática de incentivar as mães a fazerem massagem no nariz dos recém-nascidos para afiná-los.

Em 2018, a produtora de conteúdo Gabi de Pretas fez um vídeo chamado ‘Tour Pelo Meu Rosto’ em que relata ter passado por questões semelhantes às de Emile e Fernanda com a própria aparência na infância, utilizando pregadores de roupa no nariz ou deixando de sorrir em fotos, algo que só foi perceber como era influência do racismo na fase adulta.

Leia mais: Vídeos no Youtube dão dicas de como ‘afinar’ o nariz; especialistas apontam racismo

"Quem te ensinou a odiar a forma do nariz e a forma dos seus lábios?"

Em um discurso proferido em Los Angeles em 1962, o ativista afro-americano Malcolm X dirige uma série de questionamentos para a audiência que aponta como a supremacia branca criou mecanismos que ensinam às pessoas negras a se odiarem.

“Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo? Quem te ensinou a odiar a cor da sua pele de tal forma que você passa alvejante para ficar como o homem branco? Quem te ensinou a odiar a forma do nariz e a forma dos seus lábios? Quem te ensinou a se odiar do topo da cabeça para a sola dos pés?”, questiona o ativista.

A bióloga e integrante da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, Zezé Menezes, explica que a partir do século 19 e 20 surgem as teorias eugenistas com uma interpretação perversa e enviesada para justificar a opressão contra populações não brancas, sobretudo sobre a população africana e de seus descendentes. Essas teorias se somaram a outras anteriores que desumanizavam as pessoas não brancas, como as explicações dadas por igrejas.

“A partir disso, como você 'não está tratando de humanos', se justifica toda a perversidade, todas as violações, toda a barbárie que os europeus fizeram com as populações africanas, com os seus descendentes e escravização do população negra e indígena”, destaca.

De acordo com a bióloga, no século 19, cientistas racistas da época aproveitaram as teorias de Darwin com uma interpretação muito perversa e totalmente não aplicável à humanidade sob o conceito da eugenia, que coloca a humanidade em uma classificação hierarquizada, em que o branco é uma raça superior.

“Era um pensamento absolutamente racista e apoiado pelo estado e pelos governos, porque era interessante de fato que se mantivesse e se justificasse essas atrocidades e barbáries. Mesmo as teorias eugenistas sendo absolutamente derrubadas já em meados do século 20, esse pensamento eugenista de hierarquizar a humanidade ainda está muito presente na sociedade”, explica.

Impactos na percepção sobre si

A psicóloga infantil, pedagoga e psicopedagoga Marília Vieira ressalta que algo que é muito comum em escolas, até por parte de professores e merendeiras, por exemplo, e até de forma inconsciente às vezes, é acariciar, elogiar e abraçar mais crianças brancas, loiras e de olhos claros. "A criança negra sente. Muitas vezes ela não sabe expressar, mas ela sente e isso machuca muito”, ressalta.

De acordo com a psicóloga, o que um adulto fala para uma criança tem muito valor e impacta de forma negativa ou positiva a vida adulta dependendo do que disser.

“O que nós mais vemos por aí, e inclusive eu vejo muito no meu consultório, são adultos com a criança ferida, que quando começa a relatar, falar a respeito do sofrimento, percebemos que o problema está na infância. Muitas vezes aquele adulto que sofreu muito racismo na infância, foi muito julgado, criticado, que o tempo todo recebeu apelido, tem uma baixa autoestima, principalmente quando não teve o suporte familiar forte”, destaca a psicóloga.

Ainda de acordo com Marília Vieira também é importante pensar que não existe criança racista. “Se a criança tem uma linguagem de uma certa forma racista é porque certamente ela ouviu em algum lugar. Criança não tem esse tipo de postura e comportamento. Se ela falou algo racista, é porque ela ouviu em algum lugar”, complementa.

Toda a pressão vivenciada quando criança pode, inclusive, levar muitas pessoas depois na fase adulta a recorrerem às cirurgias plásticas, como uma forma de tentar se encaixar em um padrão e buscar ser mais aceito na sociedade, sobretudo no universo das redes sociais.

A baiana Tatiana Novais, considerada a primeira cirurgiã plástica negra do Brasil, conta que opera o nariz de pacientes há mais de 20 anos, mas nos últimos cinco, a demanda de pessoas com pedidos de operação nas narinas aumentou de forma exponencial.

“Credito isso especialmente ao uso excessivo de redes sociais e a moda das selfies. Com a pandemia e o aumento de atividades online, esta procura aumentou ainda mais. Proporcionalmente diminui a média de faixa etária dos pacientes. E se antes eles traziam a foto de um artista pra fazer um nariz igual, agora trazem versões modificadas da própria imagem por filtros ou digitalmente”, ressalta.

Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o Brasil é líder no ranking mundial de cirurgias plásticas em jovens. De 1,5 milhão de procedimentos estéticos feitos em 2016, 97 mil (6,6%) foram realizados em pessoas com até 18 anos.

Enegrecer as referências

Emile e Fernanda

Emile Brito e Fernanda Miguel | Crédito: Arquivo pessoal

Em fevereiro deste ano, a produtora de conteúdo Emile Brito repercutiu um estudo, em seu canal, que fala sobre como o formato de nariz mais largo foi uma característica determinada por diversos fatores ao longo da evolução humana e que relaciona regiões geográficas africanas a condições climáticas e ambientais.

“Para mim, conhecimento é a maior ferramenta de autonomia para a valorização da nossa autoestima, da autoestima preta. E o meu intuito é que pessoas pretas compreendam que elas não são a versão falha de um ideal humano. Nossos traços, a nossa cor, o nosso cabelo, tudo tem um propósito, e todas essas características foram decisivas para que nós sobrevivêssemos. Quando compreendemos o início e entendemos as nossas características físicas como positivas, o orgulho é consequência”, pontua a publicitária.

A cirurgiã plástica Tatiana Novais conta que, dentro da sua atuação, busca orientar seus pacientes negros em torno dos procedimentos que buscam fazer, sobretudo quando o desejo por alterar alguma parte de seus corpos pode estar atrelado ao racismo que vivenciaram. 

“Gosto de ouvir de forma paciente toda a história do paciente. Minha primeira consulta dura no mínimo 1h30 e a maioria dos pacientes com questões raciais duram 2h. Gosto de entender todo contexto que o levou a procurar um procedimento cirúrgico. Por eu ser negra e ter um nariz negroide, isso torna mais fácil para os dois lados”, explica.

Além disso, a médica procura avaliar se a queixa do paciente é compatível. Se o que ele interpreta ser um problema, é ter um nariz com características raciais negras ou se tem mesmo uma desproporção nasal que interfere de forma desfavorável na estética e possui indicação cirúrgica clara. A médica conta que já viu histórias de pacientes que operaram o nariz diversas vezes buscando afilar mais, inclusive de algumas pessoas sem recursos que procuraram profissionais não médicos para fazer procedimentos rápidos e baratos que causaram deformidades irreversíveis.

“Tento desde o início evitar que meu paciente entre neste ciclo desastroso. Por meio de fotos e explicações anatômicas, procuro informar que podemos deixar o nariz proporcional e bonito esteticamente, mas sem retirar completamente características e que combine com a face. Se achar que o paciente não entende ou não concorda com o que falo, não opero. Sem falar dos casos que o nariz é muito bonito e combina completamente e em harmonia com a face. Esses, me recuso a operar”, ressalta.

No final de 2019, a cirurgiã plástica foi uma das organizadoras da Primeira Jornada de Saúde e Beleza Negra em Salvador, que, com uma repercussão nacional e internacional, já tem previsão de um próximo evento em 2023. “Me preocupo muito com a valorização da beleza negra e acho que este é o legado que podemos passar”, ressalta.

Dentro da busca por uma representatividade que empodere, a escritora, pedagoga e arte-educadora Madu Costa acredita que a literatura cumpre um papel importante no combate ao racismo.

“Eu como escritora, mulher negra que sou, posso afirmar por experiência. Eu tenho 21 anos de publicação e nesse tempo o quanto eu tenho recebido de respostas que vem corroborar com a minha fala de que a partir da representatividade negra, a partir do protagonismo negro da criança na Literatura Infantil, a gente consegue vislumbrar novas gerações mais preparadas para esse enfrentamento”, comenta.

Com 12 livros publicados, a autora busca em suas obras infantis desenvolver a temática que reforça o amor próprio e a autoestima das crianças negras.

“É preciso que a gente olhe para a criança negra observando a sua beleza, sem comparações com a estética válida eurocentrada. Portanto, eu me preocupo com a escolha dos ilustradores e me preocupo em descrever minuciosamente as personagens e os personagens dos meus livros chamando atenção para sua beleza em cada detalhe”, explica a escritora, responsável pelo livro ‘Menina Negras’ (com ilustração de Rubem Filho).

Leia mais: Livros sobre negritude e infância para inspirar crianças negras

Madu Costa

Escritora Madu Costa | Crédito: Acervo Pessoal

Além de preocupar-se com a descrição da beleza negra observada nas personagens dos seus livros, a autora Madu Costa busca trazer elementos dos valores afrocentrados e os elementos da cultura africana que atravessam a identidade nacional brasileira, a musicalidade, a circularidade, o cooperativismo, a filosofia Ubuntu, a relação de respeito com os mais velhos, a ancestralidade, as religiosidade de matriz africana.

O acesso ao conhecimento e aos livros produzidos por pessoas negras é uma porta de entrada importante para o empoderamento. A jornalista Fernanda Miguel destaca que foi ter um conceito de racismo a partir dos 30 anos, muito a partir desse acesso e pela internet.

“Acho que foi na última década que a gente começou a ter acesso a determinadas informações, que a gente começou a ter uma cultura mais distribuída e mais disponibilizada. Eu percebo que agora com quase 40 anos que eu estou me instrumentalizando para eu entender o meu lugar dentro da sociedade e para eu ver que meu corpo é um corpo político, simbólico, significativo e de resistência", destaca.

“Como bem diz Hercules Marques no livro ‘Amor preto cura’, ‘enxergar qualidades em seus semelhantes é um ato de resistência contra o auto-ódio, por tanto, para nós amar outra pessoa preta caminha de mãos dadas com o amor próprio’. Isso foi muito real pra mim, quando eu comecei a achar outras pessoas pretas bonitas, eu passei a compreender que a minha aparência e a minha beleza era possível”, confirma e finaliza a produtora de conteúdo Emile Brito.

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