COTIDIANO / Quinta, 08 Julho 2021 09:18

ESPECIAL | Como suas ancestrais, empreendedoras negras driblam dificuldades e criam as próprias oportunidades

Diferente das mulhers negras do passado, empreendedoras contemporâneas contam com ferramentas disponíveis na internet para projetar seus negócios e driblar a falta de capital 

Texto: Caroline Nunes | Edição: Lenne Ferreira | Imagem: Reprodução/Istock Photos

Introdução:

Diferente das mulhers negras do passado, empreendedoras contemporâneas contam com ferramentas disponíveis na internet para projetar seus negócios e driblar a falta de capital 

Texto: Caroline Nunes | Edição: Lenne Ferreira | Imagem: Reprodução/Istock Photos

Começar um negócio do zero e sem capital é um desafio para muitas mulheres negras que sonham em empreender no Brasil. Às vezes, o único caminho é acreditar no próprio sonho e usar o que se tem à mão, como a internet. Para dar o primeiro passo em busca de custear o próprio sustento e o da família, o uso das redes sociais têm sido uma estratégia eficaz para quem precisa chegar no público alvo e garantir a sustentabilidade do seu produto ou serviço. Se as mulheres negras do passado, amargaram as piores condições, as do presente se apoiam no mundo virtual para continuar alcançar estabilidade financeira. 

A coragem, somada à uma dose de talento e à vontade de resgatar a ancestralidade negra e feminina foram os fatores que levaram a bailarina afro Jéssica Maria da Silva, de 28 anos, a adotar a persona Jéssica Zarina - detentora da Zarina Moda Afro, ativa desde 2016. O nome escolhido para a marca reflete a personalidade expansiva de Jéssica e significa “mulher dourada”, em homenagem à figura de Oxum, orixá feminino cultuado em religiões afro que por meio de lendas - ou itãns - mostrou a inteligência da mulher em meio a qualquer adversidade.

“A empresa ainda não tinha nome no início, afinal, eu apenas revendia turbantes. Em uma visita a Salvador (BA) adquiri alguns tecidos africanos, mandei fazer uma roupa para mim e de repente as pessoas se interessaram. Servi de modelo em um primeiro momento e passei a divulgar, aos trancos e barrancos, algumas peças na internet e a costurar, mas ainda sem saber direito como seria”, conta a afroempreendedora, que atualmente possui mais de 7.500 seguidores no Instagram.

Jéssica 'Zarina' Silva durante a elaboração de suas peças de roupa | Crédito: Acervo PessoalA afroempreendedora Jéssica 'Zarina' Silva durante a elaboração de suas peças de roupa | Crédito: Acervo Pessoal

A antropóloga Ana Lúcia Valente, pesquisadora da Universidade de Brasília, destaca no artigo “Empreendedorismo ajuda mulher negra a conquistar respeito social e no mercado de trabalho”, do Sindicato dos Professores no Estado da Bahia que, com a abolição, e sem muitas alternativas para garantir o sustento próprio e de suas famílias, ex-escravas ofereciam serviços de culinária, costura e lavagem de roupas. O ato de costurar representava a essência afetuosa da mulher empreendedora naquele momento, de acordo com a pesquisadora, e é desta forma que Jéssica Zarina se mantém como destaque na moda afro do Nordeste brasileiro.

Hoje em dia, a dona da Zarina encontrou sua própria fórmula para estar em evidência na internet e continuar repassando a história da mulher negra ancestral com vestimentas étnicas. A afroempreendedora conta que para alavancar os negócios, passou a perceber que o novo consumidor da internet deseja saber quem é a pessoa por trás da marca, como maneira de identificação.

“A gente começou a mostrar mais a nossa confecção. Criamos até um destaque no Instagram que mostra inclusive as nossas dificuldades para o cliente, de maneira honesta, para que esse cliente se sinta acolhido por nós e nós por ele. Isso agregou valor e afeto à nossa marca”, salienta a afroempreendedora.

De todas as estratégias para aumentar as vendas e se destacar no ramo, Zarina ressalta que parar de se sabotar é a principal delas. A afroempreendedora pondera que mulheres negras têm que saber que merecem ocupar espaços de destaque, seja na internet, em entrevistas ou até mesmo em palestras para motivar outras mulheres.

“A afroempreendedora não vai empreender com qualquer coisa. Ela vai empreender com aquilo que corresponde à sua essência e traz a história dentro de sua marca. É um resgate ancestral ocupar espaços e não ter vergonha de se posicionar, mesmo sem um diploma acadêmico”, pondera Jéssica Zarina.

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“Se o recurso é pouco, é preciso saber como gerenciar”

Para Fernanda Lopes, Diretora de Programa do Fundo Baobá para Equidade Racial, existem algumas estratégias que as afroempreendedoras podem utilizar para criar a própria oportunidade de crescimento. Oficialmente criado em 2011, o Fundo Baobá é uma organização sem fins lucrativos, que tem por objetivo mobilizar pessoas e recursos, no Brasil e no exterior, para o apoio a projetos e ações pró-equidade racial para a população negra.

“Buscar informações sobre o seu campo de atuação, e o que as pessoas que atuam no mesmo setor têm realizado para divulgar o trabalho, seus produtos, e o que eles trazem de diferencial. Ou seja: é preciso ter uma visão geral do que estão fazendo, para poder fazer diferente, ou fazer semelhante a ponto de ser percebido”, ressalta a diretora. Em 2020, diante da crise sanitária, que afeta principalmente os negócios de mulheres negras, o Fundo Baobá lançou o Programa de Recuperação Econômica de Pequenos Negócios de Empreendedores(as) Negros(as). 

Além disso, Fernanda Lopes aconselha que as afroempreendedoras percebam que se o negócio ainda é pequeno, o cliente está próximo à marca. Desta maneira é possível compreender o que faz mais sentido que esse cliente próximo consuma. “Se o recurso é pouco, é preciso saber gerenciar”, diz.

“Quando o seu produto não é considerado essencial, é preciso que a aquisição faça sentido e que as pessoas possam comprar. Elas precisam não se sentir culpadas ou mesmo arrependidas por realizar esta compra”, avalia. 

Outra estratégia que pode ajudar pequenas empresárias negras, de acordo com a diretora, é realizar uma boa comunicação sobre o produto que é comercializado ou serviço prestado. Ela pondera que esse diálogo pode ser simples, mas deve ser eficiente.

“Um material assim pode ser divulgado nas redes, até mesmo via celular. Explorar os cursos e produtos gratuitos disponíveis no mundo virtual também serve para ensinar essa mulher a montar o seu próprio material de divulgação”, destaca.

Já Ana Paula Silva, fundadora do projeto Mulheres No Corre, sugere que a empreendedora elabore um bom networking, a fim de criar conexões com outras negociantes locais e estabelecer um contato próximo. A iniciativa auxilia empreendedoras periféricas da zona Sul de SP a utilizarem o mundo virtual como estratégia de negócios, com fotos e vídeos profissionais.

A fotógrafa Ana Paula Silva durante uma sessão de fotos de produtos para empreendedoras atendidas pelo projeto Mulheres no Corre | Créditos: Acervo PessoalA fotógrafa Ana Paula Silva durante uma sessão de fotos de produtos para empreendedoras atendidas pelo projeto Mulheres no Corre | Créditos: Acervo Pessoal

“Uma maneira de trazer as pessoas pra perto é utilizar o stories e fazer as pessoas interagirem com você. Imagem é algo que te alavanca, então aposte em boas fotos, não só do seu produto/serviço mas também de você como proprietária daquele negócio”, recomenda.

Dificuldades e afeto

Dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que cerca de 9,3 milhões de mulheres estão à frente de negócios no Brasil (o que corresponde a mais de 30% do total).

Já o Relatório Especial de Empreendedorismo Feminino no Brasil, elaborado pelo Sebrae, aponta que, dos negócios chefiados por mulheres, para as negras o empreendimento é, em mais da metade dos casos, a saída possível frente às necessidades ou à escassez de oportunidades.

“Ser mulher, negra e afroemprendedora, sem formação acadêmica de moda nos coloca diante de muitas dificuldades. Mas o mercado não pode exigir que o negro ‘pare de inventar’. A valorização do nosso trabalho tem que ir além do mês da consciência negra [novembro]. Não é por que sou negra que eu tenho que vender mais barato”, afirma. “Outras pessoas querem ouvir minha história e eu tenho muito a acrescentar. A dificuldade vem primeiro pela cor da pele, depois pelos traços, e aí tem o cabelo. Mas a minha moda é um ato político”, ressalta.

Jéssica Zarina | Créditos: Acervo PessoalJéssica Zarina | Créditos: Acervo Pessoal

A criadora do incentivo Mulheres no Corre, no entanto, salienta que a falta de apoio familiar e a perspectiva de perfeição mostrada nas redes sociais também podem ser entraves no caminho da afroempreendedora brasileira. Ana Paula destaca que a era digital e a falta de recursos servem como desmotivadores para mulheres negras, mas, ainda assim, não são fortes o bastante para apagar o sonho das profissionais. O afeto, segundo ela, é essencial para abastecer as energias.

“A realidade é que todo mundo tem altos e baixos, e é importante que você saiba onde seu negócio quer chegar e tenha paciência para caminhar aos poucos. A gente precisa passar por perrengues pra evoluir, parece clichê, mas é verdade. E o apoio familiar é fundamental”, pondera.

Fernanda Lopes complementa que dicas de outros profissionais do ramo também colaboram para a rede de apoio de afroempreendedoras, e contribuem com a motivação “em tempos de escassez ou quando as crenças limitantes ganham maior volume”, diz.

Perspectivas de futuro e meios para prosseguir

Jéssica Zarina pretende aprimorar as redes sociais e lançar o site oficial da Zarina Moda Afro para se manter em evidência no mercado e atingir novos horizontes. A afroempreendedora quer que a marca seja expandida para além de Pernambuco e até mesmo do Brasil, para alcançar as passarelas de prestígio.

“Meu sonho é estar na São Paulo Fashion Week. Quero levar essa potência do resgate ancestral para a passarela. Nossa moda, nosso corpo e nossa história são potentes. Estamos aqui”, afirma.

Para que outras mulheres possam alçar voos mais altos, o projeto Mulheres no Corre faz uma série de conteúdos na internet, voltados à compreensão de afroempreendedoras sobre como o mundo virtual pode contribuir com seu crescimento. Encontros presenciais ainda não ocorrem devido à pandemia. 

A fundadora do projeto Mulheres no Corre durante palestras de incentivo à empreendedoras periféricas | Créditos: Acervo Pessoal

“É fundamental que elas [empreendedoras] saibam quem são, coloquem sua essência e saibam conversar com o público. Eu faço esse trabalho justamente para que elas ponham mais a cara delas nas redes, que se mostrem, que falem dos bastidores, que não vendam somente um produto/serviço. Quero que as pessoas se conectem com a história de vida delas, e saibam de onde estão comprando, e quanto 'corre' tem por trás daquela empresa”, diz Ana Paula. Quem tiver interesse em participar da ação social precisa entrar em contato com a página oficial do projeto e se inscrever.

 

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