COTIDIANO / Quinta, 02 Dezembro 2021 17:38

Geane Santana, uma mulher negra no mundo das motos customizadas

Brasiliense constrói sua própria moto, participa de competição e mostra que mulheres negras podem estar onde quiserem

Texto: Thais Rodrigues | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Geane Santana/Arquivo Pessoal

Geane Santana, uma mulher negra no mundo das motos customizadas
Introdução:

Brasiliense constrói sua própria moto, participa de competição e mostra que mulheres negras podem estar onde quiserem

Texto: Thais Rodrigues | Edição: Nadine Nascimento | Imagem: Geane Santana/Arquivo Pessoal

Máquinas coloridas, rodas estilosas, o ronco do motor. A brasiliense Geane Pereira de Santana, 34, deixou o trabalho terceirizado no Departamento de Trânsito do Distrito Federal (DETRAN), para se dedicar a customização de motos e acessórios. Além de ser idealizadora da Morto de Fome, empresa que realiza pinturas em capacetes e outros equipamentos para motociclistas, foi uma das quatro mulheres brasileiras a participar da Build. Train. Race. (Construir. Treinar. Correr.), prova com motos customizadas realizada pela empresa multinacional indiana Royal Enfield.

A competição, destinada unicamente às mulheres, foi inédita no país e começou em Sorocaba (SP), no dia 2 de outubro. No último final de semana, dias 27 e 28 de dezembro, Geane expôs a moto que ela mesma construiu no autódromo de Interlagos.

Para participar da Build. Train. Race., Geane começou a construção da sua motocicleta a partir de um kit entregue pela Royal Enfield. Além de uma ajuda de custo para ajudar na customização, o kit consistia em uma moto estilo Interceptor 650cc e um escapamento esportivo. A ela coube a missão de completar a moto com toda a parte estrutural, elétrica, mecânica e pintura.

“Uma moto de corrida exige todo um preparo. Teve que trocar as rodas, montar novos aros, tirar os pneus e cortar o chassi, e fizemos alterações no câmbio, no guidão. Fabricamos uma ligação direta e tiramos todos os ítens que não são necessários para a competição, como pisca alerta, placa, etc”, explica.

A construção das peças aconteceu na oficina colaborativa Kluster Moto Hub, que fica na Asa Norte, em Brasília. Lá, os usuários têm acesso às ferramentas corretas, conhecimentos básicos ou avançados para qualquer pessoa que queira desenvolver seus próprios projetos.

Criando a sua própria moto

As motos customs vão além das cores e formas. A origem desse tipo de motocicleta está na Segunda Guerra Mundial, quando os soldados estadunidenses precisavam ter a habilidade de consertar seus veículos com os utensílios que estavam disponíveis no momento. Há, também, quem construa sua própria moto, fabricando peças de forma independente, sem contar com uma marca por trás.

As motos são construídas para atender a sua finalidade. Existem dezenas de modelos de motocicletas consideradas custom. As principais são scrambler, cafe racer, tracker, brat-bob, brat, chopper, American e European Bobber. Cada uma delas é destinada a um tipo de terreno, um peso, se é para viagens ou não, dentre outras funções.

Geane na oficina construindo a sua moto

Segundo os amantes da customização, qualquer motocicleta pode passar por uma personalização. Desde amarrar uma bandana no guidão, até transformar a moto por completo, motociclistas apontam que o veículo precisa atender às necessidades de quem o pilota.

Essa versatilidade é comum no mundo do motociclismo. Dessa forma, muitos modelos de motos, a depender do nível de personalização, podem se transformar em qualquer outro tipo. “Dá para transformar uma CG em uma cross para trilhas, depende do que se quer”, ressalta a competidora.

Uma mulher negra no motociclismo

Geane salienta que o mundo do motociclismo ainda é muito machista, e se vê em um ambiente onde ainda se deve quebrar muitos paradigmas e preconceitos. Ela conta que, como mulher negra, não teve nenhuma inspiração ou referência para seguir esse sonho.

“É muito raro ver uma mulher negra pilotando motocicletas. Não tive alguém para me inspirar. Ver alguém de moto e ver propagandas ou mulheres pessoalmente pilotando sempre me enchia os olhos de admiração”, afirma.

Ela acredita que suas experiências podem influenciar outras mulheres negras a entrar no mundo do motociclismo, pois “é um pouco raro de se ver mulheres negras neste ramo, ainda mais se for pro lado da customização”. Por meio da internet e redes sociais, ela divulga seu trabalho e mostra que mulheres negras podem ter o poder de escolher seguir seus sonhos.

“Ser mulher já é bem complicado por sempre estarmos tendo que provar algo pras pessoas. No caso da moto em si, é ouvir frequentemente: ‘Você que pilota essa moto?’, ‘Essa moto é sua?’ É entrar numa oficina com seu marido pra comprar algo e o vendedor se dirigir direto ao marido ao invés de você. É ter que provar que você é capaz de customizar uma moto e que aquilo ali foi feito por você”, diz Geane.

Empreender para seguir

Desde 2016, a empresa de Geane, a Morto de Fome, transforma utensílios para motocicletas em peças únicas por meio da pintura. Curiosamente, a loja iniciou seus trabalhos com o foco em materiais de cozinha. “A gente pinta, dentre outras coisas, xícaras, tábuas de carne e serrote. Depois que peguei o gosto pelas motos, expandimos o ramo para capacetes”, explica a motociclista.

A artista conta que já desenhava antes, mas fazia artes para banners, cartazes e outros materiais gráficos. Com o tempo, ela foi desenvolvendo uma técnica única e cheia de personalidade. O objetivo é deixar cada objeto, até mesmo os de uso rotineiro, com “a cara do cliente”. Foi então que ela começou a pintar capacetes para motocicletas. A Morto de Fome ainda personaliza aparatos para casa, mas a empresária tem expandido os seus horizontes.

“Estou começando a trabalhar em tanques de motos também. Para a moto que eu vou competir, fiz toda a personalização. Inclusive, precisei criar peças do zero”, explica.

Geane abdicou de uma carreira considerada estável e decidiu empreender para viver do que acredita. Ela conta que demorou muito tempo para tomar essa decisão. “Trabalhar durante anos com algo que pagava bem mas não me dava um retorno emocional positivo, foi com certeza um dos pontos fundamentais para começar a empreender e viver do motociclismo”, afirma.

A motociclista e empresária acredita que meninas e mulheres negras nunca devem duvidar do seu potencial. Além disso, a possibilidade de ocupar espaços vistos como exclusivos para homens é um desafio que exige foco e firmeza. “Somos mulheres, somos negras, somos fortes! Tudo parte do princípio de você acreditar que é capaz de ter ou ser algo. De resto o universo conspira a favor”, conclui.

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