COTIDIANO / Terça, 01 Dezembro 2020 08:54

Massacre em Paraisópolis completa um ano e PMs responsáveis continuam na corporação

Caso no baile da Dz7 aconteceu em 1 de dezembro de 2019 e familiares das vítimas seguem cobrando por Justiça

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Agência Brasil

Um ano após a morte de nove jovens com idades entre 17 e 23 anos no baile da Dz7, em Paraisópolis, na zona Sul de São Paulo, o caso segue sem uma explicação e responsabilização dos culpados. Em 1 de dezembro de 2019, milhares de jovens estavam no baile funk, que acontecia na rua, quando tiros foram disparados e começou um tumulto.

De acordo com a resposta que a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) enviou à agência Alma Preta, os policiais envolvidos nos inquéritos sobre o caso continuam na corporação, porém afastados do serviço operacional. O Inquérito Policial Militar feito a pedido da Corregedoria foi concluído e encaminhado ao Ministério Público e à Justiça.

“Aquilo ali foi pensado. Foi esquematizado. Não tem justificativa para ter policial em todas as saídas e entradas. Eles realmente desejavam fazer aquele cerco. Eu poderia ter sido uma daquelas pessoas jovens que tiveram a vida interrompida daquele jeito. A pessoa que sou, uma trabalhadora honesta que gosta de funk, que gosta de tomar um drinque, conhecer pessoas, gosta de ouvir música, gosta de estar lá, se sente bem lá e morrer por causa disso. Depois ser vista como marginal, com adjetivos pejorativos que qualificam mulheres que estão nesses espaços”, afirma q professora de literatura Fernanda Ribeiro, 25 anos, moradora do Grajaú, também na região Sul da capital paulista.  Ela acompanha a cultura do funk há anos e estava no baile da Dz7 no dia do massacre.

Foram assassinados Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16 anos; Bruno Gabriel dos Santos, 22 anos; Eduardo Silva, 21 anos; Denys Henrique Quirino da Silva, 16 anos; Mateus dos Santos Costa, 23 anos; Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16 anos; Gustavo Cruz Xavier, 14 anos; Gabriel Rogério de Moraes, 20 anos e Luara Victoria de Oliveira, 18 anos. 

Parentes e amigos dos nove jovens mortos há um ano fazem nesta terça-feira (1) um ato em frente ao portão 2 do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado, em homenagens às vítimas. O ato “Massacre de Paraisópolis, em memória e por Justiça” começa às 16h30.

A noite do massacre

O inquérito civil para apurar o que aconteceu naquela noite em Paraisópolis é conduzido pela equipe da DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa). Segundo a pasta de Segurança, o caso ainda está em andamento e sob sigilo, a pedido da Promotoria. São 31 policiais citados no inquérito.

“O clima estava estranho desde o começo. Quem vai pro baile tem que contar com a sorte de não tomar um enquadro quando chega de Uber ou de ônibus. Todos mundo tem que descer e é revistado. Naquele dia tinha uma blitz, eles [policiais] foram irônicos, tinha algo estranho. Não mandaram ninguém descer, não viram nossos documentos e disseram ‘vocês estão indo para o baile?bom divertimento’.”, lembra Fernanda.

Segundo a testemunha,  naquele 1 de dezembro de 2019 era impossível passar de moto pela ruas onde acontecia o baile antes das 23h. Ela e os amigos chegaram por volta das 1h da manhã. A professora estava perto do Beco do Mijo, próximo de onde começou o tumulto.

“Eu estava na esquina tomando uma caipirinha no trailer que fica de frente para o Beco do Mijo. A gente viu um carro da Força Tática entrar no beco, um policial saiu e depois a gente ouviu um pipoco. Eu achei que era bala de borracha, o meu namorado disse ‘pretinha, corre que é de verdade’. Olhei para trás e vi um flash de fogo”, relata.

De acordo com os depoimentos dos policiais que estavam na favela naquele dia, a equipe da Força Tática estaria perseguindo suspeitos em uma motocicleta, que teriam atirado primeiro contra PMs da Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas). Essa versão de perseguição e troca de tiros não foi confirmada pelos frequentadores do baile.

“Eu frequento Paraisópolis há mais de seis anos, conheço as ruas e sei andar lá dentro. Mas não tinha como a polícia deixar a gente sair de lá. Tentei sair por um ladeirão que dava nas Casas Bahia e não dava porque tinha polícia lá. Tentei sair pela praça e tinha polícia com bloqueio lá. Tentei sair pela rua do hospital Albert Einsteins e também tinha polícia impedindo a passagem”, lembra Fernanda.

 A intervenção dos policiais militares aumentou o clima de medo entre as pessoas e prolongou os momentos de angústia de quem queria se proteger, mas não sabia onde.

“A gente só conseguiu sair da favela 5h da manhã. Tinha uma molecada que não era de lá e não sabia para onde ir e acabavam encurralados para a morte. Era um desespero. O barulho das armas não era de balas de borracha, eram balas de verdade. Eu ouvia o tempo todo o pessoal gritando ‘Não entra aí, não vai por ali’.”, diz a professora.

De acordo com o laudo do IML (Instituto Médico Legal) oito vítimas morreram por asfixia mecânica causada por sufocação indireta. No caso de Mateus, de 23 anos, a causa da morte apontada no laudo foi uma lesão na coluna.

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