COTIDIANO / Segunda, 02 Agosto 2021 09:52

Cinemateca: produções cinematográficas negras podem ter sido perdidas em incêndio

Abandono do prédio e do acervo por parte do Governo Federal já era denunciado antes mesmo do incêndio; produções protagonizadas por atores negros como Benjamin de Oliveira, Grande Otelo e Zezé Motta podem ter sido perdidas 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Reprodução

prédio da Cinemateca pegou fogo dia 29/7
Introdução:

Abandono do prédio e do acervo por parte do Governo Federal já era denunciado antes mesmo do incêndio; produções protagonizadas por atores negros como Benjamin de Oliveira, Grande Otelo e Zezé Motta podem ter sido perdidas 

Texto: Juca Guimarães I Edição: Nadine Nascimento I Imagem: Reprodução

O incêndio de proporções gigantescas que atingiu um galpão da Cinemateca Brasileira, na Vila Leopoldina, em São Paulo, na última quinta-feira (29), pode ter destruído o material restaurado do filme 'Xica da Silva', estrelado por Zezé Motta. Lançado em 1976 e restaurado em 2011, exatos 10 anos, a obra completa 45 anos em setembro. Para além do longa, o incêndio pode ter atingido parte significativa do legado do protagonismo negro no audiovisual.

“Pode ter sido perdido os registros do grande Benjamin de Oliveira, o primeiro ator negro do cinema. Além de cenas espetaculares do Grande Otelo, que fez dezenas de filmes famosos. E tem também a participação da atriz Cléa Simões, na novela ‘O Direito de Nascer’, um grande sucesso no final dos anos 70. É fundamental que se dê conta e preserve melhor a história dos negros no cinema ”, afirma o ator Wilson Rabelo, 63 anos, que atuou em diversos filmes, entre eles Bacurau (2019).

Nas redes sociais, a atriz e cantora Zezé Motta também lamentou o caso. “Perdemos 60 anos de história, toda a memória da política pública de apoio ao cinema. Além do patrimônio material, quatro toneladas de documentos históricos, cópias de filmes e objetos, perdemos nossa história, nossa cultura. Até quando esse descaso? A cultura arde em chamas no nosso país, não é de hoje. Parte da história do Brasil viraram fumaça. É lastimável”, lamentou a atriz que ficou eternizada no papel de Xica da Silva. 

A Cinemateca Brasileira foi criada em 1940 para preservar a história do cinema nacional e possui o maior acervo de 'imagem em movimento' da América Latina e é uma das maiores instituições do gênero do mundo. As chamas consumiram cerca de quatro toneladas de material, entre filmes, documentos e gravações caseiras que estavam no galpão da Vila Leopoldina. Este acervo já estava desfalcado por conta de uma inundação que ocorreu durante as fortes chuvas de fevereiro de 2020. O contrato da empresa responsável pela conservação e catalogação das obras da cinemateca tinha sido encerrado no final de 2019.

O galpão estava fechado desde agosto de 2020 enquanto aguardava que o governo federal, responsável pelo órgão, fizesse a licitação para contratar uma nova empresa para fazer a gestão do acervo. Em nota, o MPF-SP, afirma que acompanha de perto as consequências do incêndio e “estão sendo constatados os prejuízos”.

Em 15 de julho do ano passado, o MPF-SP entrou com um pedido de ação civil pública com medidas urgentes sobre a preservação do material arquivado na Cinemateca. O pedido foi negado pela justiça e, em agosto, o órgão entrou com um recurso no Tribunal Regional Federal da 3ª região, responsável por São Paulo e Mato Grosso do Sul. Essa decisão saiu em dezembro de 2020, acatando parcialmente as recomendações dos promotores.

O coordenador da Defesa Civil de São Paulo, Rubens Trapiá, que entrou no prédio após o incêndio comentou, em reportagem do programa Fantástico da TV Globo, que viu uma cena de abandono com muito material empilhado, de forma desordenada, no chão.

"Funcionários denunciaram o abandono da instituição. E nada foi feito. Uma parte da memória da nossa história pode se acabar em meio as cinzas. E é a crônica de uma tragédia anunciada. E isso depois de, em 2018, o Museu Nacional ter sido destruído. Ainda tenho na memória a imagem de tamanha perda. Qual o valor da nossa memória, da nossa história, das nossas produções? Como não ficar indignado com tamanho descaso com a nossa história e patrimônios?", também se posicionou o ator Lázaro Ramos em suas redes sociais.

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