COTIDIANO / Segunda, 05 Julho 2021 11:49

Marca cria modelo de óculos adequado aos traços faciais negros

Para a cirurgiã plástica Tatiana Novais, a ditadura do nariz fino está longe de acabar, mas o mercado estético começa a pensar na valorização de traços tipicamente negróides

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Freepik

Introdução:

Para a cirurgiã plástica Tatiana Novais, a ditadura do nariz fino está longe de acabar, mas o mercado estético começa a pensar na valorização de traços tipicamente negróides

Texto: Caroline Nunes | Edição: Nataly Simões | Imagem: Freepik

Uma marca de óculos alemã criou um modelo pensado no formato do nariz negróide. Os proprietários da Reframd, Ackeem Ngwenya e Shariff Vreudg, declaram que por serem homens negros com estrutura nasal baixa e larga sempre foi muito difícil encontrar óculos que se adaptassem ao rosto de maneira confortável. O modelo do acessório também foi imaginado para atender o público asiático, que também possui traços nasais largos.

Traços faciais caucasianos, segundo os donos da Reframd, são utilizados como padrão de beleza ideal pelas marcas, o que para eles é motivo de frustração ao mesmo tempo que serve de motivação para fugir à regra. Para a médica Tatiana Novais, primeira cirurgiã plástica negra do Brasil, a "ditadura do nariz fino" é algo que está longe de acabar.

 

A especialista, que é dona de uma clínica de harmonização facial em Salvador (BA), explica que os filtros das redes sociais são fatores que contribuem para a insatisfação quanto aos traços negróides e que isso passa a ser fomentado na fase da adolescência.

“O sucesso das redes sociais e seus filtros voltaram a enfatizar que o nariz deve ser estreito e com ponta fina. Na contramão da evolução, vemos artistas e influenciadores negros operando e reoperando o nariz. A realidade atual é que encontramos cada vez mais meninas muito jovens, pré-adolescentes, exigindo ir ao consultório médico para operar o nariz”, destaca.

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Tatiana ainda avalia que o recurso financeiro para fazer essas modificações nos traços típicos de pessoas negras também é motivo para frustração, visto que a situação econômica dos negros no Brasil é precária. A médica salienta que é perigosa essa busca, principalmente na escolha do profissional adequado para tal procedimento. “Algumas meninas são vítimas de médicos ruins, que fazem atrocidades a partir da promessa de operar o nariz”, ressalta.

Para a cirurgiã plástica, modificar um nariz negro não significa deixá-lo com características caucasianas extremas. Ela explica que por ter cartilagem fina e pele grossa, nos primeiros procedimentos realizados o nariz fica menor e proporcional, mas não com a ponta fina quanto o desejado pela pessoa, o que gera a vontade de realizar mais cirurgias.

“A grande maioria das pacientes partem para um segundo, terceiro procedimento. Temos o exemplo clássico de Michael Jackson. Os riscos de complicações grotescas só aumenta”, alerta a profissional.

A exclusão da estética facial negra e o cuidado para não extrapolar

No início de sua carreira como cirurgiã plástica, Tatiana afirma que lhe causou estranheza o fato de os traços faciais serem baseados em números. Ela explica que, no ramo estético, existe uma medida exata do que é aceitável para um nariz, por exemplo, ou do que é considerado proporcional em uma face padronizada como bonita. Consequentemente, esses cálculos excluem a estética negra.

“Existe um padrão numérico caucasiano. Estes números foram brilhantemente calculados por Leonardo da Vinci, há 500 anos, e se mantêm até hoje. Baseado nestes números, a grande maioria dos negros está fora do padrão estético ideal e com necessidade teórica de alguma intervenção”, avalia a especialista.

Para a médica, os traços negros têm suas características marcantes, que devem ser preservadas como herança ancestral. A mandíbula projetada para frente, a grossura dos lábios e o nariz são diferentes do padrão branco eurocêntrico, o que não significa que a beleza do negro é inferior, e sim que o corpo negro se adaptou ao clima e às condições externas do ambiente.

“Justamente por sermos originários de lugares quentes, como os países africanos, não havia a necessidade de um nariz tão estreito, com filtro de ar para aquecer, como na Europa”, explica.

Tatiana Novais salienta que é necessário perceber a mudança no mercado estético e, mesmo que a passos curtos, na valorização de traços tipicamente negróides. Para ela, uma intervenção cirúrgica pode ser realizada, mas com consciência e moderação.

“Está acontecendo uma pequena revolução no que diz respeito à beleza. A aceitação e exaltação dos lábios grossos, foi a primeira mudança. O cabelo crespo também está valorizado e a maquiagem se tornou democrática. Tudo tem uma história, mas temos que ficar atentos aos exageros”, finaliza a cirurgiã plástica.

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