COTIDIANO / Terça, 17 Agosto 2021 11:42

‘Não ao racismo religioso’: povo de terreiro protesta contra ataques discriminatórios

Reunidos em frente ao Museu da Abolição, centro de referência da cultura afro-brasileira no Recife, falas e cânticos foram proferidos por ativistas que pediram respeito pela cultura e ancestralidade negra 

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagens: Débora Oliveira / Alma Preta Jornalismo

‘Não ao racismo religioso’: em ato, povos de terreiro e movimento negro de PE pedem pelo fim de ataques driscriminatórios
Introdução:

Reunidos em frente ao Museu da Abolição, centro de referência da cultura afro-brasileira no Recife, falas e cânticos foram proferidos por ativistas que pediram respeito pela cultura e ancestralidade negra 

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagens: Débora Oliveira / Alma Preta Jornalismo

A atividade aconteceu em frente ao Museu da Abolição (MAB), um centro de referência da cultura afro-brasileira presente na cidade. Acompanhados de um carro de som, representantes fizeram falas contra o comportamento arbitrário e transfóbico do pastor identificado como Ajalonberto nas redes sociais a exemplo do tramamento dado à funcionária pública Raphaella Ribeiro, que teve sua imagem vinculada a um dos vídeos do pastor denuciado.  Os manifestantes reinvidincaram contra as sucessivas tentativas de apagamento ou deslegitimação da identidade negra e dos ensinamentos provenientes da ancestralidade. A demonização dos cultos aos orixás ganha ainda mais força em tempos em que o discurso de ódio tem pautado a esfera pública.  

“Quando vocês vão entender que não há demônio entre meu povo? Quando eu vou poder andar pelas ruas com minhas roupas sacerdotais sem levar olhares de ódio? Quanto tempo tenho sem chorar pelos meus? Quem é você para dizer que o seu Deus é mais importante que o meu? Sonho pelo dia que todas as religiões serão respeitadas em qualquer ocasião, enquanto ele não chega eu vou firmando a minha fé, respeito a crença alheia, mas a minha eu mantenho de pé”, declarou, em fala pública, Joaninha Dias, membra da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e candomblecista. 

A fala foi contemplada e compartilhada pela também integrante da associação, Verônica Santos. “É importante estarmos juntos para combater essa falta de conhecimento e essa repressão histórica que consome a nossa saúde mental, a nossa vida. Precisamos estar juntos e juntas sempre quando houver qualquer tipo dessas pessoas que se dizem corretas, mas discriminam quem somos. Assumirmos a nossa religião, em qualquer espaço, é uma atitude de fortalecimento”, pontuou a ativista.

O ato contou com a presença de integrantes da Rede de Mulheres Negras de Terreiro, a Articulação Negra de Pernambuco, o Movimento Negro Evangélico, além de mandatos progressistas da cidade e municípios vizinhos, como Vinicius Castello, de Olinda, Flávia Hellen, de Paulista, os vereadores Ivan Moraes e Dani Portela e a mandata de codeputadas, Juntas, do Recife. 

Leia também: Rede de Mulheres de Terreiro abre representação criminal contra pastor

Artistas visuais que participaram da produção do mural de 550m², pintado no Túnel da Abolição (vizinho ao MAB), alvo de ataques do pastor evangélico, também estiveram presentes e falaram sobre os elementos da natureza baseados em uma cosmovisão negra. Sobre o painel, ele comentou ter sido "aberto um portal de demônios”. Em conversa com a Alma Preta Jornalismo, uma das artistas presentes no projeto, Nathê Ferreira, avaliou a ação do religioso como retaliação à liberdade do fazer artístico por mãos negras. “Enquanto pessoas pretas, as religiões de matrizes africanas fazem parte da nossa ancestralidade, da nossa identidade e a gente usou disso para realizar nosso trabalho. Fizemos com carinho, mesmo sendo marginalizados por produzirmos através do grafite. Espero que seja feita justiça e que esse caso sirva de exemplo, que nós não vamos tolerar a falsa liberdade de expressão que ativa o ódio das pessoas”, disparou a artista. 

Para finalizar o ato, um xirê comandado pela Iyalorixá do Ilê Obá Aganjú Okoloyá (Terreiro de Mãe Amara), Maria Helena Sampaio, foi realizado. Em iorubá, cânticos dedicados a todo panteão dos orixás foi entoado em coro pelos presentes. Em seguida, toda a comunidade seguiu em caminhada da praça em frente ao MAB até o túnel onde estão localizados os murais. Repetidas vezes, como forma de ecoar o discurso uníssono, os presentes entoaram a canção do Afoxé Oyá Alaxé, “Quilombo Axé”, que diz: “Todos unidos num só pensamento levando a origem desse carnaval, desse toque colossal pra denunciar o racismo contra o Apartheid Brasileiro”. 

Ao fim, os articuladores da ação fizeram um convite à Caminhada dos Povos de Terreiro, que acontecerá no próximo dia 23 deste mês, e vau pautar também o respeito e o fim da intolerância religiosa e dar continuidade à luta da comunidade. Uma audiência pública junto ao Ministério Público de Pernambuco foi marcada para o dia seguinte, 24, para, junto à comunidade de terreiro, o órgão decidir os próximos passos na punição do comportamento discriminatório do religioso que está com representação criminal protocolada. 

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