COTIDIANO / Segunda, 14 Junho 2021 11:41

Marcas se apropriam da imagem de pessoas negras assassinadas para lucrar

A ação da marca de roupas Farm após o assassinato de Kathlen Romeu não foi um caso isolado; veja as análises de Anielle Franco e do professor Fábio Nogueira

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

Kathlen Romeu vestida de branco e abraça um homem em foto de rede social, teve a imagem usada por marcas
Introdução:

A ação da marca de roupas Farm após o assassinato de Kathlen Romeu não foi um caso isolado; veja as análises de Anielle Franco e do professor Fábio Nogueira

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Reprodução

O corpo negro é explorado por marcas e empresas mesmo depois da morte. A apropriação de pautas políticas como o fim da violência contra pessoas negras para fins comerciais é um fenômeno cada vez mais constante. No dia seguinte da morte de Kathlen Romeu, a marca de roupas Farm lançou uma campanha que usava como mote um código de vendas com o nome da modelo, que trabalhava na loja. A atitude não foi vista com bons olhos pelo público, que criticou a empresa nas redes sociais. O ocorrido, no entanto, não é um caso isolado.

Um dos maiores exemplos dessa apropriação da imagem nos últimos anos é Marielle Franco, desde que a vereadora foi assassinada, também no Rio de Janeiro, em 2018, empresas têm usado seu nome para lucrar, mesmo sem autorização da família.  “Isso incomoda muito, principalmente quando a gente sabe que vem de pessoas que estão ali só pelo lucro e não pela causa”, diz Anielle Franco, irmã de Marielle, em entrevista à Alma Preta Jornalismo.

Para Anielle, a atitude da Farm foi errada, mesmo se teve uma boa intenção. “A dor que fica para a mãe é imensurável. Deve doer ainda mais ver a filha como código e explorada por marcas. É um grande erro e espero que fique a lição e que isso não se repita. Não adianta só colocar a camiseta ou broche e se dizer Marielle, mas sim ser a Marielle na prática. Defender a luta dela”, defende ela, que preside o Instituto Marielle Franco.

almofadafotoinstaLoja vende, pelo Instagram, almofada com o nome de Marielle Franco. | Foto: Reprodução

 Ainda de acordo com Anielle, o problema está na superficialidade com que as empresas, partidos e pessoas se envolvem na luta antirracista. “Muitas vezes a pessoa se diz antirracista, mas age e se coloca de maneira racista. Não temos mais tempo de pegar na mão do racista e falar ‘vem cá que eu te ensino’. As pessoas devem ler, se inteirar e agir de fato como antirracismo. Falta muito. Espero que as próximas eleições levem mais gente preta para o poder”, considera.

Em 2020, o Instituto presidido pela irmã da ex-vereadora criou a Agenda Marielle Franco para incentivar candidaturas comprometidas com a luta antirracista. Ao todo, a campanha engajou 762 candidaturas em mais de 300 cidades do país, com pautas voltadas ao antirracismo, apoio a mães-solo, combate à homofobia, entre outros.

Esvaziamento da luta

O professor e sociologo Fábio Nogueira, da UNEB (Universidade do Estado da Bahia), chama de estratégia de esvaziamento da luta antirracista essas atitudes de uso comercial e mercadológico das reivindicações e lutas do povo negro organizado.

“Isso não é algo novo na dinâmica das relações entre as grandes empresas capitalistas e o ativismo. Houve uma apropriação de símbolos ligados à política e à cultura do movimento Black Power, por exemplo, que tinha um caráter marcadamente revolucionário e radical, mas que acabam sendo apropriados como símbolos esvaziados do seu sentido de protesto e significado político”, explica o educador e também militante do Círculo Palmarino.

A exploração da dor do negro para geração de lucro para marcas e empresas é vista também, segundo a análise de Nogueira, na grade da programação das redes de TV, com noticiários policiais pautados em tragédias, sem discutir as desigualdades sociais e o racismo estrutural.

“Os programas exploram o 'mundo cão' de forma sensacionalista e nos representam, há décadas, [negros] como os inimigos da sociedade. Diariamente, eles reproduzem construções racistas sobre as comunidades negras. Esses noticiários só estão na televisão explorando nossas tragédias porque tem empresas patrocinando, comprando horário comercial nesses programas. Há uma comercialização do nosso extermínio”, finaliza.

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