COTIDIANO / Quarta, 29 Setembro 2021 11:31

Mapa de trançadeiras do Rio de Janeiro busca novas profissionais

Pesquisa, que em dois dias recebeu 150 cadastros, vai virar uma cartilha para servir de base para políticas públicas 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Acervo pessoal/ Luane Bento

mapa das trançadeiras faz o perfil da profissão no RJ
Introdução:

Pesquisa, que em dois dias recebeu 150 cadastros, vai virar uma cartilha para servir de base para políticas públicas 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Acervo pessoal/ Luane Bento

A cientista social e mestre em relações étnico-raciais, Luane Bento, faz um mapeamento inédito de transcistas em atividade no estado do Rio de Janeiro. O objetivo é coletar dados para sua pesquisa de doutorado em Ciências Sociais na PUC-Rio sobre identidade de Trancistas e Trançadeiras Afro, que mais para a frente poderá contribuir em processos de reconhecimento do trabalho destas profissionais.

“A ideia é criar uma cartografia social para entender quem são as pessoas, qual o perfil econômico delas, se existem proteções sociais, se é um grupo majoritariamente negro, qual a renda média, qual a escolaridade... Não existem dados sobre isso", diz Luane.

A prática de entrelaçar os cabelos crespos está difundida em todas as regiões do Brasil, com algumas particularidades locais e com influências tanto da ancestralidade afro-brasileira como do ativismo negro.

“Em São Paulo, por exemplo, a 'Trança Nagô' é chamada de 'Trança Raiz'. Devido a americanização das referências, a trança que é conhecida como 'Baião de Dois', passou a ser chamada também de 'Twister'. No Rio, a mesma trança é chamada de 'Trança de Duas Pernas'. De uma região para outra, o que muda é a técnica e o nome, mas não a concepção. Não existe uma trança específica do nordeste ou do sudeste, porque existe uma popularização dos trançados nos últimos anos, por conta do ativismo do movimento negro, que criou uma política de imagem”, explica Luane.

Para produzir o mapeamento, a pesquisadora criou um formulário digital para que as trançadeiras façam a inclusão de dados. Segundo a cientista social, em dois dias foram mais de 150 cadastros. 

Luane lembra também que a adoção de tranças por estrelas da música e dos esportes foram importantes para a construção da autoestima dos afro-descendentes. Além disso, a presença delas em livros infanto-juvenis também contribuem para a construção da valorização da identidade étnico-raciais.

No mestrado, a pesquisadora fez um trabalho sobre a relação entre as tranças e a matemática. “Em 2022, será lançado, pela editora Santillana, um livro didático para o sexto ano (Ensino Fundamental 2) de matemática, que vai trazer a cultura das tranças. Isso é importante, porque um cabelo que sempre foi visto como feio e ruim, por conta de uma imagem criada com base no racismo, agora se torna um instrumento de ensino”, pontua Luane. 

A atividade de trancista ou trançadeira veio com a diáspora africana. No continente africano, o trabalho de quem faz penteados baseado em tranças tem sentido e tradição muito além da estética, porque está relacionado a alguém com autorização para mexer no cabelo das pessoas, alguém de confiança.

“A trança é uma cosmogonia muito forte. Você encontra trançados na África do Sul, Angola, Nigéria, Senegal, Congo, Moçambique, entre outros. Quase em todo o continente o trançado está presente. Embora o significado e o signo dado ao trançado podem ser distintos. Nem sempre são iguais ao do passado, por conta da colonização europeia e da presença das igrejas evangélicas, que retiraram os sentidos de certos penteados”, afirma a pesquisadora.

Até o momento, a pesquisa de Luane aponta que existe uma vulnerabilidade social muito grande marcada pela informalidade. Uma prova disso é a ausência da categoria como opção de cadastro no MEI, programa de regularização para microempreendedores criado pelo governo. Aquelas que tentam a formalização para contribuir para a Previdência Social, geralmente se cadastram como artesãs, cabeleireiras ou manicures.“É um trabalho de manutenção da cultura negra que não tem nenhum amparo legal”, considera Luane.

Com o mapeamento concluído, a pesquisadora vai escrever uma cartilha com informações para que seja possível a construção de políticas públicas de proteção para as trançadeiras.

Leia mais: Mapa identifica ao menos 160 benzedeiras em São Paulo

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