Entrevista: Mirtes transforma luto por morte de Miguel em luta

Nove meses após a morte precoce do filho, Mirtes Renata reinventa a rotina e ressignifica a dor e a saudade. Matriculada no curso de Direito, ela segue buscando Justiça e atuando na implementação do Instituto Menino Miguel, no Recife 

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagens: Acervo pessoal 

Introdução:

Nove meses após a morte precoce do filho, Mirtes Renata reinventa a rotina e ressignifica a dor e a saudade. Matriculada no curso de Direito, ela segue buscando Justiça e atuando na implementação do Instituto Menino Miguel, no Recife 

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagens: Acervo pessoal 

No dia que marca nove meses da morte do menino Miguel, pernambucano de 5 anos negligenciado enquanto estava aos cuidados de Sarí Côrte Real, a Alma Preta Jornalismo conversa com Mirtes Renata. Para ela, que começou o curso de Direito com o objetivo de entender mais sobre os trâmites processuais, não restou muita alternativa a não ser transformar luto em luta. Mirtes segue na busca de justiça e tentando reinventar a rotina, aprendendo a lidar com a saudade. O processo judicial anda a passos lentos. Atraso que, para a universitária, é só mais um exemplo da diferenciação de tratamento quando a vítima é filho de uma mulher negra e pobre. 

Em entrevista exclusiva, Mirtes mostra que, mesmo em meio ao sofrimento e toda luta para fazer Justiça, tem conseguido ressignificar a perda precoce de seu filho e por meio do ativismo para ajudar outras pessoas. Em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), participa ativamente da fase de construção para a futura execução de atividades de assistência social e fortalecimento dos Direitos Humanos por meio de um marco na história de Pernambuco: a criação do Instituto Menino Miguel. 

mirtes

Ainda com dificuldades para a realização de atividades por conta da pandemia pela COVID-19, o Instituto já está em articulação para começar seus atendimentos de forma on-line. A ideia principal é priorizar a população periférica e em estado de vulnerabilidade social, sejam crianças, jovens, adultos ou idosos. 

Confira a entrevista na íntegra: 

AP: Como nasceu a ideia de criar o Instituto Miguel?

Mirtes: A criação partiu de uma homenagem ao meu filho por parte da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Como Miguel representava uma criança doce, prestativa e de família humilde, eles decidiram colocar seu nome no Instituto. A universidade já tinha frentes de cuidado com atividades junto às crianças e idosos e decidiram unir essas ações para as pessoas em vulnerabilidade, que precisam de assistência. Com isso, há uns seis meses, entraram em contato comigo, falaram das propostas e eu fui até eles para assinar a concessão do nome de Miguel. 

AP: De que forma o Instituto vai atuar? Quais são as atividades propostas?

Mirtes: O objetivo do Instituto Menino Miguel é atuar junto com os alunos da Rural nas comunidades, inicialmente, no Recife e na Região Metropolitana. Como estamos em pandemia pela COVID-19, as atividades ainda estão sendo reformuladas como, por exemplo, o atendimento psicológico, que passa a ser virtual. Assim que as coisas melhorarem, a nossa ideia é ir nas comunidades, escutar as pessoas, para fazermos um levantamento de deficiências e necessidades de cada localidade para depois executarmos os projetos. Temos como proposta a promoção de atividades como leitura para crianças, acompanhamento da saúde das mulheres, capacitação profissionalizante de jovens, exercícios que promovam a movimentação e a saúde de idosos e outras atividades. 

AP: Quais os apoios e parcerias que estão ajudando nessa fase de implementação?

Mirtes: Além da Rural, contamos também com a participação do Núcleo de Formação Continuada dos Conselheiros dos Direitos da Criança e do Adolescente e dos Conselheiros Tutelares de Pernambuco, a Escola de Conselhos. Recentemente, conseguimos aprovar, junto a proposta encaminhada pelo Deputado Federal Túlio Gadêlha, uma emenda parlamentar para promover a formação Inicial e continuada para profissionais e agentes sociais que atuam no Profissionais do Sistema de Garantia de Direitos e outras atividades. Todas com o intuito de combatermos a violência e a vulnerabilidade. 

AP: A senhora acredita que o apoio popular serviu de motivação para continuar seguindo em frente e transformar o luto em luta?

Mirtes: Sim, sim. Com certeza! Essa movimentação me fortaleceu muito. O apoio popular foi fundamental para me fortalecer e, depois, continuar a minha luta. Inclusive, para essa votação de aprovação da emenda, contei com o apoio das pessoas que estão comigo, que pedem justiça por Miguel e não vão parar. Isso tudo me fortaleceu também para ingressar no curso de Direito. Quase uma semana de aula e já estou cheia de coisa para ler. Focada nos estudos, seja sentada no ônibus, no metrô. O objetivo é adiantar minha formação sempre que posso.

AP: Quais são as expectativas de futuro para o funcionamento do Instituto? 

Mirtes: Crescer e desenvolver o projeto para que ele não só atenda o Recife e a Região Metropolitana, alcançando assim todo o estado. O nosso propósito é cuidar das pessoas, muito com base em que Miguel era, uma criança que gostava disso, de ajudar os outros. Por isso, pretendemos atingir e cuidar do maior número de famílias e zelar pelo bem estar delas. 

Em publicação feita na manhã desta terça-feira (02/03) em perfil de rede social, Dona Mirtes fez sua homenagem particular ao seu filho. “A sua lembrança continua viva em minha vida e em todas as partes da casa e nunca irá desaparecer. Jesus e Nossa senhora têm você em seus braços, mas eu terei você eternamente em meu coração. Meu eterno amor, Miguel Otávio”, escreveu a mãe. 

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