COTIDIANO / Quinta, 22 Abril 2021 15:31

Pandemia afeta mais a saúde mental e financeira de jovens negros e não cis, revela pesquisa

Estudo inédito realizado pela Escola Livre de Redução de Danos identifica fatores sobre consumo de drogas e impactos do isolamento social; efeitos estão associados à desigualdade racial no acesso à renda

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Carol Morena

Jovens negros e não cis são os mais impactados sobre uso de substâncias durante isolamento social, revela pesquisa
Introdução:

Estudo inédito realizado pela Escola Livre de Redução de Danos identifica fatores sobre consumo de drogas e impactos do isolamento social; efeitos estão associados à desigualdade racial no acesso à renda

Texto: Victor Lacerda / Edição: Lenne Ferreira / Imagem: Carol Morena

Um levantamento nacional realizado pela Escola Livre de Redução de Danos demonstrou o comprometimento do quadro de humor/vigor e recrudescimento das desigualdades sociais. A entidade, que promove o fortalecimento dos Direitos Humanos para pessoas com dependência química em Pernambuco, realizou uma pesquisa inédita, que a Alma Preta Jornalismo teve acesso em primeira mão, e revelou: pessoas negras, jovens e de identidade não cis são as mais afetadas pelos impactos da pandemia na saúde mental e renda. 

O estudo mapeou a desigualdade entre rendas quando comparadas à raça/cor e a identidade de gênero das pessoas. “A desigualdade entre as rendas de acordo com raça/cor foi observada tanto antes quanto depois da (primeira onda da) pandemia (...) O impacto da redução de renda foi influenciado pela identidade de gênero (cis gênero e pessoas não cis”, informa um trecho do relatório. Pessoas negras e pardas somaram 38,8% dos questionários. Ao todo, participaram da pesquisa 1.336 pessoas de todas as regiões do País, com prevalência do Nordeste (53,6%) e Sudeste (34,7%). 

 

O estudo propõe que a desigualdade entre as rendas, quando comparadas à raça/cor e a identidade de gênero, é fator principal na frequência de uso de drogas. De acordo com estatísticas apresentadas pelo levantamento, 38,8% dos questionários, pessoas pretas e pardas, apresentaram aumento no quadro de vulnerabilidade social durante a pandemia. O percentual de pessoas ‘cis’ com renda mensal de até R$ 600 aumentou de 16,9% para 29,6%, enquanto a parcela de pessoas ‘não cis’ mais que duplicou de 17,6% para 38,8%, indicando, também, maior vulnerabilidade. 

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De acordo com o pesquisador da Escola Livre e psicólogo, Rafael West, a amostragem serviu de indicativo que as condições mentais da população negra estão ligadas à falta de estrutura diária e às desigualdades no acesso a emprego, por exemplo. “Apesar de não identificarmos aumento expressivo no diagnóstico de doenças psíquicas e de dependência, podemos entender que as condições de subsistência, principalmente as da população negra, têm a ver com os quadros estudados. Nuances de um processo histórico escravocrata que atinge a mesma população com a desigualdade social, como o desemprego, a fome, o crescimento de moradores de rua, fatores determinantes para alterações na saúde mental”, afirma West. 

O pesquisador ainda ressalta que problemas antigos relacionados à desigualdade social se tornaram mais visíveis e determinantes para um efeito mais devastador das consequências da pandemia. “Apesar das condições adversas da pandemia, temos percebido até em outras pesquisas usadas como comparativos que não houve aumento de diagnósticos de doenças mentais ou quadros de dependências entre esses jovens durante o isolamento, porém, podemos identificar a continuidade do protagonismo deste perfil nos quadros estudados. A falta de proteção social do governo e a falta de políticas direcionais acabam por manter o adoecimento mental. Hoje, temos agravantes como o desemprego, pessoas em situação de rua e com fome - com mais da metade da população em estado de insegurança alimentar -, pessoas que já lidam com a vulnerabilidade social do país, em sua maioria, negras”, complementa.  

Com 76 páginas, o relatório final da pesquisa concluiu que “os impactos da pandemia de Covid-19 sobre a saúde mental serão um desafio contemporâneo para a sociedade brasileira, e ações de redução de danos devem compor entre as estratégias para a recuperação dos efeitos desta grande tragédia social e sanitária, principalmente entre usuários com padrão de uso frequente de álcool, cigarros e sedativos”. Realizado entre os dias 25 de abril e 18 de maio de 2020, o estudo com maiores detalhamentos está com publicação prevista para maio e poderá ser acessado por meio do portal da Escola Livre de Redução de Danos

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