Herdeiros do “podrão”, negócios de fast food crescem nas periferias

No Rio de Janeiro, crias de comunidades diversificam opções e usam internet e boca a boca para oferecer de hambúrguer artesanal a costela ao molho barbecue

Texto: Edda Ribeiro, especial para Alma Preta e para O Joio | Imagem: Reprodução

fast food
Introdução:

No Rio de Janeiro, crias de comunidades diversificam opções e usam internet e boca a boca para oferecer de hambúrguer artesanal a costela ao molho barbecue

Texto: Edda Ribeiro, especial para Alma Preta e para O Joio | Imagem: Reprodução

Do famoso “podrão”, tradicional lanche do Rio de Janeiro, moradores de favelas e áreas periféricas partiram para outras empreitadas na alimentação. Franquias ou pequenos comércios, as crias estão cada vez mais servindo produtos por meio de iniciativas locais. Hambúrguer artesanal, cachorro quente e costela ao molho barbecue são produzidos diariamente, e no Ifood, nas redes sociais ou no boca a boca, conquistam mais ainda o público das comunidades.

O maior incentivo foi o desejo de uma “experiência diferente”. No Complexo do Alemão, Raphael Machado e Renê Silva criaram o RBurguer e conquistaram a comunidade, além das favelas ao redor. “Aqui no Complexo não tinha nenhuma hamburgueria artesanal na época, só essas tradicionais”, conta Machado.

Os pedidos chegam online, principalmente pelas redes sociais. No Facebook, a lanchonete conta com 1.414 seguidores e posta regularmente as novidades dos lanches. Cheddar Crispy, Nefasto, Madrugadão, KingSize, Dogão e outros sanduíches compõem o cardápio e chegam a localidades como Ramos, Bonsucesso, Olaria, Inhaúma, Del Castilho, Penha, Vila da Penha, Higienópolis, Cachambi, Maria da Graça e Engenho da Rainha, todos na Zona Norte carioca.

“Temos muitos pedidos do (Complexo do) Alemão, da Penha, e a recepção foi muito boa, graças a Deus. A gente acredita muito na qualidade”, diz ele. Machado conta que valoriza o trabalho com boas marcas e que molda a carne diariamente. O pão é fornecido por uma padaria que está dentro do próprio Complexo.

Com a crise gerada pela pandemia, tio e sobrinho tiveram que demitir funcionários, mas agora as atividades começam a voltar normalmente, pelo que ele percebe. “Muita gente vem pelo boca a boca. Vamos começar a expandir a hamburgueria e atender em outros locais também.”

Apesar de criar novas oportunidades de negócios e empregos, o crescimento do consumo de alimentos ultraprocessados e de fast food no Brasil vem gerando índices alarmantes de saúde pública. Mais de um quarto da população brasileira (26,8%) estava obesa em 2019 e 61,7% estava acima do peso, de acordo com a mais recente Pesquisa Nacional de Saúde.

A piora na qualidade da comida dos brasileiros, as doenças crônicas não transmissíveis (como diabetes e hipertensão) e as novas tecnologias voltadas à alimentação são temas recorrentes no Joio, e as novas relações entre esses três fatores, no que vem sendo chamado de ambiente alimentar digital, vêm sendo alvo de estudos.

Outbeco Kookaburra

Prato Kookabura, servido no Outbêco, na Rocinha. Foto: Reprodução

“Você não leu errado”

Aos 46 anos, Daniel Félix, morador da Baixada Fluminense, planeja chegar com seu negócio a todas as comunidades do Rio. Ele é o criador do novo Outbêco, criado em agosto. A ideia, referência ao restaurante norte-americano Outback, veio em uma reunião de franqueados, onde Félix ouviu, surpreso, o questionamento pejorativo de um dos empresários: “Imagina o teu povo aqui?”. Para ele, naquele momento da provocação foi plantada uma semente.

Em 6 meses, o Outbêco conta com mais de 50 franqueados pelo Rio, em Costa Barros, Acari, Vila Cruzeiro, Fazendinha, Rocinha, Vila Kosmos e Parque União, entre outros. Há cerca de 30 funcionários nos setores de produção, marketing, logística, financeiro e franchising.

“Eu me lembro das pessoas vendo a placa, tentando ler ‘Outbêco’ e pensando em Outback. Um dos primeiros slogans era ‘você não leu errado’. As pessoas riem, outras ficam curiosas, e isso cria uma situação de empatia, que acho que foi o cartão de visita. Imagina uma população que nunca tem privilégios, é o povo de classe D e E. E recebem um produto tão de qualidade, tão bom. Caímos nas graças do povo”, diz o empresário.

“Pertencimento e orgulho”

Co-autora do livro “Publicidade Antirracista”, a mestre em Comportamento do Consumidor Renata Hilario vem observando iniciativas como a do Outbêco e vê que há mais do que o crescimento de uma tendência. “A construção de espaços e produções locais já é algo estabelecido nas periferias, inclusive no fast food. Além da necessidade de sobrevivência, combustível para o empreendedorismo nessas regiões, a população local enxerga valor e qualidade nos produtos e serviços locais, criando laços, sensação de pertencimento e orgulho de suas origens”, explica.

O menu do Outbêco não deixa nada a desejar diante do cardápio oferecido pela rede criada na Flórida. Os pratos conhecidos da franquia dos EUA são oferecidos também no cardápio criado por Félix, “com conhecimento dos criadores originais”, comenta.

O famoso Ribs on the Barbie chega quentinho na casa dos clientes – a conhecida costela com molho barbecue acompanhada de fritas; as cebolas empanadas, chamadas Onion Rings; e a Kookaburra, porção de asas de frango com vários opções de molho. “Não somos concorrentes do Outback. Seria uma grande besteira achar que podemos lidar com uma franquia que trata de milhões. O nome se trata mais de uma homenagem, pois lá é muito bom, é muito gostoso comer e estar lá”, avalia Félix.

Para o dono da lanchonete, “é quase inverossímil” ter, numa comunidade que é maltratada, esquecida, deixada de lado, um produto que costuma ser de classe A e B, as mais ricas. Além disso, as pessoas veem um produto por um preço acessível”.

Uma das franqueadas do Outbêco na Rocinha, Priscila Nascimento, conta que a família deu um salto: o marido, ex-presidiário, mesmo com formações de soldador e bombeiro civil, não conseguia oportunidades, a não ser como entregador. Trabalhando 12h por dia, a renda de R$ 120 não era suficiente para o sustento da família, e então ela resolveu tentar se associar à franquia. Ela recorreu a uma amiga para poder entrar no negócio usando seu cartão de crédito.

“Não tinha nada planejado, apenas disposição e pensamento de ajudar meu marido”, afirma. “O Outbêco foi criado para as comunidades. A gente tem vários fast food por perto, mas onde estou este é o único Outbêco. Não pode ter outro”, explica. “O Outbêco veio para aqueles que não têm condição financeira de ir ao Outback”, defende a empreendedora.

Em cada localidade só pode haver um restaurante, para evitar a concorrência entre os franqueados. Priscila conta que o maior desafio foi não conhecer muito bem a vizinhança na Rocinha e usar todo o dinheiro que conseguiu para pagar o empréstimo da amiga nos primeiros meses. Hoje, ela comemora a integração da sua franquia ao Investe Favela.

Criado em 2019, é um fundo de investimentos de capital empreendedor, que atua por meio de lideranças e empreendedores locais das favelas. A proposta consiste na potencialização desses empreendimentos para que eles sejam os próprios agentes de transformação e impacto. Um dos ramos de atuação é o da alimentação.

“A implementação de franquias também está sendo recorrente nas consultorias estratégicas por aqui. Os empreendedores desse segmento estão, em sua maioria, contratando mão de obra local, tanto para a execução quanto para as entregas, por exemplo”, afirma a diretora executiva do Investe Favela, Liza Simões.

Uma moda: a sobrevivência

O casal Alípio Borges e Isabela Vianna começou um negócio em 2015 pela vontade de ter mais opções de consumo. “Fomos pedir hambúrguer artesanal na Zona Norte e não encontramos. Aí tivemos que ir para a Zona Sul da cidade, e não achamos justo o preço e nem se distanciar para comer um hambúrguer de boa qualidade. Pensamos em trazer algo com preço popular, digno de subúrbio e com a qualidade que todos merecem”, conta Borges. Assim nasceu a hamburgueria O Subúrbio, no bairro Abolição.

Nascido no Engenho Novo, ele conta que tudo começou com um food truck na Abolição – o primeiro da Zona Norte, segundo Borges. Além de algo que refletisse o que queria comer, seu cardápio traz uma mensagem de valorização da periferia: cada trio de hambúrguer, batata frita e refrigerante tem o nome de um bairro do subúrbio do Rio.

“A inspiração é viver 24 horas nos bairros da Zona Norte, área que corre pela nossa veia. As pessoas se sentiram representadas e identificadas com a loja porque antes, quando pensavam em hambúrguer artesanal, só pensavam em coisas muito caras e sofisticadas”, diz o empreendedor. “Com nomes tradicionais como Cascadura e Madureira, isso trouxe esse cliente para perto de nós.”

A hamburgueria tem outro diferencial: os pães coloridos. A novidade é feita com insumos como extrato de vinho e óleo de fígado, entre outros. São mais de 10 variedades, algo incomum nos demais comércios da região. “Nossos hambúrgueres não são feitos somente com carne moída, são feitos de carne na panela de pressão, que fica desmanchando na boca!”, vende ele. “É um estilo totalmente diferente que só o subúrbio tem.”

Hoje a lanchonete tem três entregadores, e a concorrência só aumenta, segundo Borges. “A cada dia aparece uma hamburgueria artesanal pela redondeza. Isso é muito bom, pois deixa na cabeça do nosso cliente que isso veio para ficar e não é só uma moda.”

Mais do que moda, é sobrevivência, acrescenta Renata Hilario. A publicitária pondera que as pessoas conseguem juntar dinheiro e investir em um negócio de base popular sem muita estratégia nem direcionamento, mas que atende as necessidades do dia a dia, e com isso vão se consolidando nos mais diversos segmentos, inclusive no fast food local.

“Muitas vezes numa situação emergencial, sem emprego e expectativa, a opção é empreender. É fundamental não romantizarmos o empreendedorismo nessas situações de sobrevivência, já que muitas vezes é a única alternativa possível.”

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Hambúrger da lanchonete O Subúrbio, no bairro Abolição. Foto: Edda Ribeiro.

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