COTIDIANO / Terça, 05 Outubro 2021 17:36

Motoristas de aplicativo relatam carga de trabalho de 12 horas por dia sem almoço

Cancelamento de corridas, alta nas tarifas e debandada de motoristas estão cada vez mais frequentes por conta dos sucessivos aumentos da gasolina que não impactam proporcionalmente nos reajustes feitos aos trabalhadores

Texto: Letícia Fialho | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução 

 

Motoristas desistem dos apps
Introdução:

Cancelamento de corridas, alta nas tarifas e debandada de motoristas estão cada vez mais frequentes por conta dos sucessivos aumentos da gasolina que não impactam proporcionalmente nos reajustes feitos aos trabalhadores

Texto: Letícia Fialho | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Reprodução 

 

“No começo era ótimo. Agora com a crise que estamos passando é muito difícil. Eu gastava R$50 para encher meu tanque, agora gasto R$120, mas já paguei até R$150. Fora isso, eu cumpria a minha meta diária trabalhando em torno de 8 horas por dia, hoje trabalho bem mais, umas 12h, sem fazer horário de almoço”, relata Robson Jordão, motorista de aplicativo há três anos.

Passageiros e motoristas de aplicativos de transporte, como Uber e 99 Táxi, têm enfrentado mudanças nos serviços oferecidos. Motoristas relatam que a principal justificativa para a alta das tarifas, assim como o cancelamento de corridas, se deve ao aumento do combustível. 

Segundo Robson, a pandemia de Covid-19 ocasionou mudanças nos repasses dos aplicativos, por isso muitos motoristas debandaram e buscam recolocação em meios formais. Além disso, os sucessivos aumentos no valor dos combustíveis culminou na desistência de muitos dos prestadores de serviços dos aplicativos. 

“Não está valendo a pena porque a gente roda bastante e não consegue tirar nem R$200 por dia. Fora isso, tem vários riscos que corremos na rua. A gente não sabe quem vai entrar no nosso carro. Porque eles falam que avaliam os passageiros, mas nos colocam em áreas de risco várias vezes”, conta.

No ano passado, houve uma mobilização de trabalhadores de aplicativos que denunciou as condições de trabalho e reivindicava direitos como alimentação, equipamento de proteção individual, proteção social, melhoria de renda, entre outras demandas. A onda de manifestações foi intitulada como "breque dos aplicativos", que acabou não resultando em acordo entre as empresas e motoristas. 

William Souza, motorista de aplicativo há seis anos, relata que a forma que as empresas de aplicativo administram a atual crise não ocasionará em melhorias que beneficiem os condutores: “O combustível é o peso dessa conta toda. O custo de operação do serviço também mudou. Vários amigos meus que entraram por indicação minha, inclusive, desistiram”, afirma o motorista. 

Reajuste 

Recentemente, a Uber e a 99 anunciaram aumento no repasse do valor dado aos motoristas no intuito de amenizar os impactos gerados pela pandemia de Covid-19, que nos últimos meses interferiu negativamente na execução do serviço. As empresas também se viram forçadas a agir devido o aumento dos preços dos combustíveis. 

A 99 hoje oferece um acréscimo de 10% a 25% aos motoristas, sendo válido em mais de 20 regiões do país, entre as quais São Paulo, Salvador, Brasília e Belo Horizonte. Sua concorrente, a Uber, oferece cerca de 35% de aumento. 

Para as entidades que representam os motoristas de aplicativo, o reajuste oferecido é insuficiente para reequilibrar a renda dos profissionais impactados pela crise. 

“A sensação dos motoristas é de indignação porque a categoria não tem reajuste desde 2015. E quando ele chega se mostra abaixo do que deveria. Além de não valer para todas as corridas, esse reajuste fica condicionado ao horário, local, tipo de corrida e o passageiro para o profissional receber o aumento”, afirma Eduardo Lima de Souza, dirigente da Associação dos Motoristas de Aplicativo de São Paulo (Amasp). 

Debandada de motoristas

“Os motoristas que conheço que desistiram foi por conta de rodar com carro alugado. Alguns deles dizem que não estavam conseguindo pagar o aluguel e tinham pouco retorno”, conta Jordão. 

Segundo a Associação Brasileira de Locação de Automóveis (Abla), entidade que representa metade da frota de veículos disponíveis para aluguel no país, uma a cada quatro que alugam carro para trabalhar como motorista de aplicativo abandonou a atividade no último ano. De acordo com a instituição, o que ocasionou a debandada foi o aumento dos preços de locação de 30%. 

“Um dos motivos da minha desistência foi o valor do aluguel. Para muitos motoristas a vantagem de alugar é que você não gasta com a manutenção. Mas aumentou muito e, aí, não compensa”, afirma o ex-motorista de app, Clóvis Soares. 

O motorista desistiu por considerar que prestar serviço para os aplicativos de transporte não é mais tão rentável. “Eu estava me desgastando bastante porque trabalho à noite com entrega de jornal. Entrei para os aplicativos pensando em uma renda complementar. Pensando na minha família, nos meus dois filhos pequenos, mas, atualmente, não compensa devido aos aumentos. Acabo não curtindo as crianças e gastando para trabalhar”, reitera Clóvis.  

Cancelamento de corridas 

A Amasp compreende que os efeitos da pandemia e a alta dos combustíveis forçaram os motoristas a selecionar suas corridas. Com o aumento do cancelamento por deles, segundo a organização, a Uber excluiu cerca de 15 mil condutores.

Quando banidos, os trabalhadores recebem a seguinte mensagem de notificação: “Na Uber, o cancelamento de viagens é um direito tanto do motorista quanto do usuário. Porém, o abuso desse recurso configura mau uso da plataforma, pois prejudica intencionalmente o seu funcionamento”.

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Posicionamento

Em nota à Alma Preta Jornalismo, a Uber afirma que não excluiu 15 mil motoristas de sua plataforma, como afirma a associação. Dos cerca de 1 milhão de motoristas e entregadores parceiros cadastrados na empresa, 0,16% do total apresentaram — de maneira recorrente — comportamentos que prejudicam intencionalmente o funcionamento da plataforma. Com isso, atrapalhariam outros motoristas e usuários que apenas desejam gerar renda ou se deslocar.

Quando questionados sobre o tempo de espera dos passageiros, a companhia responde que, especialmente nos horários de pico, há momentos em que há mais solicitações do que motoristas parceiros disponíveis para atendê-los.

A nota também afirma que “com esse desequilíbrio temporário do mercado, também podem ocorrer com mais frequência tanto cancelamentos pelo usuário (que não deseja esperar mais tempo pela viagem), quanto recusa de viagens pelo motorista (que, pelo cenário de demanda em alta, pode presumir que haverá novos chamados de maior ganho na sequência, por exemplo)”. 

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