COTIDIANO / Quinta, 01 Julho 2021 15:48

ESPECIAL | Quem inventou o empreendedorismo no Brasil?

O termo é recente, mas as empreendedoras negras existem desde a época do regime escravocrata; de quitandeiras a vendedoras de bolos, seja vivendo do que a terra fornecia ou produzindo queijo, o Brasil carrega as impressões digitais das mulheres negras 

Texto: Caroline Nunes | Edição: Lenne Ferreira | Imagem: Reprodução/Governo Estadual da Bahia

Introdução:

O termo é recente, mas as empreendedoras negras existem desde a época do regime escravocrata; de quitandeiras a vendedoras de bolos, seja vivendo do que a terra fornecia ou produzindo queijo, o Brasil carrega as impressões digitais das mulheres negras 

Texto: Caroline Nunes | Edição: Lenne Ferreira | Imagem: Reprodução/Governo Estadual da Bahia

"Essas ‘negonas’ não vivem à toa. Mandando fechado, tão sempre de boa. Não são empregadas, tão mais pra patroas. Enquanto os 'otários' caminham, elas voam". O trecho da música “Negona”, da cantora Negra Jaque, descreve o potencial  empreendedor das mulheres negras, consideradas raízes do trabalho feminino no Brasil. Último país do mundo a abolir o regime escravocrata, em 1888, o país nunca ofereceu condições dignas para essas mulheres, que, sem acesso à educação, precisaram criar suas próprias oportunidades. Antes mesmo da palavra "empreendedorismo" existir, elas já estavam à frente de pequenos negócios servindo de mantenedoras de famílias e comunidades negras. São as afroempreendedoras de ontem e de hoje. 

A CEO do projeto Plano Feminino - Consultoria, e presidente do Instituto Plano de Menina,  que auxilia garotas periféricas a investirem em empreendedorismo, Viviane Duarte explica que as empreendedoras negras ancestrais estavam sempre na luta por sustento, condições de vida dignas e, até mesmo, alforria. “Eram mulheres autossuficientes, fortes e criativas. Honrar nossas ancestrais é fazer valer suas vidas e não deixar que suas lutas tenham sido em vão. Vamos além e abrindo caminho para que as nossas meninas alcancem voos ainda maiores”, ressalta Viviane.

A História mostra que, em um contexto escravagista, a mulher negra demonstrou persistência nos mais diversos afazeres, sejam eles domésticos ou rurais. O comércio alimentício, como a fabricação de bolos, a colheita de frutos, e a produção de queijo no Brasil colonial trazem até hoje as impressões digitais das mulheres negras.

O artigo “Empreendedoras negras: as primeiras a começarem um negócio do zero”, do Blog Firgun, organização que promove o acesso de empreendedores de baixa renda ao crédito, relembra que, no Brasil do passado, as mulheres negras não tinham poder de escolha e todos os ganhos eram destinados aos seus senhores. Em raras ocasiões elas ganhavam uma quantia considerável, e conseguiam guardar parte do dinheiro para comprar sua liberdade. Com a abolição da escravatura, essas mulheres se tornaram as primeiras empreendedoras do Brasil, mesmo que a passos lentos.

A ausência de direitos trabalhistas, que só entraram em vigor dia 1º de maio de 1943, data em que foi promulgada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ocasionava diversas irregularidades no mercado de trabalho. As mulheres grávidas e crianças trabalhavam muito e recebiam os piores tratamentos e salários. Já as mulheres negras, principalmente, ocupavam cargos domésticos e informais na época da pós-abolição.

A partir da Constituição de 1988, marco que declarou a igualdade entre homens e mulheres com a finalidade de superar desigualdades de gênero e raça, principalmente no mercado de trabalho, as empreendedoras negras, que existem desde sempre, se apropriaram deste papel. As famosas quitandeiras, do período colonial, foram as primeiras pessoas a desenvolverem um negócio próprio no país. Essas empreendedoras negras souberam identificar oportunidades no mercado e utilizavam suas habilidades e recursos da terra para gerar ganhos e garantir seu bem viver.

Quitandeira em Salvador (BA), na época pós-abolição. | Créditos: Acervo/Governo Estadual da BahiaQuitandeira em Salvador (BA), na época pós-abolição. | Créditos: Acervo/Governo Estadual da Bahia

“Muitas vezes a opção de empreender para a mulher negra veio da falta de oportunidades no mundo corporativo - que ainda é extremamente míope e falho no que diz respeito à diversidade. Ela decide então apostar em seus talentos para sustentar sua família e realizar seus planos”, explica Viviane Duarte.

Empreendedoras negras da atualidade e a precarização do trabalho

A necessidade e a desigualdade social, citadas por Viviane, são fatores marcantes para as empreendedoras negras do Brasil. Uma análise, elaborada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) mostra que 44,5% dos afrodescendentes criam negócios para suprir a falta de emprego, e não por gosto, ante 28% dos brancos. A maioria dos empresários pretos ou pardos (54%) tem renda familiar de até dois salários mínimos, diante de 37,5% dos brancos.

Em contrapartida, as iniciativas Movimento Black Money, Inventivos, e RD Station realizaram a pesquisa “Afroempreendedorismo Brasil”. O estudo aponta que “o afroempreendedorismo é, em sua maioria, feminino, solitário e está fortemente ligado ao comércio, à comunicação e à indústria de cuidados”.

A doutora em História, professora e pesquisadora Marilea de Almeida, explica que, em um primeiro momento, é impossível separar os processos do capitalismo do racismo. Ela salienta que a transformação do corpo negro africano em mercadoria foi o que de fato contribui para que o capitalismo ganhasse força e que o empreendedorismo abraçasse as mulheres negras, que sempre estiveram à base da pirâmide social.

“O neoliberalismo, no nosso tempo, produz subjetividades e formas de vida. Uma dessas formas de precarização e desumanização, que outrora estavam estritas ao corpo negro, hoje se exprimem para além de pessoas negras. Surge então, o empreendedorismo, que reforça a ideia de que você não é bem sucedido é por que você não tem proatividade suficiente para construir sua riqueza ou subir na carreira”, avalia a doutora.

Inseridas no contexto da pandemia, as empreendedoras negras representam o grupo mais afetado no período, seja pela falta de emprego formal ou até mesmo por dificuldades de manter seus negócios pela precarização do trabalho, como afirma a doutora Marilea.

Uma pesquisa feita pelo Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, indica que pequenos negócios liderados por mulheres negras representam a maior proporção entre as empresas que ainda permanecem com a atividade interrompida. Os dados ainda afirmam que enquanto 36% das empreendedoras negras estão com seus negócios parados temporariamente, essa proporção cai para 29% entre as empresárias brancas e 24% entre os homens brancos (entre os homens negros, essa proporção é de 30%).

Referências e futuro das mulheres de negócios

A inspiração vem da própria raiz das empreendedoras negras e de suas trajetórias de sucesso na história, apesar dos entraves no caminho. Mulheres como Madame C.J Walker, que foi a primeira negra milionária nos Estados Unidos, não são mais importantes do que referências contemporâneas negras e brasileiras, como Ítala Herta, responsável pela fundação de uma escola de empreendedorismo para mulheres do Norte e Nordeste do Brasil.

A especialista Viviane Duarte destaca nomes como Eliane Dias, empresária do Racionais MC, Mylene Ramos, juíza e conselheira do Plano de Menina e Michelle Obama, como exemplos de força feminina e equilíbrio no mundo dos negócios. Ela ainda aconselha que as empreendedoras negras se mantenham firmes e sonhem em alavancar seus negócios, mesmo em meio às dificuldades.

Viviane Duarte, presidente do Instituto Plano de Menina e CEO do Plano Feminino - Consultoria | Créditos: DivulgaçãoViviane Duarte, presidente do Instituto Plano de Menina e CEO do Plano Feminino - Consultoria | Créditos: Divulgação

“Para obter sucesso é preciso muita resiliência, capacitação, rede de contato forte, um produto que entregue o que oferece ao cliente e trabalhar o marketing pessoal e da marca que está construindo. Saber precificar o produto e diversificar a cesta de oferta de um negócio também é muito importante”, pondera a presidente do Instituto Plano de Menina.

Viviane pondera ainda que além de tudo, cuidar da saúde mental e nunca se culpar, ou se comparar, são atributos essenciais para que as empreendedoras negras alcem voos mais altos. Já a doutora em História Marilea acredita que é necessário compreender a base do empreendedorismo a partir de também uma ótica feminista e com recorte de classe para ter ferramentas de compreensão do futuro.

“As mulheres negras e pobres sempre precisaram fazer ‘os corres’ para ampliar suas rendas. Isso nunca as tornou ricas. Então, a ideia do empreendedorismo, com a pauta do feminismo negro, que por tradição é crítico ao capitalismo, não pode ser uma régua para pensar em transformações da sociedade estrutural”, ressalta a historiadora.

As empreendedoras negras ainda têm um longo caminho pela frente, é fato, como aponta a pesquisa “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça” publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo recebendo menos da metade (44%,4) do salário dos homens brancos, elaas resistem e ousam tirar sonhos do papel. É essa perseverança que inspira e motiva outras Vivianes, Marileas e meninas atendidas por projetos sociais Brasil afora que buscam garantir mais acesso e oportunidade para elas.

Leia também: ‘Empreendedor negro familiar: desafios, insegurança e afeto em meio à pandemia’

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