COTIDIANO / Quarta, 24 Fevereiro 2021 09:13

Jovem negro com deficiência intelectual, preso por reconhecimento irregular, será solto hoje

Marcos Vinícius foi preso e espancado por policiais militares que o acusaram de roubar um motorista de aplicativo; família contesta a versão e diz que o rapaz estava em casa na hora do suposto crime

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Acervo Pessoal

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Introdução:

Marcos Vinícius foi preso e espancado por policiais militares que o acusaram de roubar um motorista de aplicativo; família contesta a versão e diz que o rapaz estava em casa na hora do suposto crime

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Acervo Pessoal

Aos 19 anos, Marcos Vinicius nunca ficou longe da mãe Maria José. A sua socialização e independência começou tardiamente por conta de uma deficiência intelectual e uma deficiência física na perna. No dia 3 de fevereiro, o rapaz negro foi preso e espancado pela Polícia Militar acusado de participar de um assalto. Após 21 dias detido, a justiça emitiu um alvará e ele deverá ser solto. A família prepara uma festa para recebê-lo.

De acordo com a família, a idade mental do rapaz é a de uma criança de oito anos. Recentemente, ele começou a fazer sozinho pequenas distâncias no bairro onde mora em Diadema para ganhar autonomia. Um desses trajetos que ele fazia sozinho era da casa onde morava com a mãe até a casa de um irmão, a caminhada levava cerca de dez minutos.

“Ele é um inocente que não faz mal a ninguém. Sempre foi tratado com muito carinho e proteção”, conta a irmã Renata Souza Santos, de 35 anos, em entrevista à Alma Preta. Vinicius toma uma medicação de 12 em 12 horas para evitar severas convulsões e é o caçula de seis irmãos.

Para a polícia, o jovem é um criminoso perigoso e violento que assaltou um motorista de aplicativo. No boletim de ocorrência, ele foi acusado de estar armado e com um celular roubado, de acordo com os policiais. Além disso, ele teria confessado a participação no crime. A família discorda dessa versão.

“É tudo uma grande mentira. Um parente nosso viu a prisão e avisou a minha mãe. Outras testemunhas viram ele apanhando da polícia. Na delegacia, o delegado disse que não era preciso de advogado. Daí fizeram o boletim do jeito que eles queriam”, lembra a irmã.

O celular que estava com Vinícius pertence a ele mesmo e a família tem até a nota fiscal. O outro aparelho, que seria fruto de roubo, não consta como prova material no inquérito. "A primeira parte da questão foi resolvida e ele vai responder ao processso criminal em liberdade. Vamos trabalhar para mostrar as provas de defesa dele que já constam no processo", explica a advogada Michele Magarotto, que defende o rapaz.

A prisão do jovem foi baseada no reconhecimento da vítima, de acordo com características físicas, porém, não há referências à deficiência que o faz mancar. “A minha mãe até tirou ele da escola porque os outros alunos faziam brincadeiras e gozações com jeito dele de andar”, recorda a irmã. Renata relata ainda que no momento do suposto assalto Vinícius estava em casa. “Ele saiu para ir buscar uma chave que tinha esquecido na casa do nosso outro irmão”, conta.

Nos 21 dias em que ficou preso, em Diadema e no Centro de Detenção Provisória do Belém, na zona Leste, o rapaz não pôde ver a mãe ou qualquer outro parente. “A gente nem sabe se estão dando o remédio para ele. Mandamos o medicamento e a receita, mas não sabemos. Minha mãe está desesperada”, desabafa a irmã.

A família prepara uma festa para o reencontro com o rapaz. “Foi uma grande injustiça. Ele ficou mais de 20 dias preso sem motivo algum”, complementa Renata.

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