COTIDIANO / Segunda, 12 Abril 2021 12:35

‘Nós por nóis’: Artistas urbanos se mobilizam para conter aumento da fome

Nas periferias e na região central de São Paulo, artivistas mantém um projeto voltado à alimentação para pessoas em situação de rua

Texto: Willian Dantas | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/@osso_photo

Artistas urbanos se mobilizam contra avanço da fome
Introdução:

Nas periferias e na região central de São Paulo, artivistas mantém um projeto voltado à alimentação para pessoas em situação de rua

Texto: Willian Dantas | Edição: Nataly Simões | Imagem: Reprodução/@osso_photo

A fome já atingiu 19 milhões de brasileiros nesta pandemia, de acordo com a pesquisa realizada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (PESSAN). Em 2019, antes do período pandêmico, o número de pessoas em situação de rua já havia aumentado 53% na comparação com 2015.

Os artistas urbanos, que vivem a realidade das ruas de perto, têm se mobilizado para conter parte desses avanços, que atingem principalmente a população negra. João França (o M.I.A) e Fernanda de Deus (a Vismoart) são dos artivistas conhecidos na cena artística urbana da cidade de São Paulo. Com extintores carregados de tinta, a dupla fez barulho na maior capital do país com a intervenção “Olhais Por Nóis” (2016), no Monumento às Bandeiras, estátua Borba Gato e Pátio do Colégio. As intervenções da dupla propuseram reflexões sobre questões sociais e levantou o debate sobre figuras homenageadas na metrópole.

Para tentar conter os avanços da fome, em 2020 o casal criou o “Nós Por Nóis”, projeto que leva alimentação para quem vive nas ruas. A iniciativa também atua em algumas periferias das regiões Leste e Oeste da cidade, mas se concentra especialmente no centro.

“Nossa principal atuação é no centro, onde o número de pessoas em situação de rua aumenta a cada dia, e agora com a segunda fase de lockdown as pessoas estão jogadas pelas ruas do centro, sem nenhum tipo de assistência do estado. Nossa meta como artistas urbanos é retribuir a rua tudo que aprendemos nela”, afirma Fernanda.

Leia também: Recordes de mortes, desemprego e fome marcam um ano da lei do auxílio emergencial

João, que foi dependente químico por cinco anos, diz conhecer de perto esse cenário. “Conheço na pele a realidade das ruas geladas de São Paulo, onde pessoas são tratadas como lixo pela sociedade e totalmente esquecidas pelo poder público. O projeto vai muito além de um prato de comida, é uma forma de amenizar o sofrimento de quem é invisível na nossa sociedade”, explica.

Violência e higienismo

Na maior cidade do país, as ações do poder público voltadas à população de rua possuem um histórico de violência e higienismo, com expulsões, jatos d’água e avais para abordagens policiais invasivas.

No fim da gestão de Fernando Haddad (PT), em 2016, o prefeito assinou o decreto 57.609 de zeladoria urbana, uma possível resolução para estabelecer os direitos humanos da população de rua. No primeiro ano de mandato de João Doria PSDB), o então prefeito publicou alterações no decreto que geraram controvérsias e iniciaram o debate sobre a gestão higienista. Na alteração, o prefeito liberou ações a qualquer dia e horário, autorizando a retirada dos objetos de “sobrevivência”, como cobertores e papelões, e abria brechas para uma abordagem mais truculenta e agressiva.

Leia também: Racismo institucional faz crescer cada vez mais os negros em situação de rua, diz especialista

O mesmo se repetiu durante a pandemia. A atual gestão, do prefeito Bruno Covas (PSDB), instalou no início de 2021 pedras de paralelepípedo embaixo de alguns viadutos da cidade, o que gerou uma série de manifestações. Com a repercussão negativa, a própria prefeitura acabou terminando o serviço de retirar as pedras.

Questionados sobre quais iniciativas poderiam ajudar a conter esses aumentos, a dupla de artivistas é categórica. “Do poder público não esperamos mais nada. Com ou sem pandemia eles devem e podem fazer diversas iniciativas para conter a fome e a desigualdade social, porém nada é feito. Neste momento não seria diferente”, avaliam João e Fernanda.

 Apoie jornalismo preto e livre!

 O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de   financiamento coletivo e de outras ações com apoiadores. 

 Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos   equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor. 

 O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

 Acesse aqui e apoie a Alma Preta Jornalismo

NEWSLETTER

Fique por dentro de tudo que acontece. Se inscreva e receba nossas notícias toda semana.

VÍDEOS

melly.jpg
cafe.jpg
entrevistalazaroramos.jpg
lucaskinte.jpg