COTIDIANO / Quinta, 27 Mai 2021 18:27

ESPECIAL I Liberdade cerceada: Sequelas da pandemia na saúde mental de jovens negros

Distanciamento social, perda de parentes e amigos, incertezas sobre o futuro e a rotina reconfigurada pela crise sanitária mundial afeta o estado emocional de uma geração de adolescentes negros (as)

Texto: Caroline Nunes e Victor Lacerda | Edição: Lenne Ferreira | Imagens: Alma Preta Jornalismo 

Introdução:

Distanciamento social, perda de parentes e amigos, incertezas sobre o futuro e a rotina reconfigurada pela crise sanitária mundial afeta o estado emocional de uma geração de adolescentes negros (as)

Texto: Caroline Nunes e Victor Lacerda | Edição: Lenne Ferreira | Imagens: Alma Preta Jornalismo 

“Pega a arma!”, “Mata ele!”, “Olha ele ali!”. As falas de Kevin Júlio, de 19 anos, invadiram o sono da sua mãe, a empregada doméstica Vaneide Oliveira, 38. Para o alívio dela, que acordou asssutada, as frases foram proferidas pelo seu primogênito, que simulava uma emboscada contra um adversário em um jogo no celular. Com o distanciamento social, a presença no universo virtual foi intensificada e representa só um dos pontos de fuga dentro de uma realidade que impõe desafios inéditos para jovens negros e de baixa renda como Kevin a sua irmã, Kamilly Jeniffer, 13. Para além de um vírus que reconfigurou a rotina global, eles enfrentam os efeitos de uma nova dinâmica social na saúde mental. 

Residentes do Alto do Pascoal, comunidade localizada na Zona Norte do Recife, em Pernambuco, os irmãos Kevin e Kamilly tentam se adaptar a uma nova realidade desde o início da pandemia, há um ano. A presença constante em casa representa uma demanda emocional para a mãe, que busca entender o  ritmo e a personalidade de cada um. Foi preciso pensar em novas atividades para atenuar os efeitos do isolamento que mudou a rotina de ambos desde o início da pandemia. Dividir o carregador de celular, o som alto da TV e até o uso do fone de ouvido se tornaram pautas das discussões entre Kamilly e Kevin, segundo conta Vaneide. “Comecei a perceber conflitos entre eles, principalmente no que diz respeito aos eletrônicos, por ser uma forma de fugirem da realidade”, pontua. 

 

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Residentes do Alto do Pascoal, comunidade localizada na Zona Norte do Recife, em Pernambuco, os irmãos Kevin e Kamilly tentam se adaptar a uma nova realidade desde o início da pandemia, há um ano

Ativo nos jogos com os amigos à distância, foi no celular que Kevin, além de gostar de publicar fotos sobre seu dia a dia nas redes sociais, buscou se informar mais sobre a profissão que quer seguir pós-pandemia: barbeiro. A vontade de deixar outras pessoas mais bonitas e , de certa forma, cuidar, parece fruto de um sentimento que vem à tona quando Kevin fala sobre o que mais sente falta na relação das pessoas com a crise sanitária. “Não sou de assistir jornal, mas um dia desses vi que o Brasil se tornou uma ameaça global! A partir daí, entendi que, diante de toda essa situação triste e complicada, onde estava o amor pelo próximo?”, questiona. 

Vaneide demonstra orgulho e admiração quanto à nobreza da escolha profissional do filho em um período de tantas dificuldades. O olhar apurado de Kevin também se aplica aos assuntos cotidianos como o preço do gás, o aluguel, o aumento de itens básicos que iam à mesa para alimentar os três dentro de casa. A partir daí, o jovem passou a repensar sobre as obrigações dentro de casa e na sua participação para ajudar com os custos. Kevin, que está cursando o 9º ano do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), comprou um kit de bolsa, camisa, e itens de proteção e fez da bicicleta que usava para ir ao ‘muvucão’ (encontro de adolescentes para dançar o ‘bregafunk’ nas comunidades do Recife) instrumento para trabalhar como entregador de encomendas por aplicativo e ajudar na renda de casa. 

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Kevin, que está cursando o 9º ano do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA), comprou um kit de bolsa, camisa, e itens de proteção e fez da bicicleta instrumento para trabalhar como entregador de encomendas por aplicativo e ajudar na renda de casa

“Foi uma atitude dele, acredito que vendo a minha luta dentro de casa, né? Não tive como esconder a preocupação gerada pelo desemprego. Vejo que, na comunidade, as pessoas estão mais anestesiadas sobre a situação da pandemia por termos que enfrentar as dificuldades de acesso e maus tratos de uma forma geral, tanto por parte do governo, como de quem nos emprega. Acredito que ele viu isso e foi correr atrás”, relata a mãe, em tom de elogio. 

"Foi uma situação muito triste, saber do falecimento de um colega trabalhador e perceber que, ao mesmo tempo, as pessoas estão lidando com a doença como qualquer coisa. Quando soube, só queria ocupar minha mente", desabafa o jovem. 

Com uma rotina de entregas de quarta à sexta, das 18h até 00h, Kevin passou a ter uma interpretação diferente da pandemia. Ele relata a duplicidade que existe na realidade dos bairros mais nobres onde entrega comida e da rotina difícil dos colegas dos estabelecimentos em que trabalha. A diferenciação de cuidados e do recebimento, diante das realidades, de campanhas como “fique em casa”, confundiu a sua cabeça quando, recentemente, perdeu um colega que trabalhava como sushiman em um estabelecimento local vítima da Covid-19. "Foi uma situação muito triste, saber do falecimento de um colega trabalhador e perceber que, ao mesmo tempo, as pessoas estão lidando com a doença como qualquer coisa. Quando soube, só queria ocupar minha mente", desabafa o jovem. 

Saúde mental e relações virtuais

O aumento de casos de depressão entre adolescentes tem pautado estudos sobre o tema. Em tempos de pandemia, as consequências da reclusão influenciou num quadro de adoecimentos mentais que afetam adultos e , principalmente, os mais jovens. Dados fornecidos pelo Google indicam que houve alta de 98% nas buscas sobre angústia, ansiedade e depressão no ano de 2020 quando comparada aos 10 anos anteriores

Sem aula e com menos possibilidade de interações presenciais, incertezas sobre o futuro, falta de perspectiva, obrigações com despesas financeiras, insegurança alimentar, perdas de familiares acometidos pelo coronavírus são alguns fatores que impactam diretamente na na saúde mental de jovens negros em tempos de pandemia. A internet, os filmes ou jogos online, podem até servir de escape para crianças e adolescentes, mas, nem de longe, representam amparo em um momento tão desafiador para quem vive, principalmente, em áreas socialmente vulneráveis. A maioria tem a pele preta e está inserida num contexto de violências diversas. 

Outro fator agravante está relacionado ao fato deste grupo social ser considerado o mais vulnerável ao novo coronavírus. Maior exposição, devido ao adensamento de pessoas residentes nas regiões periféricas do Brasil, falta de saneamento básico, transporte público lotado e outros tipos de aglomerações inevitáveis contribuem para o aumento do contágio da população negra, o que inclui os adolescentes, normalmente assintomáticos, destaca o Ministério da Saúde. 

Informações do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) ressaltam as diferentes mudanças familiares, as demandas escolares em um novo cenário de aprendizagem, a perda de intimidade em muitos casos e a introdução abrupta de novos hábitos. Mesmo com a flexibilização da quarentena, tudo isso ainda representa um grande desafio, principalmente para adolescentes negros. O estudo aponta essas dificuldades somadas à falta de equipamentos necessários para estudar, como celulares e computadores, e acesso à internet.  

"É tudo muito diferente até no sentido de prestar atenção, sabe? Não tem a luz da sala, as amigas para trocar ideia. No ensino pelo celular, é só o professor falando por horas e isso atinge não só a mim, mas a sala toda", relata Kamilly. 

No sétimo ano do ensino fundamental, a jovem Kamilly passou a ter aulas à distância. Sem computador, divide o celular entre uma ferramenta usada para conversar com as amigas, tirar fotos e editar vídeos para o ‘TikTok’, como também utiliza de instrumento que a ajuda a dar conta dos conteúdos e avaliações. O uso para os afazeres diários parece não agradar Kamilly, que admite ter tido queda no rendimento escolar depois do isolamento social.

“É tudo muito diferente até no sentido de prestar atenção, sabe? Não tem a luz da sala, as amigas para trocar ideia. No ensino pelo celular, é só o professor falando por horas e isso atinge não só a mim, mas a sala toda. Por exemplo, os resultados que saíram das avaliações recentemente não trouxeram notas boas para a maioria da sala. Só em geografia que a média aumentou, o resto ficou tudo na média 6,0”, conta a jovem. 

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Sem computador, divide o celular como uma ferramenta usada para conversar com as amigas, tirar fotos e editar vídeos para o ‘TikTok’, como também o utiliza de instrumento que a ajuda a dar conta dos conteúdos e avaliações

Segundo a mãe, Kamilly passou a dormir ouvindo as aulas, em recuperação e com o rendimento defasado. Como tentativa de ter um apoio, passou a assistir às aulas com a filha para tentar entender como ajudá-la no novo processo. A adolescente também recebe ajuda do irmão. “Quando estou em casa, fico esperando a aula dela terminar para ela me dizer um resumo do que foi, tentando fazer com que ela lembre. Na maioria das vezes, não sabe. Pela falta de interesse em ficar apenas ouvindo o professor, ela dorme ou dispersa com outras coisas de casa”, conta Kevin.

De acordo com o ensaio divulgado, em maio de 2020, pela Revista da Associação Brasileira de Ciência e Saúde Coletiva, é possível observar que a adolescência é uma fase de transição para a idade adulta, em que os grupos tendem a assumir um maior protagonismo em uma rede que potencializa as trocas relacionais entre os próprios pares, no processo de construção de um novo rol social. 

A pesquisa mostra que o excesso de telas e contato apenas por meio virtual pode acarretar problemas para a saúde mental dos adolescentes, em especial, os negros, que já possuem uma vivência mais tensionada pela falta de estrutura socioeconômica. A pressão de ter que estar presente e ativo nas atividades escolares - dentro do modelo de ensino remoto - também é um fator agravante para os adolescentes negros. Para o psicólogo com ênfase em crianças e adolescentes e ativista em Direitos Humanos no Recife, Itamar Sousa, a tentativa da mãe de Kamilly de acompanhar as aulas é um primeiro passo para o entendimento do que cada jovem sente neste momento. 

“Para além do exercício da minha profissão, também sou pai, e por vezes não entendia a ligação do meu filho com redes sociais, como o ‘TikTok’, que foram feitas para dialogar com jovens da sua geração. Mesmo não entendendo o real propósito e não me apetecendo, tive que entender que as redes sociais acabam assumindo um papel de fonte daquilo que não se é conversado dentro de casa e que muitos pais ainda não pensaram sobre como abordar. É uma relação direta de informação, à medida que trazem números  e novas possibilidades de relações para os adolescentes”, explica o especialista. 

Por enquanto, Kamilly não pode mais ir ao shopping, ir ao show de Anitta com a tia, na piscina e na praia, as redes sociais ajudam a acompanhar o que viralizou entre as amigas e as influencers que a adolescente acompanha, o que também pode gerar ansiedade. Hoje, além das fotos, Kamilly destina parte de seu tempo para aprender novas coreografias, publicar nas redes e espera ansiosa os likes e comentários de amigas e usuários que não conhecem pessoalmente. 

O psicólogo Itamar Souza afirma que a rede social traz expectativas sobre novas realidades para jovens. O especialista salienta que ao mesmo tempo que os pais se preocupam com o tempo de uso, é possível questionar qual outra atividade eles estariam fazendo, em contexto de pandemia, se não fosse aquilo. 

“Para além da crise que estamos passando, na periferia, é comum o exercício da coletividade e a força que se tem no que falamos de viver, de fato, o bairro onde se mora. Os aplicativos de relacionamento acabam por suprir esse papel, enquanto uma possibilidade de acesso a novos lugares e de estar em contato com a bolha de amigos. O que de mais atrativo poderia suprir?”, questiona. 

O suporte psicológico ajuda a entender os processos que afetam diretamente a saúde dos jovens. Mas, para moradores de regiões periféricas e de baixa renda, o orçamento mensal mal dá para custear despesas básicas. Nesse contexto, serviços como psicoterapia são quase inacessíveis para o perfil socioeconômico de famílias como a de Vaneide. Desempregada e única responsável pela subsistência dos dois filhos, a empregada doméstica não tinha trabalho até o mês passado. 

O diálogo foi o caminho encontrado por ela para minimizar os efeitos do momento e fortalecer os laços familiares, algo imprescindível para o bem estar emocional familiar. “Conversei com eles que estava mais preocupada e diariamente tinha em mente o questionamento de como seria o dia de amanhã. A sinceridade sobre nossa situação acabou sendo uma forma de conhecer melhor meus filhos, tendo mais tempo com eles. Vi o respeito de ir à mesa nos almoços de domingos se estender”, avalia. 

Socialização mediada por telas

“Quem é mãe de adolescente sente os impactos diretamente. Ver o filho perdendo a adolescência, desmotivado e triste é uma maneira de compartilhar as angústias”, avalia a psicóloga judiciária Luciana Mattos, mãe de  Ana Gabriela, de 16 anos, e moradora do Piqueri, Noroeste de São Paulo.

Conforme relata a mãe solo, a fase da pandemia e o contato apenas virtual com os amigos e atividades escolares foram o estopim para as crises de ansiedade da filha. Luciana relembra que o momento decisivo que a fez perceber a necessidade imediata de amparo psicológico para a sua filha caçula foi durante uma apresentação escolar, quando ela começou a chorar copiosamente e de maneira ininterrupta.

“Esse contato constante de ter que interagir por meio de uma tela durante as apresentações escolares acarretou em uma crise. Ela ficou muito nervosa, fez a apresentação e depois começou a ter um colapso. Vi a cena e decidi que não era  possível adiar a terapia mais”, relata Luciana. 

Ana Gabriela, de acordo com a mãe, sempre foi muito ativa e acostumada a sair para realizar as mais diversas atividades, inclusive religiosas. Mesmo sem a aprovação inicial de Luciana, Gabi decidiu que gostaria de fazer parte de uma igreja, que proporciona eventos voltados para os adolescentes, como música, encontros semanais e dança - projeto que Ana Gabriela mais se interessou.

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Conforme relata a mãe solo, Luciana, a fase da pandemia e o contato apenas virtual com os amigos e atividades escolares foram o estopim para as crises de ansiedade da filha

Por ser engajada em causas sociais e políticas, Luciana sempre motivou o pensamento crítico da filha para questões relacionadas. A partir disso, Gabi, que se considera pouco autoconfiante, passou a se posicionar e a questionar os assuntos, inclusive na igreja. Para a mãe dela, não ser um adolescente alienado é uma faca de dois gumes. Além da mudança brusca na rotina, outro gatilho para a adolescente desenvolver um quadro depressivo foi acionado pela igreja que frequentava.

“Esse contato constante de ter que interagir por meio de uma tela durante as apresentações escolares acarretou em uma crise. Ela ficou muito nervosa, fez a apresentação e depois começou a ter um colapso. Vi a cena e decidi que não era  possível adiar a terapia mais”, relata a mãe, Luciana.

A adolescente relata que o núcleo religioso em que fazia parte passou a inibir debates que fossem contra o governo de Jair Bolsonaro (sem partido). “Diziam ‘aqui não é lugar de levantar bandeiras políticas’, ao mesmo tempo que falavam dele [Bolsonaro] com admiração. Qualquer um que fosse contra esses posicionamentos era condenado”, relembra a jovem.

Devido à discordância de Gabi aos posicionamentos da igreja quanto às causas sociais, raciais, de sexualidade, gênero e atuação do presidente frente à pandemia de Covid-19, uma reunião online foi feita. Vários líderes da igreja e membros foram convidados. A mãe de Ana Gabriela conta que o encontro tinha o intuito de pressionar a filha a concordar com a postura da igreja através do medo e da ameaça, o que fez a jovem chorar muito. Para Gabriela, o evento foi bastante traumático.

“O objetivo desse encontro era me dizer que eu estava em maldição por discordar. Foi horrível. Eles falaram por horas, me condenaram por eu pensar diferente. Minha mãe dizia para eu simplesmente desligar a ligação, mas eu ouvi até o fim. Chorei muito depois”, desabafa a adolescente.

O artigo “Religiosidade em Adolescentes de Diversas Regiões do Brasil”, do psicólogo Guilherme Machado Jahn, aponta o foco das religiões e espiritualidade como um fator de proteção, que pode promover reforços positivos no desenvolvimento dos adolescentes, ao ponto de fomentar uma identidade saudável ou engajamento social mais atuante. 

Esse engajamento, de acordo com o autor, pode ou não ser prejudicial para a saúde mental do adolescente, mas depende de quem ouve a mensagem, e não de quem emite. No caso de Ana Gabriela, o envolvimento com a igreja evangélica agiu como impulso para que ela pudesse se posicionar de acordo com suas crenças e pensamento crítico.

“O adolescente mais antenado pode sofrer mais e ponderar mais sobre essas questões, principalmente em um contexto de pandemia. Saber das questões políticas do Brasil causa sofrimento. Talvez o adolescente que não tenha contato com isso consiga lidar melhor. Ter consciência traz sofrimento, mas abre pontes”, avalia Luciane.

Jovens negros adoecem mais

Dados do Ministério da Saúde apontam que depressão, ansiedade, luto e propensão a vícios se mostram mais presentes entre jovens pretos e pardos. Segundo a pesquisa, a taxa de mortalidade nessa parcela da sociedade é considerada alta quando associada à saúde mental: 6 entre 10 suicídios são cometidos por adolescentes negros. 

Outros dados e pesquisas mostram que a população negra é a principal vítima da ótica eugenista e manicomial.  O destaque, ancorado na pseudociência, promove a manicomialização dos negros, considerados inferiores intelectualmente.  Uma realidade que tem origem na associação dos costumes dos negros à loucura e periculosidade.  É o que diz a Articulação Nacional de Psicólogas(os) Negras(os) e Pesquisadores (ANPSINEP).

Refletir sobre saúde mental em meio à pandemia em um país com a maior população autodeclarada preta ou parda fora do continente africano, exige compreensão de que a colonialidade propõe uma dinâmica psicológica de morte em vida, na qual a vida estaria submetida ao poder da morte, avalia a articulação. Professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), Guilherme Polanczyk, pondera que “a pandemia, e todo o contexto que a acompanha, têm gerado situação de estresse em crianças e adolescentes negros. O sofrimento deles fica mais despercebido, pois tendem a ser mais negligenciados”, diz o especialista.

Em São Paulo e no Brasil não existem políticas públicas voltadas à saúde mental que atendam exclusivamente a população negra, o que inclui os adolescentes. É possível encontrar exemplos pontuais. Recentemente, com o objetivo de minimizar os efeitos psicossociais da pandemia nos adolescentes em geral e também nos professores, o governo do Estado de São Paulo lançou o programa “Psicólogos na Educação”. A ação visa o atendimento de mais de 5 mil escolas da rede estadual e contempla 645 municípios. O programa vai prestar suporte aos alunos e profissionais e identificar as aflições que esses grupos sofrem no período de ensino híbrido e remoto. Cada escola tem o direito a 20 horas de atendimento semanal e em casos de necessidade, o programa encaminha o paciente (adolescente ou professor) para atendimento psicológico em Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município pertinente.

A prioridade é que os psicólogos e terapeutas focados em educação atuem em diversas atividades coletivas que possam contribuir com a melhora da saúde mental e também do ambiente escolar como todo. “É fundamental ter esse suporte psicológico para apoiar a saúde emocional dos profissionais de educação e dos alunos, o que pode garantir uma melhor aprendizagem e dinâmica de trabalho mais saudável”, destaca o secretário estadual de educação de São Paulo, Rossieli Soares, por meio de nota oficial. É possível que as escolas se inscrevam e agendem as visitas dos psicólogos conveniados ao programa pelo site da Secretaria Escolar Digital. 

Em nível nacional, a única política pública disponível para prestar auxílio psicológico durante a pandemia é por meio do telefone 188, pertinente ao Centro de Valorização da Vida (CVV). O programa fornece apoio emocional com o objetivo de prevenção ao suicídio e atende de forma gratuita todas as pessoas que precisam conversar de maneira sigilosa. Na pandemia, o número de voluntários que prestam serviço ao CVV diminuiu, de acordo com as informações do próprio centro, mas ainda é possível entrar em contato 24h por dia, via telefone, ou chat de atendimento, com horários variados.

“Essa incerteza do amanhã é uma das piores partes”

Ana Gabriela relata que o encontro virtual com os membros da igreja, somado à insegurança, distância dos amigos e impossibilidade de sair devido à pandemia começaram a fazê-la questionar sua saúde mental. 

“Muita coisa é difícil na pandemia, mas essa incerteza do amanhã é uma das piores partes. Vou perder meu ensino médio inteiro dentro de casa, e essa era uma fase que eu tinha expectativa desde criança”, relata a adolescente. 

Gabriela explica que a psicoterapia, iniciada em fevereiro, tem sido importante para que ela possa se autoconhecer e ganhar autoconfiança. O processo terapêutico também a ajudou a se descobrir enquanto uma adolescente negra. 

“Essa descoberta de ser uma negra de pele clara tem me ajudado a criar a minha própria identidade. Eu saí daquele limbo de ‘você não é negra, nem branca. É morena, parda, indefinida’. Além disso, o processo me aproxima de pessoas que se parecem comigo e aumenta a sensação de que não estou sozinha”, pondera. 

A psicóloga e fundadora do projeto Reinserir, Natália Silva, avalia que é urgente a abordagem racial na psicoterapia. Para ela, é essencial que os profissionais da saúde mental busquem por formação política e social para conseguir alcançar determinados recortes que aparecem na clínica. 

“Não se pode generalizar as demandas de pessoas negras nos atendimentos. Quando uma pessoa negra traz demandas de aparência, ela está falando também de racismo, não só de autoestima. Não entender tais demandas e singularidades é reproduzir a violência do Estado. Muitos pacientes dizem que já tentaram estar em outros serviços, mas se sentiram violentados quando tentavam levar questões de racismo ou LGBTfobia”, destaca a profissional.

O Grupo Reinserir presta auxílio psicoterapêutico a preços populares para pessoas negras, periféricas, comunidade LGBTQIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, transgêneros, queer, intersexuais e assexuais) e os ajuda na inserção ao mercado de trabalho. O projeto fica em São Paulo e o atendimento durante a pandemia ocorre online.

Atendimento psicossocial para jovens negros (as) está muito longe de ser uma constante nas áreas periféricas do Brasil. Para a maior parte dos adolescentes que integram famílias de baixa renda, fazer terapia é algo inacessível. Em Pernambuco, Vaneide, a mãe de Kevin e Kamilly, ficou sabendo recentemente que há a possibilidade dos três serem acompanhados através do Sistema Único de Saúde (SUS), por um encaminhamento feito por um clínico geral para um psicólogo ou psiquiatra. Diante de outras demandas diárias, a empregada doméstica tenta encontrar tempo para o acompanhamento para ela e os filhos.

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