COTIDIANO / Sexta, 09 Abril 2021 16:59

Jovem com deficiência intelectual tenta comprar leite em mercado e leva tiro na boca

O policial à paisana que atirou no jovem de 20 anos o acusou de roubo; versão de testemunhas do caso é diferente 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Acervo Pessoal

Jovem com deficiência intelectual tenta comprar leite em mercado e leva tiro na boca
Introdução:

O policial à paisana que atirou no jovem de 20 anos o acusou de roubo; versão de testemunhas do caso é diferente 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nataly Simões I Imagem: Acervo Pessoal

Tiago Duarte de Souza, de 20 anos, tentou entrar no Mercado da Praça, no Jardim Limoeiro, na Zona Leste de São Paulo, para comprar um litro de leite na manhã da quinta-feira (8) e foi abordado por um suposto policial à paisana (sem uniforme). O jovem negro, que tem deficiência intelectual, estava sem máscara, disse ao policial que iria entrar no estabelecimento apenas para comprar e levantou a camisa para mostrar que não estava armado.

Segundo testemunhas, o policial mandou Tiago deitar no chão e deu um tiro na boca dele. A bala saiu pelo lado de trás da cabeça do jovem. Tiago ficou deitado no chão, sangrando até que chegaram outros policiais e várias viaturas da Polícia Militar.

 

A família de Tiago mora em uma rua próxima ao supermercado. A avó do jovem disse que viu tudo e falou para o policial não atirar no neto dela, que estava imobilizado no chão. O policial que atirou nele foi até o 49º Delegacia de Policia e afirmou ter agido em legítima defesa e que Tiago tinha a intenção de roubar o supermercado.

As imagens feitas por moradores e pessoas que estavam perto do mercado mostram que Tiago usava uma camiseta vermelha, bermuda e chinelos. “Ele fazia tratamento com psicóloga e psiquiatra no Hospital das Clínicas. Ele não guarda as coisas na cabeça, não sabe dizer o nome dos pais completo, endereço, nada disso. Não sabe ler e nem escrever. Ele tem 20 anos, mas é como se não tivesse. A idade mental dele é outra”, conta Queli Duarte, mãe de Tiago.

De acordo com a mãe do jovem, os policiais que chegaram no local após o ocorrido não apuraram a história contada pelo homem que atirou no filho dela. ”Eles foram lá e pegaram as imagens das câmeras de segurança do mercado. O próprio policial que atirou no meu filho foi até o hospital para ver se ele estava vivo”, conta.

Segundo testemunhas, Tiago não estava armado. "As pessoas estão com medo de falar porque têm medo da polícia", acredita a mãe da vítima.

Nas imagens feitas por testemunhas aparece o policial que atirou nele.  O homem está com um moletom branco, calça jeans escura e tênis azul. Na mão direita ele segura uma arma. 

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Foto: Reprodução

Jovem está internado em estado grave

Tiago foi levado para o Hospital Geral de São Mateus, também na Zona Leste, onde foi atendido e permanece internado em estado grave de saúde e sob escolta policial. Na manhã desta sexta-feira (9) a mãe de Tiago foi até o 49º DP para contestar a versão dos policiais sobre o caso, mas disse que não foi ouvida, porquê não tinha nenhum delegado de plantão. 

A Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo vai acompanhar o caso e fez um encaminhamento de "conhecimento e providências" para a Corregedoria da Polícia Militar e para o Departamento de  Polícia Judiciária da Capital.

"A atitude do policial de pisar no pescoço do jovem já dominado é contrária aos protocolos da corporação. Estou requisitando à Polícia Militar que afaste imediatamente o responsável pela atitude condenável dos trabalhos nas ruas pelo menos até a conclusão das investigações", considera o ouvidor Elizeu Soares Lopes.

A Alma Preta procurou a Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado de São Paulo para saber mais detalhes sobre o registro da ocorrência e a investigação do caso.  Em resposta, a secretaria informou que o caso está sendo investigado e confirmou que Tiago foi autuado por porte ilegal de arma.  Não houve resposta para as perguntas sobre o homem que atirou no rapaz.  Na nota, a SSP diz que "diligências e oitivas estão em andamento para o cabal esclarecimento dos fatos".

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