COTIDIANO / Terça, 21 Setembro 2021 16:05

Merendeiras do Recife denunciam atrasos salariais e falta de auxílio

De volta ao trabalho em julho deste ano, profissionais teriam ficado sem receber desde novembro do ano passado; sindicato afirma que 90% das mulheres prejudicadas são negras 

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: Reprodução/Coopbrasil

Merendeiras do Recife denunciam atraso de pagamento e falta de auxílio
Introdução:

De volta ao trabalho em julho deste ano, profissionais teriam ficado sem receber desde novembro do ano passado; sindicato afirma que 90% das mulheres prejudicadas são negras 

Texto: Victor Lacerda I Edição: Lenne Ferreira I Imagem: Reprodução/Coopbrasil

Ao longo da história, as mulheres negras são as que mais ocupam funções como merendeiras das escolas. Na cidade do Recife, elas representam 90% da classe trabalhadora. Assim como ocorreu com diversas categorias profissionais, elas sentiram no bolso o efeito desencadeando pela crise sanitária. Atuantes em unidades de ensino públicas, no Recife, as merendeiras denunciam falta de pagamento desde novembro de 2020, mesmo estando de volta ao trabalho desde julho deste ano. 

A denúncia, que alarma para a falta de assistência pública às profissionais em todos os meses passados sem retorno financeiro, partiu por meio de um comunicado que circulou na cidade via redes sociais. Em comunicado, as merendeiras informam sobre a situação do não posicionamento da empresa terceirizada que possui o licenciamento da Prefeitura do Recife, identificada pelas profissionais como RC Nutry, empresa que fornece alimentos para, além de escolas, empresas e hospitais. 

Junto aos apontamentos, as profissionais pediram ajuda à prefeitura como meio de intermédio para que as dívidas fossem liquidadas com urgência. Em recado direcionado diretamente ao atual prefeito da cidade, João Campos (PSB), as merendeiras pediam que a gestão pressionasse a empresa licenciada para que o débito fosse pago e, por consequência, elas não ficassem descobertas com as dívidas acumuladas durante a pandemia. 

Mesmo não sendo acobertadas por um sindicato, por serem profissionais terceirizadas, as merendeiras receberam apoio do Sindicato dos Professores da Rede Municipal do Recife (SIMPERE), que se solidarizou pelas profissionais que atuam em ambiente escolar junto aos educadores, emitindo um novo pedido e denunciando a condição atual de trabalho da classe. “A terceirização mais uma vez se mostra enquanto a face de super exploração e opressão aos setores com menos estabilidade e direitos dos trabalhadores e trabalhadoras”, apontava o comunicado. 

Ainda no pedido, o SIMPERE trouxe um balanço alarmante e significativo sobre o quadro de profissionais junto ao município - cerca de 90% das merendeiras do Recife são mulheres negras. Para a coordenadora geral do SIMPERE, Cláudia Ribeiro, a relação empregatícia com essas mulheres revelam um cenário de desigualdade. “Vemos todo um discurso e propagandas publicitárias de campanhas que dizem que respeitam as diferenças, mas que não se concretizam nas relações de trabalho. Ao que parece, se reproduz uma história antiga, uma relação com caráter escravocrata com aquelas que mais sofrem com a política de falta de subsistência. Isso tem a ver com a precarização do serviço e o poder público tem total a ver com isso”, aponta a gestora. 

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Ribeiro ainda afirma que as denúncias sobre atrasos ou de vínculos empregatícios encerrados sem as devidas multas contratuais não são de hoje. A gestora destaca que as empresas utilizam de mecanismos como a troca da razão social de uma mesma estrutura administrativa. “Isso é gravíssimo. A prefeitura deveria ter um critério de renovação apenas com empresas que não apresentaram falta de garantias à essas trabalhadoras. Ao que parece, esse cenário é uma antecipação da reforma administrativa que o governo Bolsonaro propõe”, finaliza. 

Em resposta à Alma Preta Jornalismo, a Secretaria de Educação do Recife esclarece que não houve prestação de serviços de alimentação à rede municipal de ensino por parte da RC Nutry desde março do ano passado, quando as aulas foram suspensas devido à urgência sanitária causada pelo novo coronavírus. Tais atividades só foram retomadas em julho deste ano e o salário referente ao período que estava em atraso pertinente a agosto foi quitado na última segunda-feira (20).

A informação não foi compartilhada pelo Sindicato dos Professores da Rede Municipal do Recife, que acompanha as profissionais, com quem a redação teve contato nesta terça-feira (21). 

Procurada pela redação, a RC Nutry, empresa que presta serviço à prefeitura, até o fechamento da publicação, não apresentou posicionamento.

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