COTIDIANO / Quinta, 02 Setembro 2021 12:03

Linguagem acadêmica de editais dificulta acesso de artistas da periferia a recursos públicos

Movimento de juventude negra denuncia que editais da Prefeitura de Belo Horizonte têm características excludentes, o que dificulta a compreensão de artistas oriundos da periferia

Texto: LetÍcia Fialho | Edição: Nataly Simões| Imagem: Movimentação Juventude Negra Política 

 

Movimento da Juventude negra
Introdução:

Movimento de juventude negra denuncia que editais da Prefeitura de Belo Horizonte têm características excludentes, o que dificulta a compreensão de artistas oriundos da periferia

Texto: LetÍcia Fialho | Edição: Nataly Simões| Imagem: Movimentação Juventude Negra Política 

 

Coletivos da juventude negra de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, discutem maneiras de facilitar o acesso aos editais de fomento à cultura para artistas da periferia. Essa articulação teve início em encontros ao longo deste ano, com apoio da organização do Coletivo Delibera Brasil, através do polo Decidadania.

Para os movimentos, os editais de cultura não contemplam artistas negros, probres e periféricos. Militantes afirmam que a questão é emergente, uma vez que muitos projetos são barrados pelo academicismo.

“Esse assunto levantado pelos coletivos está em voga em toda cidade. Para nós a arte e cultura são aportes da saúde mental que salvam vidas. O edital é uma porta de entrada para se fazer arte e exercer cultura. É preciso pensar em facilitar o acesso e a linguagem escrita dos editais”, reflete Lidi Maria, articuladora cultural da Movimentação Juventude Negra Política.

A Secretaria Municipal de Cultura investiu no último ano cerca de R$ 9 milhões em projetos aprovados pelos editais do Fundo Municipal de Cultura, destinados aos setores das artes visuais, design, circo, dança, literatura e leitura, música, patrimônio, teatro e propostas multissetoriais. A estratégia da prefeitura viabiliza a valorização da expressão artística e cultural dos grupos que não sustentariam projetos com recursos próprios, considerando que a classe artística foi fortemente impactada pela Covid-19.

O movimento negro, por outro lado, entende a necessidade de denunciar a falta de acesso e constrói alternativas de desburocratização dos editais voltados para o âmbito artístico. Pessoas engajadas na construção de projetos dentro de comunidades periféricas, além de artistas, sentem dificuldade em acessar os editais e espaços que possibilitam captação de recursos de cultura. Muitos desistem logo na inscrição, por não compreenderem a escrita acadêmica presente nos tópicos dos editais.

“Percebemos que a distribuição de recursos culturais não são proporcionais e quando procuramos saber o porquê, percebemos que as áreas mais vulneráveis são as mais afetadas. Os editais não se comunicam, não são informados de forma nítida para as pessoas participarem, elas não entendem o que está escrito porque são feitos por quem tem uma carga acadêmica maior”, afirma Adriane Assis, coordenadora de comunicação da Movimentação Juventude Negra Política.

Os coletivos de juventude negra na capital mineira

Criada em 2019, a Movimentação Juventude Negra Política tem como objetivo transferir ferramentas cívicas, sociais e de comunicação para jovens lideranças negras de Belo Horizonte. Através de formações e encontros para diálogos, ativistas negros pautam a incidência política, a ocupação proporcional de raça e gênero dos espaços de poder para o fortalecimento da democracia.

Em dezembro de 2020 surgiu a oportunidade de levar as construções e desejos do movimento para coletivos e agentes culturais da capital mineira. Por meio do edital lançado pelo Coletivo Delibera Brasil para compor o polo Decidadania houve a aprovação para criação de um Minipúblico sobre Políticas culturais em Belo Horizonte, momento em que começou a ser abordada a democratização de acesso aos recursos e editais de cultura na cidade.

Após os encontros do primeiro semestre deste ano, a organização dos movimentos de juventude negra de Belo Horizonte criou um documento que apresenta a pauta e está em discussão entre parlamentares como as vereadoras Macaé Evaristo (PT) e Iza Lourença (PSOL). A ideia é que haja um encaminhamento e implementação das propostas junto aos órgãos competentes, como a Secretaria de Cultura.

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“Nesse momento político em que vivemos, de retrocesso e sucateamento da área da cultura, o contato com parlamentares vem como uma tentativa de somar forças. Precisamos da ocupação de jovens negros em lugares de destaque além da base. Porque nós temos uma movimentação de pessoas com grande potencial nesses espaços de cultura e política, visto que somos um corpo político” completa Lidi Maria.

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